A NOVA FACE DO TERROR - ATENTADOS NA FRANÇA



Ola Escritores !!

Preparados para o artigo desta semana ??


Hoje, vamos refletir um pouco sobre os terríveis atos de violência ocorridos na França por ocasião dos atentados contra a Revista Charlie Hebdo, uma revista de sátira francesa que sofreu um terrível atentado no último dia 07 de janeiro de 2015;


mais terrível do que o atentado em si é a avalanche de "justificativas" para o atentado, busca-se uma forma de corroborar o atentado pela veia crítica/satírica da revista o que demonstra a sociedade problemática em que vivemos.

Este atentado também tem servido de justificativa para o aumento do desprezo à cultura judaica e o acirramento das diferenças entre culturas, demonstra que tempos difíceis vão se assomando no horizonte, tempos de muita intolerância e intransigência.


Nosso artigo de hoje busca fazer uma análise crua dos acontecimentos, no calor do fato.


O futuro vai nos dizer se erramos ou acertamos em nossas conjecturas, mas ninguém vai poder dizer que nos acovardamos perante o fato.

Esperamos que você tenha uma Boa Leitura e uma Boa reflexão!!    

 

Charge publicada uma semana depois do massacre.




Os atentados ocorridos contra a imprensa francesa vêm gerando uma série de discussões e comoções por todas as partes do globo. 


Muitas teorias vêm sendo levantadas para explicar o fato ocorrido, entre as várias explicações vem se falando em choque de culturas, liberdade e fanatismo religioso, limites da imprensa entre outros. 


De fato, acho realmente uma pena que só depois de um ataque brutal a um país rico, e especificamente a imprensa deste país para que o mundo volte a debater os problemas que desde sempre estiveram aí. 


Não podemos esquecer que ataques terroristas, que assustaram o povo francês e seus aliados, não são novidades. Somente no ano passado foram mortas mais de 18 mil pessoas vítimas de ataques terroristas na Europa e no Oriente Médio. 


Fatos como a guerra civil na Síria, o sequestro de mais de 200 jovens na Nigéria e a criação do Estado Islâmico não são fatos isolados eles têm ligação entre si e ligação direta com o que está acontecendo hoje na França e no mundo. 


O senso comum tem a tendência de julgar o fato como algo isolado, quando na verdade não é. 


Para podermos entender o que está acontecendo hoje no mundo ocidental, representado aqui pelos ataques ocorridos na França, é preciso nos situarmos em todo um contexto com ramificações estendidas por toda o choque que sempre existiu entre Oriente e Ocidente.



Há um padrão se formando, principalmente depois dos ataques as Torres Gêmeas, que envolve grupos muçulmanos, há mudanças nas redes terroristas; 


a Al Qaeda se fracionou depois da morte de Osama Bin Laden, neste contexto o Estado Islâmico é uma novidade. 


O Estado Islâmico foi formado, com esta nomeclatura, e com o início do califado de Abu Bakr Al-Baghdadi[1] no ano de 2010, mas suas raízes são muito mais profundas do que isto. 


Ele se formou logo depois da morte de Osama Bin Laden quando o poder estava no estágio de transição, o Estado Islâmico é um grupo jihadista do oriente Médio auto proclamado um califado, com a pretensão de ser uma liderança mundial para todos os muçulmanos da Terra, além de objetivar também a tomada de territórios de maioria muçulmana. 


Muitos dos homens que lutam no Estado Islâmico foram treinar na guerra da Síria. 


É interessante notar que este Estado Islâmico é o fruto das atitudes tomadas pelos Estados Unidos na época dos atentados do 11 de Setembro, naquela ocasião, depois de ter passado o primeiro impacto do ato terrorista, na hora em que todas as atenções do mundo se voltaram a George W. Bush, para sabermos qual seria a resposta aos atentados, lembro-me vividamente que o presidente falou, em seu discurso, ocorridos cerca de 12 horas depois dos atentados, que não estava declarando uma guerra contra o Islã, mas sim uma guerra contra o terrorismo. 


Note que o discurso das autoridades francesas é praticamente o mesmo de George W. Bush, e isso me causa preocupação.  


