MINHA INCRÍVEL JORNADA FILOSÓFICA - PARTE VI - APROXIMAÇÃO NAZIFASCISTA

 Olá Escritores!


Preparados para o artigo desta semana?


Com atrasos e tropeços, hoje vamos dar mais um passinho nesta incrível jornada em nossa sexta etapa, que abrange o ano de 2018, um dos anos mais complexos de toda esta jornada. 


Como estamos verificando, a minha caminhada acadêmica, que começou em 2013, coincidiu com uma época onde importantes eventos geopolíticos estavam em curso, tanto no Brasil como no mundo, por isso fica difícil separar a instância pública da privada quando falo de minha jornada na academia.


Todos os acontecimentos que se iniciaram em 2013, começando com os protestos, passando pelo golpe contra a presidente Dilma Rousseff, o governo desastroso de Michel Temer, as aberrações da Lava Jato, até a ascensão ao poder do nazifascismo de Jair Bolsonaro, foram eventos políticos e sociais que tiveram forte impacto na minha vida.


A guinada à direita efetuada pelo país nos jogou em um período obscurantista e violento, de intransigência, polarização irracional e destruição de tudo e, neste contexto, foi a "educação" um dos setores mais atingidos.  


Se você parar para pensar, de 2013 até 2022, quando Bolsonaro foi derrotado democraticamente nas urnas, foi a "educação" uma das áreas que mais sofreu nesta última década, foi um período conturbado para todos envolvidos com a educação do país.


Em nosso último encontro conversamos sobre o primeiro ano do golpista Temer, um ano onde a educação foi sistematicamente atacada, verificamos que o ano de 2017 foi um ano onde a crise, que se iniciou em 2013, se aprofundou bastante. 


Michel Temer conseguiu deixar de ser um vice decorativo e chegou à esfera de poder máxima da República, a partir daí, passou a governar o país sem nenhum tipo de diálogo, empurrando goela abaixo da população reformas estruturais duvidosas.


É importante destacar que, assim que chegou ao poder, Temer atacou a educação do país de forma contundente, começando com a sua desastrosa reforma do Ensino Médio que fez questão de retirar do currículo matérias críticas como a Filosofia e Sociologia assim como as matérias voltadas para a cultura como Arte e Educação Física. 


Além de sua atrapalhada reforma do Ensino Médio Temer acabou com o FIES, sucateou deliberadamente programas importantes como o PIBID, atrasou bolsas de mestrado, efetuou cortes de verbas para faculdades entre outros ataques à educação.


2017 e 2018, os 2 anos do governo Temer foram terríveis, a noite mais densa, como gostamos de nos referir a este período, mas o ano de 2018 em particular foi um ano aflitivo, foi nesse ano que o monstro do nazifascismo começou a mostrar sua face.


Nada me prepararia para as sensações que vivi, principalmente no segundo semestre do ano de 2018, foi uma época de muita angústia por ver a figura inacreditavelmente esdrúxula de Bolsonaro se avolumar no horizonte.


Bolsonaro passou de uma improbabilidade estatística para uma possibilidade real, presenciar essa escalada fez ir crescendo em mim certa ansiedade, mês a mês naquele ano de 2018, ao perceber que Bolsonaro estava angariando chances reais de ser eleito, mesmo com todas as barbaridades que ele falava e fazia, fui tomado por uma ansiedade que atrapalhou bastante o meu desempenho acadêmico.  


Daqui a pouco, em nosso texto de hoje, vamos conversar melhor sobre esta complexa época, antes disso, vamos recapitular brevemente a nossa trajetória até aqui:


Começamos nossa incrível jornada com o texto MINHA INCRÍVEL JORNADA FILOSÓFICA - PARTE I - O DESLUMBRAMENTO COM O MUNDO FILOSÓFICO, publicado em 18/3/2023.


Nosso segundo passo foi o artigo MINHA INCRÍVEL JORNADA FILOSÓFICA - PARTE II - PLANOS PARA O FUTURO, publicado em 25/3/2023.


Na sequência, demos o nosso terceiro passo com o artigo MINHA INCRÍVEL JORNADA FILOSÓFICA - PARTE III - A TEMPESTADE ESTÁ VINDO, publicado em 7/4/2023.


