RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE NA ESTRUTURA HUMANA
Olá Escritores !!
Preparados para o artigo desta semana?
Semana passada, em nosso artigo A RELIGIÃO COMO UMA ÉTICA RELIGIOSA DE CUNHO INSTITUCIONALIZADA, abordarmos a influência da Religião como uma instituição humana responsável por transmitir aos membros da comunidade uma regra de conduta e ações morais de padrões aceitáveis.
Como vimos, a Religião, como uma instituição, é uma das manifestações mais antigas da humanidade, ela se estabeleceu juntamente com o surgimento e o desenvolvimento da racionalidade.
No entanto, a Religião, como uma instituição, se apropriou de uma manifestação natural e espontânea da vivência humana da qual vamos falar no artigo de hoje; a RELIGIOSIDADE.
Mas, como dissemos no encerramento de nosso artigo da semana passada, não arranhamos sequer a superfície de nosso tema tamanha é a sua complexidade e abrangência;
por isso, o leitor deve considerar o texto de hoje como a continuação de nosso artigo da semana passada, hoje, vamos continuar esmiuçando a noção de Religião como uma instituição assim como vamos adentrar no que consideramos ser a nossa Religiosidade autêntica;
estas duas manifestações humanas, a Religião e a Religiosidade, estão ambas no escopo das "coisas humanas", a primeira como uma instituição, fruto da cultura e a segunda como uma manifestação natural e ontológica da vivência humana.
Falar sobre Religião e Religiosidade é um tema de extrema complexidade, mas igualmente fascinante e desafiador.
É bom relembrar que, a exemplo de nosso artigo da semana passada, nossa abordagem segue a linha freudiana de pesquisa, o que não quer dizer que não consideremos outras linhas de pesquisa, feito este breve esclarecimento esperamos que você tenha uma;
Boa Leitura !!
RELIGIÃO COMO UMA ENGRENAGEM DO SUPEREGO
Muitos pensadores tentaram explicar a difícil tarefa da conciliação da razão frente aos impulsos que todos nós, como seres humanos, carregamos dentro de nós.
Freud, em seu livro O Futuro De Uma Ilusão, destaca que a Religião teve um papel importante na Cultura e contribuiu muito para a domesticação dos impulsos associais, embora não o bastante (FREUD 1927 pg. 99).
Os seres humanos, quando confrontados com a imensidão da Natureza, são criaturas frágeis e indefesas, a mercê de forças naturais, com as quais não podem lutar.
Uma forma encontrada pelo ser humano de aplacar esta impotência perante forças poderosas e imparciais é se aglomerar em sociedades, no entanto, esta solução social cobrou um preço alto de seus indivíduos, um conflito fundamental da espécie humana, pois, para que uma sociedade sobreviva e não caia em um colapso moral, os desejos instintivos dos seres humanos, suas incontáveis vontades e desejos individuais e sua pulsão por sexo e violência (Id) devem ser controlados.
Uma sociedade civilizada não sobreviveria se não houvesse de seus componentes uma sublimação destes impulsos.
Instituições, como o casamento, a família, a sociedade (Superego) fornecem um arcabouço que neutraliza, em parte, estes impulsos desviando esta energia para outras manifestações humanas que geram certo prazer como a arte, textos filosóficos, a cultura;
a Religião é uma necessidade psicológica projetada na cultura, ela entra nesta equação com um viés compensatório por esta renúncia aos nossos instintos básicos.
A psicanálise define duas forças psíquicas antagônicas disputando entre si na mente de cada um de nós, o Id ou libido sexual em busca de satisfação e o Superego que são os valores morais de uma sociedade absorvidos pelo indivíduo;
o equilíbrio entre essas duas forças se dá de forma muito paradoxal, pois, mesmo crianças tratadas com brandura, em lares estruturados com amor e carinho, podem desenvolver Superegos exigentes, isto pode ocorrer porque o Superego age por internalizações de padrões comportamentais e estas internalizações forçam sentimentos eróticos e de agressividade de volta para à mente, seu ponto de origem.