Depois de passada a fase dos discursos,  passou-se para a fase das ações, e o que vimos foram ações contrárias ao discurso já que a atitude dos Estados Unidos foi a de levar a guerra a países do Oriente Médio, principalmente ao Iraque, uma guerra que teve um toque macabro; 


a primeira guerra transmitida ao vivo pelas TVs, ainda é vívido em mim a lembrança da angústia que senti vendo as bombas caindo em solo iraquiano e todo o desenrolar desta guerra; 


a invasão do Kuait, e, posteriormente, a Guerra do Golfo além da caçada insana e infundada a Saddam Hussein, já que até mesmo os motivos alegados pelo governo americano; 


de que o Iraque estava produzindo armas de destruição em massa não se mostraram verdade.


Sempre que o ocidente é atacado em pontos emblemáticos e em países ricos, voltamos ao debate e buscamos explicações para o nosso relacionamento com o mundo Oriental e islâmico, mas somente em situações extraordinárias como os recém atentados a França ou os ataques ocorridos no metro da Espanha em março de 2004, em Londres, também no metro em 2005 ou nos EUA, na maratona de Boston em 2013. 


No entanto ignoramos as mais de 18 mil pessoas mortas em outros atentados por toda a Europa e no Oriente Médio somente no ano passado; 


ignoramos os massacres de crianças e cristãos, ocorridos na Nigéria; 


ignoramos o sequestro de 200 meninas por grupos extremistas também na Nigéria; 


ignoramos a guerra na Síria que se estende por todo o país e deixa milhões de refugiados sem ter para onde ir nem para onde voltar.


Na França existem 6 milhões de muçulmanos, cerca de 8 % da população daquele país e a pergunta que me vem a cabeça é: 


Como é a relação dos franceses com este contingente de muçulmanos?


A França é o país que esta melhor preparada no mundo, depois dos Estados Unidos, a lidar com o terrorismo. 


Hoje se fala muito em conceitos como “lobos solitários” que são pessoas sem ligação direta com grupos terroristas, mas que se atrelam a eles através de sua ideologia e a levam tão a sério que são capazes de entregar a sua vida as causas destes grupos. 


Também se ouve falar de “células dormentes” um conceito que vem da Guerra Fria e volta nos dias atuais para explicar o fato de algumas pessoas que se unem em torno de uma ideologia deturpada, e agem com sangue frio, esperando um melhor momento para agir e implementar sua política de espalhar o terror. 


A França, não hesita em levar a violência ao mundo Islâmico, isso aconteceu na Líbia, em Mali, Na Argélia e acontece hoje em dia na Síria, na Líbia e na Tunísia. 


Não é uma justificativa para que exista a violência é só uma explicação, dentre outras, para os atos violentos. 



Não podemos esquecer-nos de levar em consideração o problema da associação dos estrangeiros pela Europa, que ocorre de forma muito diferenciada dos países das Américas como os Estados Unidos ou mesmo o Brasil, no “novo Mundo” a associação de culturas diferentes é melhor assimilada, diferente da Europa que age com xenofobismo as novas culturas, mesmo assim, em alguns momentos históricos, a Europa se vê forçada a assimilar a cultura estrangeira, as vezes por necessidade de mão de obra, as vezes por comércio, as vezes por pura conveniência e assim temos hoje somente na França mais de 6 milhões de muçulmanos vivendo somente na região de Paris e adjacências, uma região que circunda a região da cidade de Paris, uma área que aqui no Brasil nós chamaríamos de “Grande Paris”, na verdade, grandes subúrbios onde vivem muitos franceses descendentes de, na sua grande maioria argelinos, que sentem-se como um corpo estranho, mesmo sendo franceses, dentro da França. 


No caso dos atentados em Paris, por exemplo, os terroristas eram de nacionalidade francesa, que foram treinar fora do país, principalmente na Síria, porque estavam descontentes com o país onde nasceram, e este é um novo problema nesta nova faceta do terrorismo que se enfrenta agora; 


não são grupos grandes, são indivíduos, grupos pequenos, difíceis para as agências de inteligência rastrear, pessoas que, descontentes com as políticas adotadas em seus países, encontram nestas ideologias o solo fértil para destilar o ódio ao Ocidente e suas representações democráticas.


A Europa vive um momento delicado de sua história, a economia não está bem desde 2008 e é claro que problemas financeiros também são combustível para alimentar o fogo do ódio que se espalha pela Europa, também estamos vendo o surgimento de forças populista que contestam a União Europeia, que contestam a perda da identidade nacional, que vêm, no que eles chamam de “islamização do ocidente” uma ameaça real. 