Depois, falamos daquele complicado ano de 2016 no texto MINHA INCRÍVEL JORNADA FILOSÓFICA - PARTE IV - NO OLHO DO FURACÃO, publicado em 17/4/2023.


No dia 1 de Maio, dia do trabalhador, publicamos a nossa conversa sobre o primeiro ano do golpista Temer no texto MINHA INCRÍVEL JORNADA FILOSÓFICA - PARTE V - A NOITE MAIS DENSA....


E hoje, partimos para mais uma etapa desta incrível jornada, falando sobre o ano de 2018, o segundo ano do golpista Temer e o ano da aproximação nazifascista.


Então, pegue suas talhas e vamos partir para mais esta etapa de nossa incrível jornada!


Todos prontos? 


Então tenham uma boa leitura !!




SEMESTRE 2018/1


A situação política do Brasil estava um caos em 2018, era simplesmente impossível ficar indiferente aos acontecimentos daquele ano, em outubro teríamos as eleições presidenciais e Bolsonaro já despontava como o grande favorito para derrotar a esquerda que, a esta altura, já houvera sido demonizada pela mídia e pelos ardis da extrema direita e seu esgoto de internet.


É estupefaciente pensar isso depois de tudo que passamos, mas, quanto mais absurda a declaração dada por Bolsonaro, mais ele crescia nas pesquisas.


Desde que se confirmou a sua intenção de ser candidato à presidência as declarações mais estapafúrdias que se pode imaginar foram proferidas, discursos inflamados, preconceituosos e criminosos. 


Vocês devem se lembrar quando ele declarou que os afrodescendentes, membros de comunidades quilombolas; não fazem nada e que não servem nem para procriar , além de se referir aos membros dessas comunidades em arrobas, desumanizando os membros das comunidades quilombolas. 


Ele também disse que a população indígena é; cada vez mais um obstáculo para o desenvolvimento do Brasil.


Declarações homofóbicas, obviamente, não faltaram em seu repertório, como quando disse que; preferia que um filho morresse em um acidente a ser gay

Ele também afirmou que não empregaria homossexuais em seu gabinete, por considerar que; são promíscuos e que poderiam causar constrangimentos.

Outra "pérola" dita por Bolsonaro foi que o erro da ditadura foi; torturar e não matar, que o golpe militar de 1964 foi uma; revolução democrática, e que o presidente da época, Médici, foi; o melhor presidente que o Brasil já teve.

Incitação à violência sempre foi uma constante nos discursos de Bolsonaro, suas falas violentas se materializavam em declarações como quando afirmou que; vagabundos merecem morrer, e que é preciso; metralhar a petralhada, em referência aos membros do Partido dos Trabalhadores, em uma apologia descarada ao assassinato e à violência armada que foi aplaudido por muitos e ignorado por outros tantos.

Mesmo com o inacreditável crescimento de Bolsonaro nas pesquisas, Lula sempre se mostrou uma força política poderosa e, mesmo com o jogo rasteiro e criminoso da Operação Lava Jato e com o sistemático ataque da mídia, Lula liderava as pesquisas de intenção de voto e tudo indicava que bateria Bolsonaro, mesmo com dificuldades, em um segundo turno.  

Estava claro que, por meios legais, seria difícil vencer Lula nas eleições, para retirar Lula da disputa e deixar o caminho livre para Bolsonaro, Sérgio Moro e Deltan Dellagnol (entre outros crápulas) se prestaram a um dos papeis mais rasteiros da história recente do país, por meio de um conluio, que resultou em uma condenação sem provas, garantiam que Lula ficasse fora da disputa.

Lula foi condenado em primeira instância pelo TRF-4 que, não somente referendou a denúncia do então juiz Sérgio Moro, como aumentou a pena por suposta corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá.

A condenação de Lula foi baseada em uma denúncia "sem provas", evidências fracas e circunstanciais. 

Constantemente desafiado pelo repórter Reinado Azevedo a citar em que página da sentença está a prova contra Lula, Sérgio Moro sempre declina e é incapaz de responder a este simples questionamento.

