A RELIGIÃO COMO UMA ÉTICA RELIGIOSA DE CUNHO INSTITUCIONALIZADA
Olá Escritores !!
Preparados para o artigo desta semana ??
Em nosso artigo da semana passada, A ESTRUTURA PSICOLÓGICA HUMANA, estabelecemos a importância da cultura no desenvolvimento de uma estruturação mental razoável para a formação de indivíduos minimamente capazes de lidar com as consequências da vida em sociedade;
Como vimos, a cultura, entendida aqui como um acúmulo de forças da humanidade composta de conhecimentos e conceitos morais transmitidos de geração em geração, foi responsável por criar todo um vasto aparato institucional para conter os os impulsos individuais básicos vindo do ser humano:
E não somente instituições, a cultura também produziu um conhecimento mais geral das coisas, uma forma mais elementar de estruturação psicológica da realidade que produz um conhecimento compartilhado por todos nós, são informações que apreendemos e ações que tomamos de forma irrefletida, são conceitos e atitudes que são aceitas por nossas sociedades, atitudes automáticas que tomamos diante de situações que vão se apresentando no cotidiano;
falamos do senso comum que, juntamente com as instituições, como o Estado, Escola, Religião entre outras, agem sobre o indivíduo estabelecendo as regras de conduta e conceitos morais que vão "adestrando" o individuo frente a sua realidade cultural - Falamos melhor do senso comum em nosso artigo A FILOSOFIA SERVE PARA QUÊ? complemente sua leitura.
A função destas instituições culturais e do senso comum são ambíguas; por um lado, são úteis para frear as individualidades e evitar a guerra de todos contra todos, tornando possível a vida em sociedade, por outro lado, elas sublimam as individualidades transformando todos os membros de uma determinada sociedade em uma massa uniforme de pessoas que não pensam por si só, por não desenvolver um pensamento crítico, indo ao sabor do que suas instituições ditam.
No artigo de hoje vamos nos concentrar em uma dessas instituições a RELIGIÃO;
a Religião, como uma instituição cultural, é uma das mais influentes nas sociedades ocidentais, sua força se misturou à produção artística, à política, à educação aos poderes instituídos, nos costumes, enfim, em todas as instâncias da vida em sociedade.
A força da Religião (como instituição) pode ser explicada se notarmos que ela se apoderou de uma manifestação autêntica da condição humana; a RELIGIOSIDADE, a Religião se estruturou "burocratizando" a Religiosidade;
a Religiosidade é a ligação que estabelecemos com o transcendental, grosso modo, trata-se da lembrança súbita, que invariavelmente temos, da finitude da vida e todos os sentimentos que vem com esta inopina constatação; a angústia, o medo, esperança e a forma como lidamos com todos estes sentimentos.
No artigo de hoje vamos abordar a Religião desprovida da Religiosidade, em outros termos, a Religião com seu viés institucional desconsiderando a manifestação natural e espontânea da condição humana, a Religião como a estruturação institucional deste sentimento autêntico que todos nós dividimos em nossa humanidade.
Para tal, vamos destacar as principais características inerentes à todas as Religiões que resultou em uma ética religiosa que abrange todas as esferas da vida do sujeito, tanto no âmbito pessoal, como no social;
qual é a estrutura psicológica humana que dá a base necessária para o sucesso do empreendimento religioso?
E, qual é a autêntica estrutura humana aproveitada pela instituição Religião?
Como ocorreu esta institucionalização de um sentimento humano autêntico e espontâneo, que aqui estamos chamando de Religiosidade?
Que sentimento é este, o que é a Religiosidade?
É possível retomar à este sentimento autêntico, sem a intermediação da instituição "Religião" ?
...
Estas são as perguntas pertinentes e complexas nas quais pretendemos nos aprofundar em nossa investigação de hoje.
Desejamos para você uma;
Boa Leitura !!
INTRODUÇÃO
O que é o ser humano?
É um animal como outro qualquer ou é um ente em separado do mundo?
Difícil responder a pergunta, mas uma coisa podemos afirmar; somos racionais, possuímos a razão.