O grande “projeto europeu” está em cheque e os atentados ajudam alguns grupos de extrema direta, que sugerem retaliações duras como, por exemplo, a volta da pena de morte, leis mais rígidas para imigrantes, a separação da União Europeia entre outras medidas radicais.


O que seria o projeto europeu? 


Trata-se de uma questão de identidade nacional, ela nasceu junto com a União Europeia que foi uma união efetuada logo depois da Segunda Guerra Mundial como um projeto de ajuda mútua entre os países já que a maioria estava destruída pela guerra, e com a consciência de sua fragilidade perante o nascimento de novas superpotências mundiais como os Estados Unidos e a União Soviética. 


A intenção da União Europeia é a de formar um grande bloco de países unidos por laços de identidade nacionalista, desde a sua criação e com o passar dos anos a U. E. Vem abrangendo um número cada vez maior de países da Europa e em 1993 foi criada uma moeda única, o Euro que ajuda ainda mais na consolidação dos projetos da U. E. Mas a intenção desde projeto europeu é muito mais ambicioso, ele visa atingir a identidade nacional. 


A identidade nacional tem componentes étnicos, culturais, políticos e territoriais, tem haver com o lugar, com ancestralidade etc. e o projeto europeu visa atingir todos estes componentes para que cada cidadão europeu sinta-se um europeu acima de sua nacionalidade original, por exemplo, que um francês sinta-se antes de ser um francês, um europeu. 


No entanto, ataques como os ocorridos nos últimos dias abalam todo este projeto, e os países europeus voltam-se contra esta grande união europeia e inflamam o ufanismo nacional deixando de lado o projeto europeu, encerrando-se em suas limitadas fronteiras e atiçando assim o xenofobismo, na frança, por exemplo, só vale o que for estritamente francês e assim por diante em toda a Europa.



Seria um erro, em minha opinião, pensar que nós, brasileiros e latinos em geral, não temos nada a ver com isso, em primeiro lugar porque o problema de terrorismo não me parece ser um problema restrito somente a alguns países e nada mais, me parece ser um problema mundial que quando é ignorado cresce e ganha força e se espalha como se fosse uma praga, por isso eu não desconsideraria a possibilidade de ataques desta natureza acontecerem em lugares considerados livre desse mal como o Brasil, por exemplo. 


Em segundo lugar o que estamos vendo aqui é um choque entre Ocidente e Oriente duas partes do mundo que tiveram seus desenvolvimentos diferentes um do outro, e, como uma característica de nós, seres humanos; 


temos dificuldade de aceitar o que nos é diferente. 


Este choque de culturas causa uma contradição, e nós não sabemos como lidar com isso. 


De um lado temos a globalização, que jogou uma capa de uma suposta cultura de massas que tudo nivela e um consumo de massa que tudo nivelaria porem, por baixo disso fervilha as identidades nacionais tanto as identidades milenares, como as novas identidades que surgem destes fenômenos.                                             


Note como vai se formando um caldeirão fervente, formado por conflitos culturais e religiosos, negligência, intransigência e é claro, uma boa pitada de política.



Campo fértil de discussões sórdidas; 


a internet. 


E mais uma vez proliferou-se um enxurrada de comentários vazios, alguns preconceituosos outros medonhos e uns poucos sérios e proveitosos. 


Muita gente querendo justificar o que aconteceu dizendo que, na verdade o que aconteceu é aceitável porque a revista Chalie Hebdo fazia sátiras ofensivas ao profeta Maomé, o que estas pessoas não levaram em consideração é o Estado Democrático e o que ele representa. 


Um Estado Democrático abrange condições sociais, econômicas e culturais que permitem o exercício livre e igual entre todos que vivem sob a tutela do regime democrático, em outras palavras, cada cidadão é livre para poder se expressar sobre qualquer assunto, e quando digo “expressar sobre qualquer assunto” entenda aí também “criticar qualquer assunto” inclusive assuntos polêmicos como religião. 


Muitos dirão; 


“as charges da revista Chalie Hebdo eram ofensivas e desrespeitosas”; 


e eu não vou discordar disso! 