Junto com Moro, o procurador Deltan Dallagnol liderou a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, Dallagnol e Moro trabalharam em estreita colaboração para levar Lula à justiça, e suas táticas foram controversas e questionáveis. 

As mensagens vazadas pela Vaza Jato mostram que Moro e Dallagnol estavam conspirando para condenar Lula antes mesmo do julgamento, o que demonstra a parcialidade do juiz e dos procuradores.

Em 2019, novos dados obtidos pela Operação Spoofing, realizada pela Polícia Federal, trouxeram novas mensagens e fatos que  corroboraram as articulações fraudulentas de Sérgio Moro e Deltan Dellagnol.

Além disso, a imprensa brasileira desempenhou um papel importante na construção da narrativa em torno da Lava Jato e da condenação de Lula, A mídia frequentemente retratava Lula como um criminoso perigoso e corrompido, e muitos brasileiros foram influenciados por essa narrativa.

A prisão de Lula em abril de 2018 ocorreu em meio a uma atmosfera política conturbada e de forte espetaculização midiática, marcada por protestos, polarização e divisões profundas na sociedade brasileira. 

A prisão de Lula foi politicamente motivada e o ex-presidente foi condenado sem provas.

Eu me dei ao trabalho de ler a sentença de Sérgio Moro com mais de 200 páginas e posso garantir que não existe ali nenhuma menção à "prova" que, supostamente, indique o crime cometido.

O que me chamou a atenção na sentença de Sérgio Moro é a sua escrita esculachada, a completa falta de erudição, considerando o cargo que ocupava à época, e como escreve mal, mas, para além da falta de decoro para um juiz, há ali também um escorregadio jogo de palavras; nas partes onde deveriam estar a suposta "prova" encontramos palavras dúbias como "é certo porém" ou "o que é indicativo", "teria havido fortes indícios", "em matérias de jornais"  entre outras palavras vagas que visam ludibriar o leitor, principalmente os já propensos a acreditar na narrativa.

Foi graças as revelações feitas pela Vaza Jato e pela Operação Spoofing que veio a público o conluio de Sérgio Moro, Deltan Delagnol, procuradores, juízes, desembargadores e advogados para condenar sem provas o líder das pesquisas naquele ano.   

A decisão do Supremo Tribunal Federal de rever a condenação de Lula e libertá-lo em 2019 foi vista por muitos como um reconhecimento das falhas e injustiças do processo.

Isso tudo acontecendo ainda no governo do golpista Temer que já estava completamente apagado, rebolando para se livrar dos incontáveis processos na justiça como a denúncia de corrupção passiva no caso da mala de dinheiro entregue pelo empresário joesley Batista da JBS entre outros processos. 

Se aproveitando da vulnerabilidade do governo Temer, Bolsonaro assumiu a liderança de uma greve dos caminhoneiros que começou em 21 de maio e foi até 31 do mesmo mês.

A greve dos caminhoneiros em maio de 2018 foi um dos maiores movimentos de paralisação da história do Brasil, a paralisação afetou a economia do país de várias maneiras, incluindo a interrupção do transporte de mercadorias, o fechamento de empresas e a falta de produtos básicos nos supermercados.

Segundo estimativas da Confederação Nacional do Transporte (CNT), a greve dos caminhoneiros resultou em um prejuízo de cerca de R$ 15 bilhões para a economia brasileira, além disso, a paralisação também afetou o abastecimento de combustíveis, causando filas nos postos de gasolina e aumentando os preços dos combustíveis.

Foi neste cenário caótico que eu procurava forças para continuar minha jornada na academia, no semestre 2018/1 me matriculei em 3 matérias:
  

Tópicos Especiais no Ensino de Filosofia II, com João Assis, Antropologia Filosófica I, com Luiza Helena Hilgert e Filosofia Contemporânea IV com Bento.


Tópicos especiais de Filosofia II, com Jõao Assis, foi a última matéria específica da modalidade Licenciatura que eu fiz, para quem não se lembra, as matérias da modalidade Licenciatura são aquelas matérias voltadas para os futuros professores.