A racionalidade humana nos revestiu em uma fina camada de superioridade, mas ao observamos bem a estrutura psicológica humana, seu desenvolvimento e sua organização, percebemos que o ser humano carrega dentro de si impulsos e características primitivas que se desenvolveram de maneira enviesada pela a ação da racionalidade.
A racionalidade, nossa maior vantagem evolutiva é, igualmente, a nossa maior fonte de angústia.
Foi por meio da razão e seu desenvolvimento histórico que formulamos as perguntas que nos assolam, desde que deixamos as copas das árvores.
Uma vez formuladas as perguntas fundamentais a angústia passou a ser nossa companheira inseparável, estava se desenhando, naquela época, uma condição essencialmente humana, uma “humanidade latente”.
Em algum momento histórico, inacessível para nós, começamos a enterrar nossos mortos, sentir por eles, homenageá-los, fortalecer os laços com nossos próximos;
na aurora da humanidade, em atos repletos de simbolismo, estava se estabelecendo a centelha da curiosidade humana;
o que acontece conosco quando morremos?
...
O mundo humano precisa de lógica.
A própria mente humana se desenvolve em um trabalho contínuo de contradições lógicas, em uma tensa coexistência de sentimentos ambivalentes que estão em constante embate este é um trabalho de “travessia” onde o sujeito tem que reestruturar seu universo interno e refazer sua cosmovisão, aceitando coisas que antes ele não poderia sequer conceber, assim funciona as Leis das Operações Mentais Inconscientes.
Na infância, em uma época que o indivíduo está formando a sua personalidade, ele passa por uma série de contradições em um processo chamado perlaboração, um processo baseado na contradição contínua, o indivíduo vai estruturando sua rede simbólica e definindo sua visão de mundo.
podemos dar um breve exemplo para que o leitor entenda melhor como se dá este processo;
Imagine uma mãe passeando em um parque com seu filho de 6 anos de idade, em dado momento, aparece um pato e a criança, com sua curiosidade natural, pergunta:
- O que é aquilo mãe?
A mamãe responde prontamente:
- é um pato meu filho.
O garotinho acrescentou o conceito de "pato" em sua rede simbólica, o pato agora faz parte de sua estruturação psicológica, na totalidade de seu mundo foi acrescido mais este ente, o pato.
Dias depois, a mãe e seu filhinho estão de volta no parque, o garoto vê um suposto pato e grita para a mãe:
- olha mãe, um pato!
A mãe olha e diz:
- não filho, aquilo é um cisne.
A criança vai acrescentar mais um ente; "cisne", em seu horizonte filosófico por meio da contradição entre "pato" e "cisne", expandindo um pouco mais a sua estruturação psicológica.
Deste processo, surgem inúmeras perguntas - a "fase dos porquês" das crianças que falamos em nosso artigo PENSAMENTO CRÍTICO PARA O PÚBLICO INFANTOJUVENIL - e nenhuma delas ficam sem respostas;
Desde a infância, até nos tornamos adultos, estamos sempre neste processo de perlaboração, estamos sempre expandindo o nosso horizonte filosófico por meio das perguntas que nos assolam em nossas contradições;
para responder a estes questionamentos, que brotam de nossa vivência, usamos os frutos de nossa cultura e recorremos aos ancestrais, ao mito, à Religião, à Filosofia, à ciência, mas nada retira o vazio do coração humano.
Continuamos angustiados, com medo da morte, com medo de envelhecer, sem saber de onde viemos e para onde vamos...
as perguntas fundamentais continuam sem respostas...
o que acontece conosco quando morremos?
O medo da morte primordial e violenta foi, certamente, um dos primeiros trabalhos de travessia que tivemos que enfrentar em nossa tenra “infância humana” - Sobre o medo primordial e violento escrevemos um artigo chamado O MEDO EM NÓS, complemente sua leitura.
Mas, além do medo da morte, outras perguntas surgiram, afinal, o mundo traz em si muitos afetos e, para cada um deles, elaboramos uma explicação, em outras palavras, formulamos respostas para todas as perguntas que surgiram.
E as respostas elaboradas, em cada época histórica, serviram como um fundamento que cumpriu certo papel de estruturação da realidade em um determinado período histórico.