A princípio, a criança teme a autoridade dos pais, mas depois que os padrões comportamentais estão internalizados as ameaças externas não são mais necessárias, a partir daí sai de cena o Superego Parental e entra o Superego propriamente dito, a megaestrutura que vai mantê-la dentro dos padrões aceitáveis para a sociedade.
Outro problema analisado pela psicanálise é a supervalorização do Superego, e esta supervalorização pode vir do próprio sujeito como uma cobrança exacerbada, fruto de um Superego exigente;
este pode ser o resultado de alguma falha no desenvolvimento psicológico, ou por um sentimento forte de culpa, este sentimento internalizado pode vir tanto de castigos e agressões reais ou imaginários, sofridos na infância e presentes no inconsciente.
Um Superego exigente pode pressionar o indivíduo ao ponto de causar torturas mentais, psicoses e neuroses ou ainda gerar indivíduos violentos, por não se adaptarem às exigências morais ou extremamente passivos pelos mesmos motivos.
A Religião, por participar do Superego com um viés compensatório, age diretamente na psique humana, ela exerce uma pressão descomunal no sujeito com metas de comportamento que vão diretamente ao encontro de pulsões básicas, além disso, a Religião tem a pretensão de ser um guia moral para todas as instâncias da vida, uma regra de conduta que vai gerir a vida em todas as fases, do nascimento à morte, em todas as sua particularidades.
Inclusive, ela rege comportamentos até mesmo para o pós-morte, posto que, a Religião age na estrutura psicológica do indivíduo, se aproveitando de uma característica humana essencial;
sua Religiosidade autêntica, os efeitos desta pressão são vários, todos negativos, o mais grave é uma alienação da pessoa humana.
Mas afinal, do que se trata esta Religiosidade de que tanto falamos?
Como a Religião conseguiu "burocratizar" sentimentos tão autênticos e espontâneos?
SOBRE A ESTRUTURA HUMANA (A RELIGIOSIDADE AUTÊNTICA)
O que é a vida?
A despeito de todas a capciosidade inserida na pergunta acima, em todas as leituras e sentidos e até mesmo na dificuldade pertinente à este questionamento, podemos afirmar que, mesmo que não tenhamos a resposta à pergunta, de forma direta e objetiva, existe uma pulsão no que é vivo, em outros termos, tudo que é vivo quer viver.
Ao observar com atenção toda a vida que nos cerca, vamos notar, em toda a forma de vida, desde a mais insignificante bactéria até o mais esplêndido animal, em tudo que é vivo encontraremos uma pulsão em se manter vivo.
Uma Vontade de Vida, por assim dizer.
obviamente, não estamos ignorando a questão do suicídio, ou seja, a renegação da vida que pode, inclusive, chegar às vias de fato e ser consumada, mas note o leitor que o problema do suicídio é uma questão que tange a chamada "essência humana", ou seja, característica primordialmente humana, que não tem uma explicação objetiva e satisfatória.
algo de estritamente humano que escapa as explicações lógicas;
O suicídio, inclusive, é tratado como um gravíssimo problema de saúde pública mundial, o Brasil ocupa a 8ª posição em números absolutos;
Muitas questões psicológicas, sociais e outras ainda desconhecidas, abrangem a questão do suicídio, em outros termos, não temos respostas satisfatórias que expliquem o suicídio.
O suicídio é tema de alguns pensadores que se debruçam à tentar entender este misterioso fenômeno;
Sartre, Camus, Durkheim são alguns deles, devido a sua complexidade e abrangência certamente falaremos sobre este delicado tema em artigos futuros.
Aqui, à guisa de nosso empreendimento, vamos considerar que tudo que é vivo tem em si uma pulsão natural a se manter vivo, um Conatus, ou seja, uma inclinação inata de uma coisa que existe em se manter existindo e se aprimorar;
e, para se manter vivo todo vivente tem que lutar, nenhum ser vivo é vivo sem lutar, e desta luta incessante temos como resultado o sofrimento, portanto tudo que é vivo sofre para estar vivo.
Deixar de lutar é deixar de sofrer, deixar de sofrer é deixar de viver.
Nenhum ser vivo pode não sofrer e viver.