A segunda parte de Tópicos Especiais do Ensino de Filosofia trata de um aprofundamento do que estudamos na parte I, lá no ano de 2015 e do qual conversamos na parte III de nossa incrível jornada.


Essa matéria foi interessante no sentido de se propor a desenvolver uma metodologia específica que levasse em consideração as especificidades do ensino de Filosofia para alunos de Segundo Grau, afinal, a Filosofia voltada para os adolescentes de Segundo Grau não tem muito a ver com a Filosofia acadêmica e seus propósitos são bem diferentes.


Sendo assim, foi interessante este aprofundamento em pensadores que se debruçam em formas concretas para fazer da Filosofia de Segundo Grau uma forma crítica de pensar e de formar cidadãos conscientes, certamente, usei muito desses conceitos quando conversamos sobre a Filosofia voltada para o Segundo Grau no artigo FILOSOFIA CONTUNDENTE, publicado em 21/5/2022, não obstante, como já conversamos antes, as aulas da Licenciatura são extremamente desgastantes, exigentes e maçantes e, depois de tudo que eu havia passado até então e com a minha paciência no limite, acabei passando com uma modesta nota 6,00. 


Outra matéria complexa que fiz neste semestre foi Antropologia Filosófica com a professora Luiza Helena Hilgert, foi complicado fazer essa matéria por 2 motivos principais; primeiramente porque eu estava fazendo essa matéria pela segunda vez já que, conforme conversamos lá na parte IV de nossa jornada, eu havia reprovado nela com o professor Bonamigo.


Então, eu já fui fazer a matéria apreensivo e ansioso por não me permitir reprovar novamente, o outro motivo de aflição foi o fato de não conhecer a professora Helena, eu não sabia nada sobre ela; qual seria o estilo de sua aula? Como seria a avaliação? Ela seria exigente demais? Eu teria dificuldades com ela? Não tinha como saber nada disso e eu não tinha como evitar sua aula, pois, tinha que fazer essa matéria de qualquer jeito.


Helena é uma professora de presença altiva, uma mulher resolvida, bonita e muito competente em seu manejo com a turma, feminista, existencialista com ênfase em filosofia francesa, sua aula era sempre com a proposta de "novos olhares" para toda a tradição da Filosofia ocidental.


Sua avaliação final foi nos propor entregar um artigo, dentro das normas ABNT, sobre uma nova antropologia filosófica que abrangesse todos os entes que historicamente ficaram de fora das grandes elucubrações filosóficas, como os negros, as mulheres, os latinos, os africanos, os indígenas e tantos outros que nunca tiveram uma efetiva voz ativa dentro dos sistemas filosóficos tradicionais.


Achei a proposta de Helena interessantíssima e me esforcei para fazer um trabalho que levantasse esses problemas, dos quais discutíamos nas aulas, mesmo tentando o meu melhor, não consegui uma nota maior do que 7,60, mas fiquei satisfeito e aliviado por ter virado a página e deixado minha reprovação para trás.


Algum tempo depois, usei esse trabalho de base para escrever uma série de 3 textos que publicamos aqui em nosso espaço, são eles:


NOVA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA - PARTE I - OS PILARES DA MODERNIDADE E A ASCENSÃO DO INDIVÍDUO RACIONAL, publicado em 4/6/2022.


NOVA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA -PARTE II - O PENSAMENTO DE DIREITA - DE CUNHO INDIVIDUALISTA - COMO A ESCOLHA DO OCIDENTE, publicado em 11/6/2022. 


E o artigo NOVA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA - PARTE III - A ESQUERDA COMO RESULTADO DAS CONTRADIÇÕES DO CAPITALISMO E SEU PAPEL NO MUNDO MODERNO, que publicamos em 18/7/2022.     

...


Fechando o semestre 2018/1 fiz a matéria Filosofia Contemporânea IV com Bento, onde, nos aprofundamos bastante em Heidegger, nessa aula eu esquadrinhei a filosofia heideggeriana, cogitei inclusive trabalhar um tema em Heidegger para fazer meu TCC e fiz muitas aulas extras com Bento, conversando sobre esta possibilidade.