Obviamente, como em toda a manifestação humana, esta fundamentação de mundo, não foi uma linha reta e contínua.
Ela foi irregular, violenta e instável e nem sempre vamos para uma evolução, no sentido de um crescimento evolutivo/progressivo, muitas vezes, damos passos para trás, como a história demonstrou inúmeras vezes.
Quase sempre, quando o ser humano supõe que está em seu melhor momento, seja esta sensação obtida pela técnica (ciência aplicada) ou por valores morais superestimados, é justamente nestes momentos que a humanidade regride e temos que recomeçar, repensar nossa visão de mundo, nossa ética humana.
Todos nós lembramos como o mundo ficou depois das barbaridades ocorridas no século XX, uma época onde a tecnologia vigente dava ao ser humano contemporâneo a sensação de que estava-se no “fim da história” e foi justamente neste período que tivemos os maiores retrocessos no tratamento ético entre humanos, verdadeiras tragédias, nos referimos a I e a II Guerra Mundial, os inúmeros regimes totalitários e fascistas além de incomensuráveis crimes brutais contra a humanidade, sendo o nazismo apenas o mais famoso de todos, isso sem esquecer do uso, sem precedentes, de armas de destruição em massa, a Bomba Nuclear em duas cidades japonesas.
Isso tudo ocorrendo em um século onde a racionalidade epistêmica era extremamente exaltada.
O que vamos percebendo, nesta breve introdução, é que o desenvolvimento da humanidade como espécie é irregular e contraditório.
O SER HUMANO E O SENTIMENTO DE PERTENÇA
Das várias manifestações culturais, criadas e desenvolvidas para dar um sentido à aventura humana; Arte, Filosofia, Religião, Ciência, Estado, Sociedade, Família entre tantas outras, percebemos a importância da comunidade no desenvolvimento do sujeito, este não se forma como um indivíduo autônomo sem um outro.
Daí a necessidade do agrupamento, da aglomeração, do fazer parte de uma cultura, de um sentimento de pertença.
É próprio do ser humano pertencer a algum grupo;
primeiro à família, depois à sociedade, aos grupos de amigos, à um país e finalmente a sensação de pertença de uma espécie, de algo que é maior do que ele como simples indivíduo.
Qualquer um de nós, que certo dia, paramos para contemplar um quadro ou uma poesia ou talvez uma bela música, de forma emocional, entregue a plena manifestação da experienciação estética pura, do sublime, qualquer um de nós que tenhamos tido esta experiência sabemos que participamos da capacidade plena das realizações humanas e todos os sentimentos que afloram de nossa experienciação, como amor, orgulho, realização, satisfação e tantos outros que são inefáveis, são sentimentos que nos unem como espécie humana.
Temos a consciência de que, como indivíduos, não somos capazes de produzir uma obra como um quadro de Monet ou uma música de Wagner ou uma poesia como a de Goethe, mas nos sentimos realizados pelo simples vislumbre das realizações humanas nas obras contempladas, nos sentimos, de certa forma, como co-autores pela “humanidade” que dividimos com o autor da obra, reconhecemos na obra uma centelha de nossa própria humanidade, pela obra humana em si.
Obviamente, quando citamos as “obras humanas” estamos nos referindo à todas as manifestações humanas advindas da história humana e não somente as manifestações artísticas e este sentimento de pertença, ao qual nos referíamos há pouco, também estão presentes em manifestações políticas, culturais e sociais, enfim, em todas as realizações humanas.
Todo este empreendimento humano no decorrer histórico, estas fantásticas realizações só foram possíveis graças a aglomeração humana, mas viver em sociedade custou caro, mesmo sendo este o mote principal das realizações humanas ( a ambivalência paradoxal presente em tudo que é humano) viver em sociedade custou ao ser humano uma sublimação de impulsos primitivos, estes impulsos foram contidos por uma implacável coerção externa;
A Cultura e suas manifestações como Sociedade, Estado, Instituições, Regras Morais, Leis, entre outras formas de coerções.
Note a dinâmica do desenvolvimento humano:
A racionalidade desenvolvida pelo animal humano proporcionou a capacidade de colaboração mútua, pelo desenvolvimento da fala e do pensamento, logo, esta colaboração tendenciou uma aglomeração em sociedades, e esta associação diluiu o indivíduo em um conjunto de regras pré-estabelecidas que, por sua vez, inibe o desenvolvimento pleno do indivíduo.
