A FILOSOFIA PARA PENSAR AS QUESTÕES AMBIENTAIS

 

Olá escritores !!


Preparados para o artigo desta semana ??


Antes de mais nada, gostaríamos de nos desculpar com vocês pelo atraso em nosso encontro semanal, este artigo estava programado para ser publicado no dia 4/2/2023, logo na sequência das reflexões que fizemos em nosso último encontro, mas a necessidade de "fazer dinheiro" e sobreviver não nos permitiu a dedicação necessária às pesquisas e à escrita de nosso tema.


Mais uma vez peço desculpas pelo atraso e vamos retomar nossa reflexão de onde paramos;  


Em nosso último encontro, no artigo DA URGÊNCIA À EMERGÊNCIA - A IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO AMBIENTAL NO SÉCULO XXI, publicado lá no distante 28/1/2023, se vocês bem se lembram, conversamos sobre a emergência das questões ambientais, refletimos na ocasião que as mudanças climáticas são uma realidade palpável para qualquer cidadão, esteja onde estiver, em qualquer parte do planeta.


As questões ambientais, desde que foram descobertas, sempre foram uma questão urgente para a humanidade, ou seja, um problema humano que não pode prescindir, questões indispensáveis, basilares, elementares, resultado direto de nossas ações no planeta. 


Por meio da comunidade científica adquirimos a consciência de que as nossas ações no planeta têm consequências e, por esta razão, estas questões sempre foram consideradas importantíssimas para a comunidade científica.


Não obstante, mesmo com a insistente advertência da comunidade científica, foi sempre uma prática comum dos Estados Nacionais e da sociedade em geral a negligência em relação às questões ambientais, todos têm plena consciência de que é importante reduzir os níveis de Co2 na atmosfera, cuidando dos vários biomas que regulam a qualidade do ar, temperatura média e ciclos da chuva, mas a consciência do que é preciso fazer não foi suficiente para uma mudança de atitude e fizemos justamente o contrário; seguimos por um caminho consciente e inconsequente de consumismo que, por sua vez, exigiu maior exploração de recursos naturais, produção de lixo e poluentes.


Obviamente que, como vimos em nossa última reflexão, a questão não é somente uma "consciência ecológica" em si, a "consciência" de que é preciso mudar, inclusive, já existe, o desafio passa a ser a efetiva mudança entre o saber que algo precisa ser feito e a ação concreta. 


Entre a consciência e a ação há infinitos aspectos políticos em nível mundial envolvidos; nacionalismos, subdivisões, interesses particulares, politicagem entre outros fatores fazem os países se fecharem em suas divisas e há de se destacar aqui também as peculiaridades de nossa era em particular, os movimentos políticos das últimas décadas que resultaram na ascensão da extrema direita mundial que está entre nós e vem alimentando em sua militância um nacionalismo deturpado, negacionismo, ataques aos sistemas democráticos entre outros atrasos.


Mesmo com esta extrema direita atuante e as dificuldades naturalmente postas a questão ambiental é um fator tão preponderante neste novo século que se inicia, de evidência posta indiscutivelmente pela incontestabilidade dos fatos e que se impõe como um imperativo vital para toda espécie humana, que forçará mudanças profundas no agir humano, reformulando inclusive, todos estes fatores políticos que impedem uma efetiva mudança no trato com a natureza.


Ao passarmos da urgência para a emergência recebemos um ultimato da comunidade científica; ou, encontramos formas concretas de diminuir nosso consumismo e nossas agressões à natureza, mudando nosso trato com a realidade e uns com os outros no processo ou, o planeta se tornará cada vez mais hostil à nossa presença! 


Em outras palavras, encontrar um novo paradigma que substitua o atual mecanicista/cartesiano, antropocêntrico por excelência, por um paradigma ecológico/sistêmico, que retire do centro das considerações o ser humano e seja, por definição, mais ambientalista, em outros termos, que considere o ser humano não como o centro do planeta, capaz de conhecer o mundo e modificá-lo sem sofrer seus efeitos, mas sim em um papel mais participativo, integralista e igualitário com o planeta e todos que o habitam.