Apesar de toda a carga política do país, que pesava bastante em meu espírito, sempre havia aulas desafiadoras e "filosóficas" como da professora Helena e do professor Bento que me faziam mergulhar fundo na Filosofia e esquecer um pouco a confusão política que me cercava, mesmo que por algumas horas.


Era arrebatador entrar em uma sala de aula para estudar Filosofia, me entregar à abstração das grandes questões filosóficas que são, em última instância, os verdadeiros problemas humanos.


Quando eu estava fazendo Filosofia; lendo, escrevendo e conversando com meus amigos de jornada e com os meus mestres sobre estes temas, eu tinha uma breve pausa dessas angústias existenciais/políticas que me assombravam dia após dia e que tanto atrapalhavam a minha caminhada.


A aula de Bento era um desses bálsamos, era um momento para esquecer os problemas do país e apenas me entregar à leitura, à escrita e ao pensamento crítico, no final do semestre passei com o Bento com uma nota 8,50.


Uma pena que esses momentos de "alienação filosófica" foram ficando cada vez mais raros, chegou uma hora que a situação do país ficou tão periclitante que nem mesmo fazer  Filosofia me dava alívio. 


Havia uma sombra se aproximando, uma nuvem negra de obscurantismo, ignorância, violência e golpismo;


Era o nazifascismo de Jair Messias Bolsonaro, cada vez mais perto ... 


SEMESTRE 2018/2


O segundo semestre do ano de 2018 foi complicado...

Não conseguia mais me concentrar direito nas aulas porque só pensava em "eleições presidenciais", a cada dia que passava e com o crescimento de Bolsonaro nas pesquisas ia aumentando a minha aflição.


Lula estava preso, graças as falcatruas de Moro, Dellagnol e seus comparsas do TRF-4 e Bolsonaro seguia desfiando suas mentiras na máquina de fake news que ele e seus filhos bandidos montaram na internet.


É importante deixar claro, a guisa de registro histórico, que a internet teve papel preponderante na manipulação da opinião pública nas eleições de 2018.


Durante a campanha, surgiram diversas notícias falsas propagadas principalmente por Bolsonaro e seus filhos, uma verdadeira máquina de destruição de reputações foi montada no comitê de campanha bolsonarista, o "gabinete do ódio" como ficou conhecida essa estrutura de propagação de mentiras, se aproveitou da falta de legislação sobre a internet e seguiu por toda a campanha destruindo qualquer um que atravessasse o caminho de Bolsonaro.


Com Lula preso, a mídia ainda nas garras da Lava Jato e a máquina de mentiras bolsonarista funcionando a todo o vapor, ficou difícil me concentrar nos estudos, eu só pensava em convencer todo o meu ciclo social em, simplesmente, não votar em um nazista.


Mas esta era uma tarefa hercúlea, porque um antipetismo irracional estava instaurado no país, com exceção de meus amigos de universidade e alguns poucos amigos fora do mundo acadêmico, todo o restante de meu ciclo social; amigos, colegas, familiares estavam tomados por este antipetismo irracional e fechados para qualquer tipo de diálogo.


Eu fazia um esforço sincero para convencer as pessoas a não votar em Bolsonaro, mesmo que a pessoa não votasse em Lula de jeito nenhum, procurava me armar de dados, fatos e de uma argumentação lógica para demonstrar que Bolsonaro não era o "novo" contra o establishment e, nem de longe, era a melhor opção para quem não quisesse votar no PT, haviam outros candidatos, outras opções. 


Mas nesta estranha era que atravessamos a argumentação lógica ficou meio démodé e eu não conseguia convencer os convictos, na cabeça das pessoas valia qualquer coisa para evitar o PT, valia inclusive, entregar o país nas mãos de um ditador miliciano, nazifascista e sem nenhum apego à democracia. 


Era cansativo, desestimulante, frustante, irritante e desolador argumentar, demonstrar fatos, documentos, evidências, ficar horas falando ou escrevendo "textoes" no facebook para demonstrar o óbvio e, no final, ouvir um jocoso "é melhor jair se acostumando".