No entanto, mesmo diluído em uma sociedade com regras e comportamentos estabelecidos, ainda assim, temos o indivíduo, ainda temos uma consciência que volta-se à si, que se vê e se sente como uma consciência em separada do mundo, cada uma dessas consciências querendo satisfazer seus desejos, cada uma delas em busca de prazer e satisfação e, ao mesmo tempo, precisando uns dos outros para a realização de seus desejos.
Como resolver mais este problema humano?
Pois, parece impossível que cada ser humano no planeta cuide exclusivamente de seus interesses pessoais.
Logo nas primeiras sociedades foi preciso estabelecer uma regra de conduta para que os interesses pessoais não atrapalhassem os interesses coletivos.
estas regras de conduta deram origem à uma Lei Normativa que visa, ao mesmo tempo; normatizar e punir (juridicamente), salvar (aos que obedecem) e condenar (aos que não obedecem), responder e dar fundamento à toda a realidade, nasce o comportamento ético.
De duas necessidades fundamentais humanas, a saber, uma necessidade de estruturação lógica da realidade, concebendo respostas para todos os afetos da psique humana e uma necessidade intrínseca de conviver com várias individualidades diferentes que precisam dividir um determinado espaço físico e recursos e não podem ter desejos individuais realizados a despeito de necessidades comunitárias, nasce uma ética de cunho religioso.
A ÉTICA RELIGIOSA (INSTITUCIONALIZADA)
Partindo do conceito morfológico, Religião vem da palavra latina religione e historicamente foram propostas várias interpretações para origem da palavra.
Cícero argumenta que o termo vem de relegere, ou seja, reler, uma característica das pessoas religiosas; ler as escrituras.
Mais tarde, Lactâncio rejeita a proposta de Cícero e diz que o termo vem de religare, ou seja, religar, ele argumenta que a Religião é um laço de piedade que serve para "religar" os seres humanos com Deus.
No mundo existem incontáveis Religiões, e elas são, de fato, diferentes entre si, porém, ainda assim é possível estabelecer alguns pontos em comum entre todas elas, pontos-chave onde todas as Religiões se estruturam.
Primeiramente, precisamos reconhecer que a Religião é uma manifestação humana que se apresentou em todas as eras históricas, resultado de uma institucionalização da experienciação estética humana.
Devemos lembrar que o ser humano é um ser reflexivo, e esta reflexão gera uma série de problemas e questionamentos elas são resultados da vivência do ser humano em um mundo posto;
a vivência humana é externada do particular para o universal, ou seja, de sua experiência de vida o sujeito cria uma visão de mundo, que será a sua forma de encarar a existência;
Por estar intrinsecamente ligada à sua cultura vigente a experienciação particular extrapola os limites do “eu individual" e passa a ser regido por um “eu coletivo" onde é diluída a experienciação do sublime original e autêntico em nome de dogmas e rituais pré estabelecidos nas Religiões.
Podemos partir do ponto de que toda a Religião possui um sistema de crenças no sobrenatural, geralmente envolvendo divindades, deuses e demônios.
As Religiões também possuem uma visão cosmológica, ou seja, uma explicação que abrange a realidade como um todo, explicando inclusive as origens e destinos finais de todos os seres humanos, um relato soteriológico sobre a origem do universo, da Terra e do ser humano e o que acontece depois da morte.
A maior parte das Religiões acreditam na existência de uma vida após a morte.
Atualmente as Religiões monoteístas (crença em apenas um deus superior) são a maioria dominante no mundo, mas também existem as Religiões politeístas (crença em vários deuses), além de outras correntes de pensamento, como o ateísmo (ausência de crença em qualquer tipo de deus ou força superior) agnosticismo (uma postura filosófica que afirma ser impossível saber racionalmente sobre a existência de deuses) deísmo (crença na existência de um deus criador, mas questionando a ideia de revelação divina) e muitas outras manifestações religiosas.