Vida significa luta, cada célula de nosso corpo luta incessantemente para manter-se viva, a própria dinâmica da vida é a guerra, a luta, o conflito, nada que é vivo advém do sútil, do pacífico, do não violento.
O próprio nascimento, a primeira batalha que travamos, se inicia com um gesto de rompimento, rasga-se o ventre materno com vigor para deixar para trás o útero, morno e seguro, para então adentrarmos à vida onde tudo é ofensivo; a luz do sol fere os olhos, a fome assola o corpinho frágil e recebemos a vida não com um sorriso, mas sim com um estrondoso choro.
A partir daí está iniciada a jornada dos viventes, estamos jogados no combate.
A vida nos impõe o combate, não se pode ser vivo sem lutar e dessa luta vem o sofrimento, mas sofrimento aqui não deve ser entendido como uma condição miserável, mas sim de afirmação da vida, de aceitação de que devemos abraçar nossa condição de vivo e mais ainda a nossa condição humana.
Entendido isso; vida-luta-sofrimento, devemos agora nos ater em compreender a dinâmica deste sofrimento para o ser humano e para os outros entes da Natureza.
Nos animais não-humanos, assim como para todos os seres dotados de vida em seu estado natural, a luta pela sobrevivência é intensa, violenta e sem trégua, todos os seres naturais passam os dias alerta o tempo todo e uma pequena distração pode ser fatal, não há, para estas criaturas, outra coisa a se fazer a não ser cuidar da própria sobrevivência e da sobrevivência de seus descendentes.
Um lobo, vagando pela floresta, toma todas as providências para a perpetuação de si e de sua espécie, no lobo, todas as atitudes até mesmo as mais insignificantes, são voltadas a preparar o indivíduo para a caça ou para a defesa, desde a caminhada furtiva na noite para caçar até a associação com outros lobos, todos atos do lobo são voltados, exclusivamente, à preservação da vida.
Para o lobo de nosso exemplo não importa o motivo de seus atos, ele percorrerá toda a sua existência com um único intuito; sobrevivência.
Somos seres racionais, mas encontramos muito do lobo em nós.
Apesar dos feitos humanos, de suas realizações e façanhas, carregamos dentro de cada um a de nós os conflitos de estarmos inseridos em um mundo que não controlamos, pois o que o ser humano racionalizado não consegue perceber é que ele pode controlar e modificar a Natureza com as ferramentas desenvolvidas pela sua racionalidade, mas não pode mudar as Leis da Natureza, estas leis se desenrolam por sua própria dinâmica e não há nada que o ser humano e sua racionalidade possam fazer para mudar isso, é preciso resignação para aceitar que o ser humano é uma parte integrada do mundo, não uma parte em separada como insinua o pensamento racional.
O desenvolvimento da racionalidade, desde australopitecídeo até o homo sapiens, passando pela Antiguidade, Idade Média e finalmente Idade Moderna revestiu o animal humano de uma impertinência, uma soberba em relação a tudo que não é humano, inclusive humanizando o mundo, aplicando a lógica humana à tudo.
A racionalidade humana agiu em duas frentes antagônicas no desenvolvimento humano:
em um primeiro momento, nos separou dos animais que viviam em função dos afetos do mundo, fazendo o ser humano perceber os objetos para além da apresentação fenomênica e, em um segundo momento, esta mesma racionalidade nos fez ignorar o fato de que, mesmo sendo capazes de tais realizações, não somos seres em separado do mundo, somos parte dele como todos os outros seres e, portanto, sujeitos às Leis Naturais como todos os entes do planeta.
A nossa capacidade racional, desenvolvida no decorrer histórico, nos tornou seres reflexivos e esta característica nos revestiu de uma inegável Religiosidade, porém, ao nos referimos à “Religiosidade” não estamos falando de “Religião” nem nos referindo a instituições como a Igreja, nem tão pouco nos referimos à esta ética religiosa, desvirtuadora da qual falamos em nosso artigo da semana passada, nos referimos a experiência do prazer do sentido, nos referimos a experiência estética pura.