Neste ponto de nossa elucubração, vale a pena esclarecer a definição de "paradigma" que usamos com certa frequência em nossas reflexões sobre meio ambiente:


O termo "paradigma" vem da literatura de Thomas kuhn (1922-1996), trata-se do grau de importância dado pela comunidade científica a um certo conjunto de práticas e conceitos que definem o arcabouço de valores e técnicas usados pela comunidade científica, um paradigma é, portanto, o conjunto de valores aceitos por toda uma comunidade, ele serve de base teórica para os novos membros da comunidade e não são definitivos, um paradigma está sempre posto à prova por meio das "revoluções científicas" e são substituídos quando um outro paradigma surge, por meio de uma "revolução científica" pode ocorrer uma "mudança de paradigma".


Em sua obra A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS (1962), Thomas Kuhn vai definir o paradigma da seguinte forma:


A constelação de realizações-concepções, valores, técnicas etc. compartilhada por uma comunidade científica e utilizada por esta comunidade para definir problemas e soluções legítimas (KUNH, T. A Estrutura das Revoluções Científicas, 1962, são Paulo Ed. Perspectiva).


Assim sendo, o paradigma usado por todo o conjunto de nossa sociedade, adotado quando entramos no que se convencionou chamar de "modernidade", a saber, o paradigma cartesiano, tem como cânone principal de seus valores as seguintes ponderações:


> o universo como um sistema mecânico, compostos de blocos de construção elementares;

> o corpo humano como uma máquina;

> a vida em sociedade como uma competição pela sobrevivência do mais forte (ou, do mais preparado, do mais provido, financeiramente falando, com os melhores estudos etc.);

> crescimento material ilimitado, baseado em um avanço econômico e tecnológico;

> a crença de que a mulher é um indivíduo inferior ao homem, em uma sociedade que segue uma suposta lei natural e é estruturada para facilitar a vida do homem e dificultar a ascensão feminina.

...


Todas estas suposições, que regem o nosso agir no mundo formando o paradigma moderno atual, têm sido sistematicamente desafiadas por eventos recentes, ao ponto de precisarem serem revistas e, em muitos casos, serem completamente abandonadas, por isso estamos em uma era de "mudanças de paradigmas" e, nesta encruzilhada histórica em que nos encontramos, de uma era em particular que demanda mudanças drásticas em nosso modo de vida, de complexas e profundas mudanças estruturais em todo o mundo, será a questão ambiental a grande balizadora de todas as mudanças que precisamos implementar a nível mundial.


Isso porque chegamos a um ponto em que nossas picuinhas políticas e desavenças entre países não importam mais, forçosamente, teremos que encontrar meios para aceitar as diferenças, ajudar os mais necessitados, cuidar dos biomas naturais e, todas as decisões políticas que tomarmos de agora em diante, terão que levar em consideração a questão ambiental majoritariamente, não há mais como procrastinar atitudes em prol do meio ambiente, como fizeram os EUA e a China (os 2 maiores poluidores de todo o planeta) durante todo o século passado.


Falamos bastante sobre as questões ambientais e suas consequências em nossos artigos ÉTICA VERDE - A TEIA DA VIDA, publicado em 31/7/2021; O ULTIMATO DO IPCC - MUDANÇAS CLIMÁTICAS E O PESO DA REFRIGERAÇÃO, publicado em 14/8/2021 e DA URGÊNCIA À EMERGÊNCIA - A IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO AMBIENTAL NO SÉCULO XXI, publicado em 28/1/2023.

...     


Hoje, vamos dar continuidade a esta reflexão ambiental, discutindo o papel da filosofia para pensar as questões ambientais, a filosofia sendo a responsável por fundamentar uma contundente base teórica que respalde este novo agir no mundo.