A Religião, como parte constituinte da cultura, deve ser entendida como uma transmissora de comportamentos, de regras de convivência nascida, em um primeiro momento, da necessidade de respostas existenciais, logo ela se mostrou eficaz na transmissão de valores estabelecidos, portanto, as Religiões nunca estão separadas da cultura.
No decorrer histórico as Religiões ganharam rituais, leis, códigos que a fortaleceram e não deixaram espaço para dúvidas ou questionamentos e, de época em época, quando a razão humana começa a questionar as brechas da Religião acontece uma Grande Reforma, onde estas brechas são novamente preenchidas com explicações que não permitem questionamentos de nenhuma espécie.
Veja por exemplo o que aconteceu no século IV d.C. quando se começou a questionar o porquê da maldade e do sofrimento no mundo, o chamado “problema filosófico do mal” a sociedade e seus membros começaram a questionar como de um ser que era puro amor, bondade e benevolência poderia surgir um mundo com tanta maldade e injustiça, em outros termos, como Deus poderia permitir tanta dor e sofrimento no mundo?
Para aplacar estes questionamentos a Igreja, na figura de Santo Agostinho, desenvolveu a ideia do “livre arbítrio”, a partir deste dogma estabelecido pela Igreja a resposta ao problema passou a ser a liberdade do ser humano dado pela benevolência de Deus.
Agostinho retirou todas as dúvidas em relação a conduta de Deus e colocou toda a culpa nas costas do ser humano, agora a culpa das mazelas do mundo era culpa da liberdade de escolha do próprio ser humano.
E assim a Religião vem se firmando através dos séculos apoiada, basicamente em um alicerce principal:
O medo.
Medo do desconhecido, medo das punições para aqueles que ousam duvidar de seus dogmas. Medo.
Em nome da Religião, construiu-se toda uma ética religiosa que administra a vida do indivíduo desde o seu nascimento até a sua morte, passando por todas as fases da vida do sujeito, um controle contundente que não permite nenhum tipo de insubordinação ou desobediência sob pena de tormentos eternos, e, por conta de todas estas cobranças, a Religião exige que os seres humanos sejam mais do que humanos, que cumpram exigências sobre-humanas, que sejam igualmente deuses.
A EXPERIÊNCIA DO SAGRADO
A experiência do sagrado está na estruturação de todas as Religiões;
quando o ser humano antigo via um fenômeno que não compreendia ou não conseguia explicar criava um mito encima disso, a incompreensão de certos fenômenos, aliada a necessidade de uma estruturação lógica qualquer, iniciou a experiência do sagrado.
Em tudo existia esta potência, no fogo, na água, em outras pessoas, nos ventos, enfim, em tudo onde não se podia achar uma explicação.
O sagrado é uma experiência simbólica da diferença entre seres, em outras palavras, o sagrado é tudo aquilo que os humanos enquanto tal não são capazes de realizar;
para os humanos antigos, quando um guerreiro se sobressaía sobre os outros, ele estava revestido de uma potência sagrada, da mesma forma que um animal feroz, imbatível, indomável ou invencível.
Em todas as Religiões existem termos específicos para designar o que é sagrado.
Sagrado, portanto, é a qualidade excepcional – boa ou má, benéfica ou maléfica, protetora ou ameaçadora – que um ser possui e que o separa e o distingue de todos os outros.
O LUGAR SAGRADO
Para toda a Religião existe a importância de um lugar (do latim templum, templo) e dos rituais.
O lugar significa a união do divino com o mundano, a aliança que Deus fez com o povo, na cultura judaica, por exemplo, quando Jeová indica ao povo onde ele deve ficar – a Terra Prometida – ele está firmando uma aliança.
Outro exemplo do Cristianismo, quando Jesus diz:
Sob esta pedra edificarei minha igreja, e as portas do hades não prevaleceram contra ela;lhe darei as chaves do reino dos céus ; o que ligares na terra será ligado no céu; e o que desligares na terra será desligado na terra; (Matheus 16;18,19)
Também existe um gesto de unificação do divino com o mundo natural.
Com estas alianças cria-se a ideia de espaço sagrado, ou santuários, uma espécie de morada dos deuses na Terra, como o Monte Olimpo na Grécia ou as Montanhas do Deserto em Israel.