A experiência de Religiosidade e a experiência estética estão intimamente ligadas,- sobre a experiência estética tratamos deste tema em nosso artigo ARTE PARA NOS TRANSFORMAR, neste artigo tratamos da Arte como mais um notável produto da Cultura que nos permite exercitar a nossa "visão estética da realidade" uma forma de lidar com mundo que se dá de forma instantânea e intuitiva, conhecimentos que estão ligados à imaginação e à criatividade e deixam a racionalidade em um segundo plano, gerando uma vivência muito mais autêntica e fluída, para compreender melhor a Religiosidade, nosso tema de hoje, ajudaria dar uma visitada neste texto sobre a Arte, já que a Arte e a Religiosidade estão ambas na esfera da ontologia humana, vai lá e complemente sua leitura - isso ocorre porque o ser humano não é um ser matematizável, como quis a modernidade insinuar.
Podemos escolher uma música, reduzi-la a estruturas, podemos verificar que esta música tem uma forma binária ou uma sonata, podemos passar nota por nota da canção para um papel, enfim, podemos matematizar a canção.
Porém, a emoção que esta canção nos transmite é impossível de ser matematizada ou mesmo descrita, é impossível descrever com palavras o que sentimos quando escutamos a canção que nos toca, não podemos, de forma alguma, transmitir nossos sentimentos para as outras pessoas, pois os sentimentos são inefáveis e extremamente pessoais.
Este mesmo sentimento pode ser descrito quando olhamos uma noite enluarada, ou um quadro, ou uma peça teatral um filme, um poema.
Nestes termos, a forma de o ser humano perceber o mundo não pode ser calculada, medida ou mesmo descrita, a Religiosidade humana entra nesta vivência que não pode ser racionalizada ou descrita, apenas sentida.
Além disso, o belo não é uma propriedade do objeto, mas sim do sujeito e da sua relação com este objeto, ou seja, é extremamente particular.
Por isso uma música (ou um quadro, uma peça teatral, um filme, um poema, etc.) que me emociona pode ser uma experiência insuportável para um outro.
Esta experiência estética, a forma não-racional de lidar com certas coisas e situações é uma parte da estrutura humana, de sua Religiosidade.
Rubens Alves nos dá outro exemplo para podermos, ao menos tentar, nos aprofundarmos nestas estruturas comuns à todos nós, seres humanos;
a experiência do brinquedo.
O que produz um brinquedo?
Um brinquedo não produz nada, somente o prazer em usá-lo.
Para o seu usuário o brinquedo tem um valor que não pode ser medido ou calculado, como a música que citamos há pouco, porém, diferente da música, que tem uma ação passivo-contemplativa, o brinquedo tem uma ação ativo-contemplativo já que no brinquedo o sentido de sua existência só se faz se o seu usuário se envolver de corpo e alma, dirá Rubens Alves em seu livro O Enigma Da Religião, pg 58:
-no brinquedo a imaginação cria um mundo segundo a lógica do princípio do prazer.
Ao se entregar ao seu brinquedo o indivíduo está colocando a realidade entre parêntesis.
Usar o seu brinquedo, se entregar à ele e esquecer todo resto é uma das muitas formas de manifestação da Religiosidade, necessária na estrutura humana.
Isso porque o ser humano não vive em um estado de consciência absoluta, em nosso cotidiano estamos, o tempo todo, cambiando do imanente para o transcendente, do particular para o universal, do consciente para o inconsciente.
No entanto, devemos esclarecer que este “colocar a realidade em parêntesis” não se trata de se desligar totalmente da realidade, pois a razão humana não pode conceber um mundo sem sua estrutura lógica, portanto, mesmo nestes momentos de êxtase estamos com um pé na realidade, estamos em um estado de suspensão provisória do princípio de realidade (R. Alves, 1975, pg 60).
O Contrário disso, ou seja, viver em um estado de êxtase permanente, colocar a própria realidade em parêntesis produziria um indivíduo preso às raias da loucura, pois, para este indivíduo, faltaria o terreno substancial das estruturas lógicas que apoiam as estruturas humanas. - sobre estas estruturas lógicas ler A ESTRUTURA PSICOLÓGICA HUMANA.