Hoje, quando revisito este período em minhas memórias, percebo que as pessoas não estavam levando as coisas muito a sério e decidiram fazer uma aposta; muito dessas pessoas eram inteligentes e instruídas o suficiente para perceber que Bolsonaro era racista, incompetente, misógino, homofóbico, tosco, chulo e outras coisas, mas decidiram apostar tudo na eleição desse sujeito por um simples  antipetismo irracional.


Esta foi uma época de muitas decepções, teve algumas pessoas de meu ciclo social que eu percebi que não conhecia tão bem quanto eu pensava que conhecia; gente pela qual eu tinha consideração defendendo tortura, dando declarações homofóbicas e racistas, defendendo atos de violência, armas, golpismo.


Com algumas dessas pessoas tive que cortar relações porque não conseguia mais ver pessoa com a candura de antes, olhava para essas pessoas e só via o seu lado "bolsonarista", era como se um encanto tivesse sido quebrado e, a partir daí, eu fosse capaz de ver a verdadeira face de determinada pessoa; e era uma face feia e repugnante.


Vocês devem se lembrar das imagens das pessoas fazendo "arminha" com os dedos em igrejas e outros ambientes religiosos, eu pensava; "como pode um cristão votar nesse sujeito?", o ideário bolsonarista vai de encontro aos ensinamentos de Jesus Cristo, mesmo assim, ele conseguiu uma adesão impressionante na comunidade evangélica, isso era outro fator que ia minando minha saúde mental.


Eu estava realmente exaurido de toda aquela situação; discussões intermináveis em todos os ambientes que eu frequentava, físicos e virtuais, uma adesão massiva ao bolsonarismo de setores que eu não esperava e mês a mês, dia a dia, a possibilidade de Bolsonaro se eleger cada vez mais real ...


Neste estado de espírito me matriculei em 3 matérias naquele fatídico semestre 2018/2; Filosofia e Literatura II com Fernando Pessoa, Tópicos Especiais de Filosofia Social e Política IV com Bonamigo e Projeto de Monografia com Wander Andrade de Paula.


Com Fernando Pessoa e Bonamigo ainda consegui me concentrar um pouco e passei nas duas matérias com as respectivas notas 6,50 e 8,50.


Já em Projeto de Monografia, com Wander, não consegui me dedicar e amarguei minha segunda reprovação no curso ...


A matéria Projeto de Monografia é uma matéria que devemos fazer antes da monografia final, também conhecido como Trabalho de Conclusão de Curso, o TCC.


Resumidamente falando, na matéria Projeto de Monografia você deve apresentar um resumo do seu trabalho final e convém já ter estabelecido o tema no qual você vai trabalhar, o filósofo que você vai usar na sua argumentação, o seu professor orientador, as principais fontes, objetivos, planos de trabalho, bibliografia básica, ou seja, trata-se da monografia final em resumo para que o professor lhe oriente nos detalhes para, enfim, a grande apresentação final para uma banca de 3 professores que encerra a caminhada acadêmica do estudante.


Eu cheguei nessa matéria sem nada definido a respeito da minha monografia final, ainda não tinha definido meu tema, não sabia qual pensador usar, não tinha conversado com nenhum professor sobre uma orientação, estava cheio de dúvidas, desconcentrado, imerso na situação política do país, aflito com a aproximação nazifascista.


Era o meu primeiro contato com Wander como meu professor e ele é um daqueles professores exigentes que sempre tiram o melhor de seus alunos e eu, naquele estado em que me encontrava no final de 2018, não tinha condições de me dedicar a contento para aquela matéria e para a exigência de Wander.


Além disso, em relação ao meu TCC eu estava muito atrasado, eu já deveria estar com meu tema definido, orientando, filósofo, bibliografia etc. e, nessas condições Wander não teve outra opção a não ser me reprovar na matéria com a ridícula nota 1,5.


O meu TCC foi, sem dúvida, uma das fases mais difíceis de toda esta minha incrível jornada e vamos falar muito sobre isso em nossos encontros futuros.

...


Em outubro de 2018 eu estava desgastado, emocionalmente falando, e não conseguia mais pensar em nada a não ser as eleições, minha situação na academia naquele semestre estava definida; eu havia passado em Filosofia e Literatura II e Tópicos Especiais de Filosofia Social e Política IV, mas reprovara pateticamente em projeto de Monografia. 