O espaço sagrado é considerado especial, pois é a morada dos deuses é onde são feito as cerimônias, os cultos os rituais para a aproximação dos seres humanos com as divindades.
Depois que o local sagrado está consolidado entra em ação a narrativa sagrada, ou história sagrada que é a forma de um povo narrar para si mesmo a origem de toda a realidade, e é através da narrativa sagrada que vai se desenvolver toda a ritualidade dos processos religiosos.
Os rituais são importantes em uma religião, pois é através das cerimônias de gestos determinados, palavras determinadas, pessoas determinadas, emoções determinadas que as pessoas comuns adquirem o poder misterioso de presenciar o laço entre humano e divindade.
Seja para agradecer as graças alcançadas ou pedir novas graças.
É de suma importância que os rituais sejam cumpridos em todos os detalhes para uma melhor eficácia, uma vez estabelecidos, eles devem ser repetidos da mesmíssima forma, pois, foram consagrados pelo próprio Deus.
Além do templo (lugar) e dos ritos a Religião também pode tornar sagrado objetos e seres do mundo, como por exemplo, a Cruz dos cristãos e a Vaca dos hinduístas (indianos).
Em algumas Religiões existem as revelações, onde os deuses aparecem para alguns afortunados em toda a sua perfeição e dão à este escolhido um pequeno vislumbre do mundo supra-sensível, geralmente isto é feito para passar novas regras de conduta ao povo submetido à esta religião.
Teoricamente, as pessoas que têm estas revelações sofrem muito, pois à elas é permitido ver o que o humano não pode ver escutar o que o humano não pode escutar e conhecer o que a inteligência humana não pode sequer conceber, mas todo este sofrimento tem um motivo nobre:
A divulgação da Lei Divina.
A vontade divina pode torna-se parcialmente conhecida dos humanos através das Leis Divinas.
A afirmação torna-se válida já que os deuses são seres poderosos e misteriosos e muitas vezes incompreensíveis para criaturas limitadas como os humanos conhecerem seus desígnios.
Nas Religiões abraâmicas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) as Leis são transmitidas através de profetas.
Existem outras Religiões que os deuses usam pessoas iluminadas para transmitir suas Leis como, por exemplo, Religiões africanas, romanas ou indígenas.
Também existem Religiões, a maioria orientais, onde não existem mediadores e os deuses falam diretamente com o seguidor, estas são chamadas Religiões da auto-iluminação.
Outro fator interessante sobre o assunto é que nas Religiões onde os deuses falam através dos profetas as mensagens são transmitidas por meio de enigmas e parábolas, isso reforça o caráter transcendente e misterioso da Lei Divina.
Outro problema humano que a Religião tenta explicar é a morte.
Em praticamente todas as Religiões a mortalidade do ser humano é culpa do próprio ser humano.
Sempre é uma ofensa feita por ele contra os deuses que, por consequência, ganha a morte como castigo.
Mas não foi sempre assim, no começo o ser humano gozava de imortalidade, mas, algum pecado original custou-lhe esta imortalidade.
De acordo com a Religião à que se refira a imortalidade não está perdida.
Existem Religiões que acreditam na reencarnação, outras na alma imortal que não perece e outras ainda onde o corpo do morto precisa ser preservado para a comunhão do corpo e da alma na eternidade, além de muitas outras variações de conceitos pós morte dependendo da religião à que se refira.
Toda a Religião, mas principalmente as messiânicas, são fundamentadas na fé.
A fé é a crença inabalável em algo ou alguma verdade.
Outra característica das Religiões é a divisão distinta entre duas forças opostas, bem e o mal, luz e treva, puro impuro, e assim por diante.
Isso nos faz lembrar mais uma característica das Religiões:
A falta ou o pecado, falando mais especificamente do Cristianismo onde não vai adiantar ao pecador esconder suas falhas, pois o deus cristão é onisciente e onipresente e conhece o pecador mesmo antes deste cometer a falha, sua salvação só virá de rituais bem executados e de um sentimento interior sincero;
o arrependimento.
Somente assim o fiel alcança a verdeira redenção cristã e poderá ter sua alma livre dos martírios do inferno.