Para esta importante empreitada a filosofia se mostra como a principal ferramenta, é ela a única capaz de fundamentar uma sólida base teórica que encaminhe o nosso agir no mundo, nos valendo de novos valores, distantes do atual paradigma que rege nossas relações e que tem nos trazido muitas complicações, como vimos em nossa última reflexão. 


A filosofia tem por característica principal seu teor crítico, a incrível capacidade de colocar de lado as paixões, dogmas, crenças e construir um tipo de conhecimento que se baseia em conceitos lógicos e no rigor do pensamento, evitando assim a auto enganação e a tirania, por isso é um pensamento tão importante na história humana, foi por meio do penamento crítico/filosófico que avançamos nas questões mais importantes da humanidade, séculos após séculos.


São inúmeras as questões que assolam a humanidade desde tempos imemoriáveis; Deus existe? A história humana tem sentido e, se tem, qual é? O ser humano é realmente livre? A ciência nos dá realmente a certeza? O que é a verdade? Qual é a relação entre fé religiosa e ciência? Quando podemos dizer que um país é realmente democrático? Entre outras questões que vem acompanhando a jornada humana. 


A filosofia é, portanto, uma das principais ferramentas para a elaboração de um conhecimento que seja válido para o avanço do agir humano no mundo, as grandes questões da filosofia são as grandes questões da humanidade e, na atualidade, a questão ambiental é uma das principais questões, pois trata de nossa sobrevivência como espécie neste planeta.


Os questionamentos filosóficos relacionados aos problemas humanos estão ligados ao destino de todo ser humano, tanto individualmente, quanto em sociedade, são questionamentos nos quais as mentes mais elevadas da humanidade se debruçaram no decorrer do séculos.


É este incrível arcabouço teórico/filosófico que constitui o grande legado do ocidente.


A história da filosofia é a história dos problemas filosóficos, a história das disputas dos filósofos e dos erros dos filósofos, é sempre a história de novas tentativas para versar novos olhares sobre questões inevitáveis, na esperança de conhecer sempre melhor a nós mesmos, encontrar orientações para nossa vida e motivações para continuar a jornada humana.


Em cada período histórico, é a filosofia a se debruçar sobre determinado problema humano, não para chegar a uma resposta final, mas sim para indicar um caminho que considere as melhores escolhas para um melhor agir no mundo.


Em nossa era, é a questão ambiental o grande problema que vem se apresentando, é ele que demandará uma substanciada base teórica, livre de dogmas, fanatismos, ideologias e preconceitos para fundamentar um novo código de valores muito diferente deste que está aí e, dado que, o capitalismo é uma realidade entre nós, e, em sendo assim, continuará exercendo a sua influência consumista sobre seus tutelados por um longo período, nosso maior desafio se mostra em como conciliar a necessidade do ser humano em captar recursos naturais em um mundo com recursos limitados.


Certamente, um dos primeiros passos para esta necessária mudança passa por um novo tipo de consumismo; encontrar formas de se desvencilhar do consumismo frenético e sem sentido que é a nossa máxima atual e, para muito além disso, estabelecer ações concretas que se darão por meio de militância política, isso, para mudar de fato os valores que regem nossas sociedades e que estão profundamente enraizados em nosso agir atual. 


É para fundamentar este novo agir e em resposta a estes novos desafios que se descortinam bem a nossa frente que vem surgindo um novo tipo de pensamento que visa encontrar formas para a vivência humana, levando em conta não somente o pragmatismo das ações, como também um agir que se baseie em uma atitude mais ética nas ações do ser humano no mundo.


A Ecosofia e a Ecologia Profunda são ramos da filosofia, escolas filosóficas que vão muito além da reflexão sobre a ecologia, como uma "filosofia da ecologia" somente, estes 2 ramos da filosofia visam estruturar as bases para um novo agir no mundo, que leve em consideração as questões ambientais em um "agir ambientalista", explicando melhor, são ramos da filosofia que procuram estabelecer uma postura mais ativista e política e veem na ecologia não um objeto para estudo somente, mas uma prática do agir humano em todas as instâncias políticas da vivencia humana. 