A Religiosidade humana, como parte fundamental de sua estrutura, está diretamente ligada ao transcendente, pois, sendo o ser humano um ser reflexivo, ou seja, que volta o pensamento para si mesmo e para sua própria condição, é neste refletir que o ser humano está em contato com o que está para além dos limites do conhecido, ele projeta uma concepção para o que está além dos seus sentidos e para além da razão.
Esta dinâmica não depende de uma estrutura institucionalizada como a Religião para que aconteça ela é parte intrínseca da natureza humana, a Religiosidade está em todos nós, de forma inata e natural.
FILOSOFIA DA RELIGIÃO PARA ENTENDER A RELIGIOSIDADE
Existe, de fato, nesta dinâmica transcendental, certo conflito entre a Filosofia; que consideramos aqui uma forma crítica de encarar esta necessidade humana de “fugir” da dureza do cotidiano, e a Religião; que seria a forma superficial de respostas prontas e desprovidas de crítica e de rituais pré programados que visam uma "artificialização" de uma estrutura natural.
Deste conflito entre Religião e Filosofia nasce, justamente, a Filosofia da Religião.
A Filosofia da Religião é este refletir filosófico sobre a Religião e passa por alguns momentos;
o momento da Filosofia que vai desde a Grécia Clássica até o início da Idade Moderna, era um período considerado como da Filosofia da essência, ou seja, buscava-se alguma coisa essencial por trás das aparências.
No universo religioso isso vai influenciar e estabelecer toda a tradição filosófica.
O encontro promovido pela dominação romana, com a cultura judaica e ainda a cultura grega promoveu um processo histórico que desenvolveu toda a cultura ocidental.
Do encontro da cultura grega com a cultura judaica foi possível estabelecer uma reflexão filosófica, e isso aconteceu por causa do logus grego, o elemento incorporado da cultura judaica foi a Religião, considerando também o monoteísmo, além de Roma que acrescentou a lei, e este é o tripé (logus, Monoteísmo e Lei) que forjou a mentalidade do ocidente na Religião.
Os pensadores cristãos vão se apropriar de Platão e de Aristóteles para pensar a Religião.
A Idade Média foi caracterizada por ser um período teocêntrico, onde toda a cosmovisão estava centrada em Deus.
Com o passar dos séculos e a ascensão da sociedade burguesa veio uma nova visão de mundo, uma nova compreensão do ser humano, pois, na visão medieval, o ser humano estava subordinado à Deus.
Com a Idade Moderna surge o antropocentrismo, significa dizer que o ser humano rompe com aquela visão teocêntrica.
Com o Racionalismo, Iluminismo o ser humano atinge a maturidade, o ser humano não precisa mais do thelos Deus, o ser humano era capaz de conceber a si mesmo;
com isso vai ocorrer uma mudança em relação à compreensão de Deus dentro deste novo pensamento antropocêntrico.
Ocorre uma nova compreensão de Deus com base neste novo paradigma que vai surgir na sociedade burguesa.
Houve uma mudança social, econômica e cultural, e, com o fim da sociedade medieval, surge a sociedade moderna/burguesa.
Assim, surge uma nova sociedade, com novos valores, com uma nova relação com a Natureza.
Antes a natureza era algo intocável, sagrado;
para a burguesia não!
Existe nesta nova relação da burguesia com a Natureza, uma dessacralização, surge a ciência, transformando o mundo.
No início da Idade Moderna, surge uma nova forma de perceber a Religião, neste contexto, surge o que foi chamado de Religião natural.
Na Filosofia essencialista se partia do princípio de que havia uma realidade existente por trás das coisas existentes, havia uma verdade oculta por trás das aparências e que o ser humano poderia alcançá-la e poderia falar sobre ela, buscava-se chegar àquela realidade que era anterior a ele.
Este ser humano se colocava de forma passiva.
Diferente do que vai ocorrer na Idade Moderna, para os filósofos deste período não existe nada escondido por trás das aparências, o mundo é uma construção do indivíduo.
O ser humano, que antes se colocava em uma situação passiva, que expressava somente o que já existia antes dele agora passa a ser ativo, o ser humano é que cria o mundo, ele é um “criador de mundo”, agora o ser humano é o centro, ele cria as verdades.