Outro fator inerente à Religião diz respeito a transcendência, ou seja, os deuses não habitam a Terra, mas vivem em um mundo separado dos humanos onde poucos têm acesso, sempre se torna necessário a intervenção de mediadores para que haja comunicação com as comunidades e, aproveitando este gancho, falaremos de alguns pontos principais da Religião:
Sua mistura com os poderes temporais e o controle das massas.
Pelo fato dos deuses sempre falarem com um grupo muito reduzido de pessoas; padres, pastores, videntes, xamãs, sacerdotes, pajés entre outros.
Formam-se classes que detém o poder, privam o restante da comunidade do contato direto com o divino detém o poder sempre em benefício de um grupo pequeno, tornam-se portadores simbólicos do divino, não podem ser questionados ou contrariados em nenhuma hipótese e, assim sendo, o "Deus" passa a ser quem detém este conhecimento, aquele que vive isolado nos salões de seus palácios, punindo os infiéis.
A Religião surgiu por motivo nobre, mas já em seus primeiros anos de existência e com o passar dos séculos, sua doutrina original foi se deteriorando e a função primária, de tentar explicar o fundamento da realidade e de conexão com o intangível, foi dando lugar ao controle da massa através da ignorância e do medo.
Absurdos foram cometidos em nome da Religião.
Tanto para a massa, como para o indivíduo, que se vê forçado a renegar sua própria humanidade em nome de promessas que jamais serão cumpridas.
Nenhuma linha sequer do Torá, do Ancorão ou da Bíblia foi escrita por divindades, tudo foi escrito pelas mãos do próprio ser humano com um único intuito:
Controle!
Há de se reconhecer que as Religiões são muito bem estruturadas de forma a prender seus seguidores em uma intricada rede de engôdos, dogmas e temor.
A estruturação da hierarquia celeste (Deus, anjos, arcanjos, querubins, serafins e santos) e a hierarquia terrena (Humano, animais, plantas e minerais, estando abaixo de tudo isto os demônios) foi uma estratégia providencial, afinal, a hierarquia passa a noção de inferior e superior e define as relações entre os membros por mando e obediência.
Obviamente, na classe dos humanos os religiosos estão no topo da hierarquia e devem ser obedecidos.
A estruturação do conceito da fé foi oportuno e providente, afinal, como dizem os cristãos:
“A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêem” (Hebreus 11; 1)
Assim, os fieis são levados a crerem em qualquer tipo de explicação por uma bem estruturada rede de maquinações que não abre espaço para questionamentos e, para documentar os dogmas da fé, tudo está devidamente certificado com as escrituras sagradas.
Nas escrituras estão registrados os dogmas da fé ou verdades absolutas, estas verdades, por serem absolutas não podem ser questionadas, por em dúvida as sagradas escrituras seria considerado um pecado mortal.
Agindo no indivíduo a Religião cria efeitos sociais, pois com seus dogmas implantados em vários membros de uma comunidade cria-se um comportamento regrado, passivo e submisso.
Além disso, existe uma tendência de que aqueles que optam em não seguir a Religião vigente em determinada sociedade serem perseguidos pelos adeptos da Religião, e, dependendo da época e do lugar, esta perseguição pode tomar viés violento ou excludente.
Apesar de poderosa a Religião enfrentou muita resistência em todas as eras históricas.
Todas as objeções contra a Religião surgiram pela ruptura que esta fez com o pensamento racional.
Isso causou um atrito forte entre fé e razão.
As críticas contra a Religião começaram desde muito cedo e sempre seus críticos foram perseguidos e/ou silenciados.
Já na Grécia Antiga Heráclito, Pitágoras e Xenofontes foram perseguidos por irem contra a Religião politeísta vigente na Grécia.
O próprio Sócrates foi condenado à morte por corromper a juventude e por “inventar novos deuses”.
Na renascença Giordano Bruno foi condenado à fogueira e na época moderna Galileu teve que se retratar para não ser queimado vivo.
Todos estes exemplos demonstram como a Religião teme perder seu poder de controle sobre a massa.