 

A filosofia deste novo século tende a ser mais intervencionista e menos contemplativa do que em séculos anteriores, visa não somente entender os problemas, mas encontrar formas concretas para aplicar soluções, novas escolas filosóficas vêm aparecendo desde o século XIX, motivadas principalmente pela urgência das questões ambientais e a necessidade concreta das ações demandadas.

... 


Então, vamos conhecer melhor esta forma de fazer filosofia que considera as questões ambientais e visa uma ação no agir humano, em nome de nossa própria sobrevivência;


Desejamos para você uma boa leitura e uma boa reflexão!





A ECOSOFIA


George Friedrich Hegel (1770-1831) em sua obra PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO DIREITO, publicado em 1820, vai fazer uma contundente apresentação da filosofia moral, legal, social e política, aprofundando temas que haviam sido abordados por ele anos antes, nesta obra Hegel vai argumentar que a Lei provê a base principal do Estado Moderno e a ausência da Lei seria considerado um despotismo. 


Nesta obra Hegel também vai tangenciar o papel da filosofia que, segundo ele, tem uma função mais contemplativa do que atuante nas sociedades, se utilizando de uma alegoria sobre a coruja de Minerva (Atenas) que só levanta voo no crepúsculo, Hegel vai dizer que a filosofia sempre chega tarde demais aos problemas humanos, mesmo que, tenha a capacidade para compreender os problemas com extrema profundidade, ela chega a sua compreensão quando o mundo muda, dirá Hegel:


(...) mesmo ao dizer algumas palavras sobre a doutrina de como deve ser o mundo, a filosofia sempre chega tarde demais. 

Enquanto pensamento do mundo, ela aparece pela primeira vez no tempo depois que a realidade completou seu processo de formação e já está pronta e acabada...

Quando a filosofia pinta de claro-escuro então um aspecto da vida envelheceu e não se deixa rejuvenescer pelo claro-escuro, mas apenas reconhecer; a coruja de Minerva levanta voo ao cair do crepúsculo.

...

     

A ideia defendida por Hegel, de que a filosofia é uma manifestação humana que apenas contempla o mundo sem nunca mudá-lo, é uma forma de encarar o papel da filosofia nas sociedade que vem recebendo críticas há muito tempo, já com Karl Marx (1818-1883) esta concepção foi combatida arduamente, para Marx, os filósofos não deveriam se contentar em interpretar o mundo unicamente, mas teriam uma obrigação ética em agir sobre ele.


No decorrer histórico e com os novos desafios surgidos principalmente do século XIX para cá, entre eles a questão ambiental, esta ideia da filosofia com um papel mais atuante nas sociedades foi ganhando mais destaque, nos parece ser uma unanimidade para a filosofia moderna que, frente os novos desafios que a humanidade enfrenta, a filosofia deve ser muito mais uma forma atuante na busca por novos valores do que unicamente uma forma de compreender a realidade, sem intervir.


É neste contexto que vem surgindo na filosofia moderna ramos de pensamento voltados à questão ambiental, social e política, escolas filosóficas que visam uma postura mais atuante nas esferas políticas e sociais, além de fornecer bases teóricas sólidas, contundentes e embasadas para repensarmos nossa relação com a natureza. 


A Ecosofia é uma termo relativamente novo na filosofia, surgiu em meados da década de 1960, vem suprir uma necessidade em expressar uma forma de pensamento voltada às questões ambientais, mas não como uma "filosofia da ecologia" ou seja, um ramo da filosofia que apenas estuda as questões ambientais em uma  espécie de "Ecofilosofia", por assim dizer,  mas sim um ramos da filosofia que propõe um engajamento político e social, com vistas a uma real mudança de comportamento. 