Dias antes das eleições, já aceitando a triste possibilidade de Bolsonaro ganhar as eleições, me encontrei com Felipe Sabadine, um amigo da universidade, lá no Píer de Iemanjá, em Camburi.


Era uma noite densa, com pouca gente na rua e nuvens pesadas no céu, Felipe e eu desolados com a possibilidade que se descortinava bem a nossa frente; parecia improvável uma virada de Haddad e a vitória de Bolsonaro era certa.


Naquele dia fomos tomados por uma desesperança latente, até o céu naquele dia parecia ter perdido suas cores e o mundo inteiro ficou cinza.


Foi uma conversa longa e profunda que tivemos naquele dia, em um ato de desesperada esperança cheguei até cogitar a possibilidade de estarmos enganados e Bolsonaro fazer um bom governo, "quem sabe" dizia eu e Felipe respondia "impossível isso acontecer" e eu despencava ao frio chão da contingência e da triste realidade ...



Essa conversa com Sabadine, no apagar das luzes daquele ano de 2018, foi marcante para mim, foi o meu último desabafo sobre aquela terrível fase que se iniciou em 2018 e, de certa forma, foi um alívio perceber que eu não estava sozinho em minha aflição. 


Depois, cada um tomou seu caminho de volta, para as suas vidinhas e eu me lembro de ter tido uma boa noite de sono depois dos meus desabafos com Felipe. 


Uma rara e boa noite de sono em muito tempo, naquele ano da aproximação nazifascista.


O ano de 2018 fica marcado nesta incrível jornada como um ano de muita aflição, onde, mês após mês, dia após dia, fui vendo o nazifascismo se tornar uma realidade.




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E aí, gostaram do artigo dessa semana?


Antes de mais nada, aquele pedido de desculpas caprichado, afinal, desta vez atrasamos bastante em nosso periódico. 


Vocês me perdoam? 


Mesmo com os inevitáveis atrasos estamos avançando nesta incrível jornada e, relendo o artigo, antes de publicá-lo, percebi que ficou um artigo bem tenso, sem fotos e com um climão bem pesado.


Isso porque aquele ano de 2018 foi deveras um ano bem tenso mesmo, mas houveram alguns momentos de descontração e alegria também e eu acabei esquecendo de citar um desses momentos.


Nos dias 22, 23, 24, 25 e 26 de outubro daquele ano de 2018 a UFES sediou o XVIII Encontro Nacional da Anpof.


A Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia ou ANPOF é uma organização acadêmica que reúne cursos de pós graduação em Filosofia a nível de mestrado e doutorado.


A cada 2 anos, desde o ano de 1983, ano em que foi fundada, a ANPOF realiza encontros nacionais com o intuito de fomentar a integração entre os diversos programas de pós graduação em filosofia do país.


Em 2018 foi a vez de Vitória sediar um desses encontros, o décimo oitavo deles, e foi uma experiência maravilhosa para todos nós, estudantes.


Além do ativo acadêmico, com mesas redondas, tertúlias, palestras, discussões, apresentações de teses entre outros, foi dado aos estudantes a oportunidade de participar da organização do evento com o pagamento de uma ajuda de custo que foi muito bem vinda.


Foram dias maravilhosos, com muito engajamento de todos os estudantes, respirando filosofia intensamente durante todo o evento.


Era divertido chegar na universidade cedo, sem preocupação com alimentação e participar da organização de um evento tão grandioso como este.


Em um ano tão complexo como foi o ano de 2018, com a aproximação nazifascista já em curso, foi um bálsamo poder viver em um ambiente filosófico/acadêmico de tanto garbo, elegância e importância como foi o XVIII Encontro Nacional de Filosofia e seria uma injustiça não registrar aqui este grande momento na minha incrível jornada.


Este foi um dos raros momentos de felicidade naquele complexo ano de 2018, um momento de forte engajamento de toda a comunidade acadêmica que ficou gravada em minha memória de forma muito especial.


       

...


Semana que vem estamos de volta para a parte VII de nossa incrível jornada.


Já contamos com a presença de todos vocês!


Até lá e cuidem-se!!  


    




    

 

 


 





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