Por conta deste persistente conflito entre Filosofia e Religião, tornou-se necessário conciliar os dogmas religiosos à um pensamento pensamento racional rigoroso, e por isso, criou-se a Teologia, que é uma tentativa de reconciliação entre a Religião e a Filosofia.
Teologia não pode ser considerada a mesma coisa que Religião, já que na Teologia existe a possibilidade de uma troca de idéias, de uma discussão, um debate já na Religião não existe possibilidade de diálogo, as verdades são absolutas, imutáveis e inquestionáveis.
Considerando a Religião aqui como a forma institucionalizada da espiritualidade humana, podemos afirmar que, mesmo com toda a resistência contra a instituição Religião, desde as suas primeiras manifestações, das várias tentativas de separar o poder religioso do poder político, acentuadas principalmente com surgimento dos Estados modernos, onde a laicização foi o estandarte do Iluminismo ao propor a separação do poder exercido pela moral religiosa do poder temporal, o poder religioso permanece exercendo sua influencia até os dias atuais.
As igrejas, templos, mesquitas, e todo o aparato burocrático/institucional que dá o suporte para que a instituição Religião seja uma parte importante da sociedade permanece sólida até os dias de hoje.
Em parte, o fato da influência da Religião em nossas sociedades contemporâneas ter diminuído se dá pelo advento do capitalismo, este e as suas adaptações estruturais ao longo da história, submeteram todas as outras formas de poder a interesses mercadológicos, no entanto, a despeito de sua influência ter diminuído, o poder religioso não pode ser ignorado, em algumas partes do mundo guerras são travadas pelo mote religioso, padrões morais são estabelecidos por preceitos religiosos, a Religião é o sentido da vida de muitas pessoas mundo afora, fatores que por si só corroboram a importância das Religiões nos dias atuais;
inegavelmente, a Religião permanece, até os dias de hoje, como uma instituição forte e influente que surge e se desenvolve em um padrão de auto-organização-social, para além dos ensejos dos indivíduos, exercendo sua influência direta na sociedade.
A ética religiosa surge, portanto, na gênese do animal humano constituindo uma forte característica do que chamamos "humanidade".
Mas, vale ressaltar que, esta ética religiosa é na verdade a norma de conduta de uma instituição, em outras palavras, não é o sentimento puro da religiosidade humana.
Por transpassar uma normatização institucional a experienciação pura perde sua essencialidade e em troca ganha uma praticidade vulgar, de gestos, ritos e espiritualidade pré-programadas, como se fosse possível ao sujeito tocar o transcendente pela via da instituição somente e não pela Religiosidade espontânea.
Nas Religiões antigas, as chamadas Religiões pagãs, as relações entre Religiosidade e comunidade eram estreitas, as relações dos indivíduos nestas Religiões eram coletivas e políticas, com o advento do Cristianismo e sua influência no mundo ocidental, isso mudou drasticamente, agora o novo crente não precisa mais de pomposos altares ou de sacrifícios cheios de rituais.
A nova Religião estabelece um contato direto entre a divindade (Deus) e o indivíduo, os deveres e obrigações da nova Religião também são cobrados diretamente na consciência do indivíduo.
O Cristianismo pode ser considerado a Religião da interioridade e do dever.
Isso muda completamente a concepção ética da Religião antecessora, que era nacionalista e política.
O Cristianismo estabelece a primeira relação ética direta e, como consequência disso, passou-se a considerar como submetido ao julgamento ético tudo quanto invisível aos olhos humanos, mas presente na consciência do pecador, tanto os atos já consumados quanto as intenções.
A própria noção de pessoa aparece no Cristianismo, a pessoa cristã nasce desta vivência histórico-divino onde Deus cria o ser humano concebendo à ele, na hierarquia celeste, um papel de superioridade sobre toda a criação e o tornando solitário nesta posição.
Note que a palavra latina persona, assim como sua correspondente grega πρόσωπον (prósopon) significa máscara de teatro, e esta máscara sufoca a liberdade da pessoa humana, assim, da mesma forma que o Cristianismo, em um primeiro momento, cria a noção de pessoa em seguida ele o sufoca, alienando o ser humano de si mesmo em uma consistente cadeia estrutural institucionalizada que visa a diluição completa da individualidade em um corpo orgânico religioso.
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