A Ecosofia busca um conhecimento mais orgânico das questões ambientais, fazendo seus entusiastas obterem uma relação mais fisiológica com a natureza, em outros termos, uma relação de consciência das questões ambientais e também dos processos políticos que vão se refletir, por sua vez, em seu estilo de vida e em um consumo mais racional, evitando assim o consumismo desenfreado e irracional, com os preceitos da Ecosofia encorporados, os indivíduos tendem a consumir por "necessidades reais" e não por "necessidades fabricadas". 


Nunca é demais lembrar que, em nossa atual configuração de sociedade, somos bombardeados diariamente por uma massiva máquina de propaganda que introjecta em nossos subconscientes falsas necessidades, isso sem falar que, na atual conjectura cultural e política, o sistema exige que o consumo esteja sempre alto, por isso, somos sempre compelidos a produzir e consumir cada vez mais, em um círculo vicioso difícil de sair.


A Ecosofia surge para, em primeiro lugar, conscientizar as pessoas deste estado de coisas e, na sequência, combater o consumo supérfluo pensando a natureza (fonte de tudo que consumimos) com mais respeito e consideração, refletindo profundamente sobre as consequências de nosso consumismo para todos os habitantes do planeta, desconstruindo assim a visão antropocêntrica atual, que sugere ser o humano o "mestre" do planeta, podendo fazer o que quiser sem nenhum tipo de consideração. 


A Ecosofia prioriza o consumo do que for estritamente necessário, sugere repensar nossa forma de consumir, evitando assim os excedentes, os desperdícios e a acumulação de bens, sociedades indígenas podem ser consideradas como um excelente exemplo de uma sociedade onde se consome de forma inteligente, afinal, os indígenas têm, naturalmente, uma postura ecosofista frente à vida; consomem da natureza apenas o necessário para a sua sobrevivência, sem acumulação de bens.


E, ao citarmos os indígenas como exemplo para nossas sociedades, convém não levar o exemplo ao pé da letra, ou seja, supor que estejamos sugerindo que voltemos a viver em florestas, caçando o que vamos comer, afinal, dado a urbanização desordenada, a destruição de ecossistemas inteiros e nossa completa indiferença a tudo, isso sem falar no fato de séculos sob tutela de um sistema individualista, acumulatório, impessoal e problemático, resultados de nossas escolhas séculos afora, temos plena consciência de que o atual status quo está muito bem estruturado em nossas sociedades, defendido inclusive por seus explorados e a mudança que propomos demandará tempo e luta. 


Quando citamos as comunidades indígenas como exemplo para nossas sociedades modernas estamos chamando a atenção para o estilo de vida dos indígenas, um estilo de vida ecosofista por excelência, onde, retiram seus recursos da natureza de forma sustentável, com plena consciência da importância da floresta incólume para sua própria sobrevivência, um estilo de vida que subsiste em plena harmonia com o planeta e, este estilo de vida ecológico, podemos aprender e aplicar em nossas "magníficas" cidades. 


Devemos exercitar um novo olhar sobre a forma que os povos originários vivem, compreender o cerne da filosofia indígena, deixando de lado os vários preconceitos que, inconscientemente, exercemos em nossa cultura consumista e soberba que se julga superior a indígena; enxergar na natureza a fonte para suprir necessidades e não acumular bens e, para este novo olhar, é necessário levar a sério as questões ambientais.


Antes dos anos 1960 as preocupações com as questões ambientais eram consideradas como hobby de alguns e alarde exagerado de cientistas, mesmo que, como vimos em nosso último encontro, nos ciclos científicos a questão ambiental nunca deixou de ser importante, hoje em dia, apesar de barulhentos, são poucos os que creem que as advertências dos cientistas é exagero, a questão ecológica está em praticamente todas as discussões políticas, sejam elas sociais, econômicas ou comerciais, não importa, sempre há de se considerar questões ambientais nas discussões políticas.