Porém, o ser humano não só estabelece o conhecimento do mundo, ele não tem somente esta necessidade; de estabelecer conhecimento do mundo, como faz a ciência.
A ciência é importante, mas há outro problema essencial da natureza humana que escapa à ciência;
o ser humano é um ser que se faz, e neste se fazer ele, de certa maneira, se encontra com esta realidade que deve pautar as ações humanas.
O ser humano além de conhecer o mundo, age no mundo, e é neste agir que ele vai colocar a questão de Deus.
Deus é imprescindível para orientar o ser humano, fundamentar, de certa maneira, seu agir no mundo;
mas esta não é uma exigência que se coloca no campo da ciência ou do conhecimento lógico, é sim uma exigência que emerge do próprio ser humano.
Deus, portanto é uma necessidade do ser humano é um imperativo moral para a ação do ser humano.
Problema é que o ser humano não só conhece o mundo, mas também age no mundo e é impossível, para a ciência, conhecer Deus como ela conhece a Natureza.
Deus passa a ser justificado, não mais a partir do cosmo, mas a partir do próprio ser humano, de uma necessidade, de um imperativo fundamental do agir humano.
Isso na visão de Kant e antes disso com Descartes, que vai tentar explicar, sem recorrer a nada externo, mas a partir da própria subjetividade humana, que verdades poderiam ser consideradas como claras e absolutas.
cria-se a “Filosofia natural" ou “Religião natural" e esta Religião natural vai ter um peso na cultura.
O antropocentrismo marca o pensamento moderno.
Porém, seria um erro pensar que os valores antigos ficaram para trás.
Existe em nós, na nossa maneira de pensar o mundo, na nossa Cultura e em nossos valores elementos da época teocêntrica.
Elementos que possuem a força do valor transcendental que agem sobre a estrutura psicológica básica, que atendem a uma necessidade humana fundamental:
O sentido.
Portanto, percebemos que no cerne da explicação de termos a Religião agindo com força em uma época estritamente antropocêntrica, onde o ser humano e sua ciência ditam as regras de conduta, está a questão do sentido.
E isso se dá porque, mesmo nesta era tão antropomorfizada e de tecnologia tão presente em nossas vidas, a questão do sentido pulsa de forma latente entre nós e todo o nosso aparato tecnológico, nosso orgulho antropocêntrico não conseguem aplacar as angústias que nos assolam em todas as eras, mesmo cercados de tecnologia continuamos com os mesmos questionamentos e angústias de eras passadas.
A Religião e a Religiosidade nos servem para organizar, de certa forma, a nossa estrutura psicológica;
estas manifestações da ontologia humana nos ajudam a estruturar, de forma minimamente satisfatória, a nossa vivência particular e em sociedade.
por todas estas características complexas vamos percebendo que o assunto que estamos tratando nas últimas semanas, a saber, a estruturação psicológica, Religião e Religiosidade são temas complexos e controversos que demandam um aprofundamento sério e comprometido para uma compreensão mínima;
e não se esgotam as possibilidades para tratar de tão multíplice tema.
Tentamos, nas páginas acima, estabelecer uma diferença entre a Religião e a Religiosidade.
Na Religião, temos um conjunto de regras de conduta que regem a vida de cada um dos indivíduos de uma comunidade em todas as instâncias da vida deste sujeito, desde o nascimento, comportamento e morte e moldam assim o comportamento “aceitável” para que este individuo viva bem em determinada sociedade, em outras palavras, temos a Religião atrelada à ética, o que chamamos de ética religiosa e foi o tema com o qual decidimos iniciar nossa investigação lá no artigo da semana passada.
Esta ética religiosa, na verdade, se aproveita de uma característica humana;
a Religiosidade;
esta sim autêntica, comum à estrutura humana e da qual gostaríamos de falar mais detalhadamente neste ponto de nosso artigo;
Não existe uma única ética que una todos os povos da Terra, não existe nenhuma moral universal que una todos os povos da Terra, não existe um único deus que nos faça ter o sentimento de que todos somos humanos.