Porém o que estou tentando esclarecer é que o Estado Democrático em que vivemos dá a eles o direito da crítica. 


Eu mesmo já escrevi vários textos criticando o Cristianismo e não consigo imaginar um lugar onde me fosse proibido o direito de falar o que penso sobre um determinado assunto, mesmo um assunto que mexe com a vida de muitas pessoas como o tema religião. 


Talvez, no caso da revista francesa, por ser uma representação gráfica, uma charge, um desenho o impacto tenha sido mais forte, mesmo assim não dá para imaginar uma proibição para a revista. 


Muito menos dá para justificar o que ocorreu na revista sob o pretexto de que uma religião seja ela qual for, seja intocável, que não se possa fazer uma crítica ou uma opinião que seja. Mas antes que os inflamados me venham dizer que crítica é uma coisa e ofensa é outra, permita esclarecer que é claro que concordo. 


Não faz sentido apenas uma piada sem nexo com um único intuito de ofender gratuitamente uma religião, afinal muitas pessoas regem suas vidas por dogmas religiosos e não se brinca com isso, obviamente. 


Eu mesmo não posso falar com propriedade sobre a revista Charlie Hebdo, revista esta que só ouvi falar depois dos atentados. 


Vi algumas charges, li algumas coisas, ouvi gente que sabe um pouco mais do que eu e nada mais. 


Mas mesmo assim reforço que nada pode escapar dos braços da democracia e torna-se blindado contra críticas e se estas críticas se tornarem outra coisa, como por exemplo, uma ofensa sem sentido existe para isso os meios democráticos para que se chegue a um consenso. 


A Democracia está longe de ser perfeita, mas é somente agindo dentro de suas linhas que podemos tentar melhorá-la. 


A própria revista Chalie Hebdo, antes do atentado já enfrentava dezenas de processos movidos por instituições islâmicas sérias que estavam tentando seguir o caminho democrático correto para resolver o que eles consideraram uma ofensa contra a sua religião, este é o caminho e jamais a violência.


Infelizmente minha projeção para o futuro não é muito otimista, o que vejo é o fechamento de um círculo vicioso de ódio, de um lado o preconceito contra o islamismo carregado de estereótipos que vem crescendo na Europa cada vez que uma bomba explode e do outro lado o extremismo de grupos radicais que além de terem uma disposição à morte ainda dominam a população que seus regimes abrangem e disseminam o ódio aos países democráticos, com extrema violência e perseguição as minorias que não concordem com suas ideologias. 


Note que alguns dias antes dos ataques na França, houve na Alemanha uma manifestação contra a “islamização do ocidente” outro fato que chama atenção é que foi feita uma pesquisa no final do ano passado perguntando, em alguns países da Europa, o seguinte:



Você acha que o Islã é compatível com o ocidente?



Na França, na Alemanha e no Reino Unido a resposta foi NÃO.



E as pessoas são contra o Islã, sem conhecer o Islã, se deixam levar pela atitude de uma parcela mínima de fanáticos que deturpam a mensagem para prolongar seus domínios em populações aterrorizadas demais para reagir e levando este terror para todas as partes do mundo, a agora neste momento temos que reconhecer que estes fanáticos estão conseguindo justamente o que queriam; 


levar a desordem, o medo, a discordância. 


Afinal, tenho certeza que interessa muito a estes grupos que o Ocidente tenha medo do Islã e que tome atitudes drásticas e impensadas contra esta cultura e que assim justifiquem, em suas mentes doentias, seus atos violentos e covardes, alimentando assim este círculo vicioso de ódio e intolerância, angariando mais e mais jovens desiludidos e ingênuos para a sua causa fanática. 


Estamos em um momento delicado no mundo, precisamos lutar contra este inimigo encarniçado, covarde e cruel que é o terrorismo, porém não com as mesmas armas que eles; 


onde eles usam o terror, precisamos usar a coragem para não ceder as suas exigências insanas; 


onde eles usam bombas precisamos usar nossas instituições democráticas e julgá-los pelos seus crimes, sem vingança, só justiça; 


onde eles usam a intolerância precisamos usar a tolerância, a civilidade de sermos capazes de aceitar uma cultura que nos é diferente.


Que a razão nos guie, não as paixões.
    





[1] Um dos mais procurados da lista norte americana de terroristas , com uma recompensa de 10 milhões de dólares

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