Tudo que nós temos de comum, que nos amontoa em um único rebanho de miseráveis é a morte e o medo que vem com ela.
Portanto o que temos de mais humano é a consciência de nossa finitude, isso sim podemos dizer que aflige todos os seres humanos da face da Terra.
Somos humanos porque morremos, e temos a consciência deste fato.
Estamos unidos em nosso maior temor:
a finitude.
A morte é tudo que nos resta, é o que nos iguala, nos nivela, recebemos este dom no momento em que nascemos, pois somos humanos, fadados ao eterno sono e lidamos com este fardo o melhor que podermos.
Este medo que atormenta o ser humano incessantemente é uma fenda profunda, uma lacuna aberta na existência humana, muitas vezes, preenchida com as mais mirabolantes respostas, tanto respostas religiosas, como místicas e científicas também, uma busca, muitas vezes, desesperada por uma resposta, qualquer que seja.
O ser humano evoluiu muito desde aqueles remotos tempos dos australopitecídeo, onde nem mesmo a fala estava desenvolvida até os dias de hoje, porém, uma coisa não mudou em todas estas eras;
nossa “humanidade”,
os problemas do ser humano continuam sendo os problemas da existência mesma e mesmo que hoje nós vivamos em uma época de “especialistas”, de “homens da ciência”, de “cultura jornalística” de uma “ditadura da praticidade” que joga para debaixo do tapete todos os problemas reais da existência, mesmo nesta época que encanta os olhos, a angústia humana permanece, praticamente inalterada.
A Modernidade talvez seja a época onde a Religiosidade humana esteja mais suprimida por um entusiasmo tecnológico e por um otimismo vulgar.
No entanto, um olhar mais apurado nos fará enxergar que mesmo nesta época tão cientificista nossa Religiosidade persiste;
a Morte e o Medo são os nossos eternos companheiros.
Nossa Religiosidade persiste sob as camadas da modernidade e suas cores.
Quando chegamos em casa, depois de um dia inteiro de trabalho e colocamos uma música para relaxar e sem que nos demos conta, estamos completamente envolvidos pela música.
Na verdade, estamos colocando a realidade sob parênteses, estamos, pelo tempo da canção, desligados da rotina, recordemos o que dissemos antes; dissemos que para estar vivo é preciso estar em eterna luta e de tal luta resulta um sofrimento, também dissemos que tudo que é vivo sofre, pois não existe vida sem o sofrimento da luta diária.
No sujeito moderno, somos levados a crer que este sofrimento não existe, Toda a estrutura da modernidade prepara o ser humano para trabalhar e, nas horas de folga, se distrair, disfarçando assim o significado real da existência, o sujeito moderno vive em um estado de torpor perene, ele sabe que vai morrer um dia, mas não aceita.
Tenta, a todo custo, postergar a morte, não gosta de falar no assunto, se agarra com toda a força que tem na ciência, busca nela a solução de seus problemas, pois Deus já não consegue dar-lhe acalento (mesmo que as igrejas estejam cheias).
Pois bem, quando este sujeito, esmagado pela rotina e pela angústia, ouve a canção e por alguns minutos ele se vê livre dos tormentos da existência ele tem a experiência do belo e do sublime, uma experiência estética, uma Religiosidade autêntica.
Ele tem a Experiência do Brinquedo que Rubens Alves nos mostrou agora há pouco.
Assim como o homem religioso que, ao entrar em seu lugar sagrado, se desliga automaticamente da rotina e do mundo.
São duas experiências tão distintas, mas carregam, nos significados, os mesmos "motivos humanos”.
E por que precisamos de rituais e tantos pensamentos voltados para questões abstratas?
Por que não ignorar, simplesmente, estas questões e voltar nossa energia e intelecto apenas para questões práticas?
Por que não mergulhar de cabeça no espírito da modernidade e exaltar apenas questões práticas e objetivas para a vida, renegando assim nossa Religiosidade?
...
As respostas para estas questões demandam um olhar introspectivo, um voltar a si mesmo, um percorrer a “humanidade” que existe em cada um de nós, como ser único, dotado de verdadeira liberdade e de verdadeira Religiosidade;
mas poucos exercem esta Religiosidade nos tempos atuais, poucos são os humanos verdadeiramente livres das influências da sociedade, das instituições, das opiniões alheias, muitos preferem se entregar à Religião e seus ritos, sentimentos e religiosidade artificiais.
A maioria de nós está preso nas intrincadas maquinações das sociedades e da Cultura.
É preciso se libertar destas garras por meio de muitas catarses;
mas quantas, quantas catarses precisamos realizar para retiramos camadas e mais camadas de valores deturpados, de negação da vida, de pressões internas e externas, de engôdos e subterfúgios... quantas?
Para aqueles que aceitarem o chamado que a vida faz para cada de um de nós, ao desafio de viver sem recorrer a falsos oásis, a viver sua Religiosidade humana sem intermediações, sem Religião, mesmo para estes poucos e corajosos homens e mulheres nada lhes dará a garantia de uma vida sem sofrimento, posto que isso seria uma contradição, mas sem dúvida para estes eleitos a existência seria genuinamente autêntica e a vida estaria sendo afirmada em todo o seu esplendor.
Viva a sua vida com mais Religiosidade e menos Religião.
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E aí, gostaram do artigo desta semana ??
antes de nos despedimos gostaríamos de fazer alguns detalhamentos e esclarecimentos;
Nas últimas semanas estamos falando de assuntos que se complementam e, como estamos encerrando esta fase, acreditamos que seria legal dar uma "organizada" no material que foi lançado até o momento;
nossa jornada pela psique humana e sua estruturação começou lá em nosso texto O PENSAMENTO CRÍTICO PARA O PÚBLICO INFANTOJUVENIL lá, iniciamos descobrindo como se dá o início da vida psicológica do sujeito e a importância de manter uma educação emancipadora e crítica para o fomento de pessoas com uma boa estruturação psicológica;
devemos ressaltar que não é certo considerar as crianças indivíduos sem capacidade crítica.
Na sequência, com o texto A ESTRUTURA PSICOLÓGICA HUMANA esmiuçamos o desenvolvimento da psique humana destacando o papel preponderante da Cultura, entendida aqui como a soma dos conhecimentos e dilemas morais que "educa" os indivíduos e os compele a viver em sociedade.
Seguindo nosso empreendimentos chegamos ao texto A RELIGIÃO COMO UMA ÉTICA RELIGIOSA DE CUNHO INSTITUCIONALIZADA, aqui, revelamos a Religião como uma das mais contundentes e influenciadoras instituições da Cultura humana, responsável por uma forma incisiva de educação para a Cultura, por meio da Religião se instaurou toda uma gama de valores que vige até os dias atuais;
foi também neste texto que iniciamos as primeiras diferenciações entre a Religião e a Religiosidade entendida aqui como uma manifestação natural e autêntica da estruturação psicológica humana.
E finalmente, chegamos ao artigo de hoje que tem a intenção de complementar o texto da semana passada trazendo mais informações sobre o poder da instituição Religião, seu papel nas megaestruturas assim como o seu dilema com a Filosofia, assim como, nos aprofundar na questão da Religiosidade que, por ser da ordem da ontologia é de difícil definição.
Reconheço que o tema é complexo e confuso, por isso resolvi deixar claro a bibliografia que usei para escrever o artigo de hoje e o da semana passada;
para quem quiser se aprofundar nesta temática estes livros vão ajudar bastante;
Segue abaixo a bibliografia dos artigos:
DUFOUR, R.A Arte de Reduzir as Cabeças. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2011.
CLACK, B. Freud no Divã. São Paulo: wmf Martins fonte, 2015.
GAY, P. Freud, uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das letras, 2015.
ALVES, R. O Enigma da Religião. Ed. Vozes, 1975.
GRIMBERG, C. História Universal. Ed Azul, 1989.
CHAUI, M. Convite a Filosofia. Ed Ática, São Paulo, 2000.
GAARDER, J. HELLERN, V. NOTAKER, H. O Livro das Religiões. Ed Cia das Letras, São Paulo, 1989.
FREUD, S. O Futuro de uma Ilusão. Ed L&M POCKET, Porto Alegre, 2011.
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