 Muitos fatores contribuíram para esta mudança de postura e a realidade dos fatos se impôs de tal forma que, mesmo para os mais ferrenhos negacionistas, ficou difícil contradizer a evidência dos fatos; as mudanças climáticas estão entre nós! 


Mesmo assim, o pensamento ecosófico encontra muitos pontos de resistência, principalmente nesta era negacionista que atravessamos, acusam a Ecosofia de ser composta de "radicais", por, supostamente, impedir o avanço das economias e o progresso, com exagero, alarmismo e tecnofobia. 


Em uma era tão obscurantista como a nossa, regada por reforço de preconceitos, fake news e uma extrema direita raivosa, a religião é constantemente usada como uma ferramenta para confundir, disseminar mentiras e preconceitos, a religião, manifestação autêntica da religiosidade humana, entra neste caldeirão de ideias para justificar o ultrapassado paradigma antropológico e corroborar a suposta superioridade do ser humano frente a natureza, pois a natureza, segundo este paradigma antropológico/religioso, é uma dádiva de Deus ao ser humano. 


Nunca é demais lembrar que, caminha lado a lado com o negacionismo que atravessamos, um profundo fundamentalismo religioso que deturpa tudo com interpretações enviesadas das sagradas escrituras.


 Gênesis 1:26-27 é um bom exemplo de uma interpretação enviesada das sagradas escrituras, lá está escrito: 


E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.       

...


E, baseados em interpretações tortas e descriteriosas de textos bíblicos, como o supracitado, acreditam que é justificável ao ser humano fazer tudo que lhe apetecer, pois, segundo eles, a natureza e o planeta são presentes de Deus e, em sendo assim, seria impossível ao ser humano destruir a obra divina, apoiados em interpretações distorcidas como esta, acusam os ambientalistas de serem alarmistas e tecnofóbicos, com medo do progresso humano que, segundo eles, estaria garantido pela infinita generosidade divina. 


O que escapa à inteligência desses fanáticos religiosos é que, de fato, quando falamos em "salvar o planeta" estamos cometendo um erro terminológico e, nesse sentido, a obra de Deus é mesmo infinita, mas isso não significa dizer que a humanidade é infinita, muito pelo contrário, afinal, a terra tem um diâmetro aproximado de 13 mil quilômetros e a parte onde a vida se manifesta é de apenas 0,1% do diâmetro total, assim sendo, destruir o planeta seria uma missão impossível ao ser humano, mesmo com o esforço gigantesco que temos feito.


Mas, devemos ter claro em nossas mentes que, com nossa atual postura e acreditando que o planeta e a natureza são "presentes de Deus", estaríamos no caminho certo para acabar com a nossa própria existência neste planeta e levaríamos junto espécies inteiras no processo e o planeta, seja ele um presente de Deus ou não, seguiria o seu caminho sem a nossa presença e a vida certamente encontraria novas formas de se manifestar. 


Assim, soa ridículo o apelo religioso para justificar seguirmos no caminho em que estamos de exploração inconsequente dos recursos naturais já que o planeta e mesmo Deus, não são os responsáveis por nossas ações, nós somos! São as nossas ações políticas que guiam os nossos destinos e, sendo assim, deveríamos estar preocupados em preservar a biosfera do planeta para, em última instância, salvar a nós mesmos, como especie, além disso, devemos recordar que o viés religioso deve ser condicionado a esfera da subjetividade unicamente e jamais ser misturado à política, não faltam exemplos na história que demonstram que todas as vezes que se misturou política com religião os resultados foram catastróficos.


A ECOLOGIA PROFUNDA


Na política, lugar certeiro para desenvolver uma nova forma de agir no mundo, vale a pena ressaltar o advento dos chamados "Partidos Verdes" em todo o globo, baseados principalmente nos fundamentos da Ecologia Profunda, mais um ramo da filosofia que se debruça nas questões ético/ambientais, a Ecologia Profunda, elaborada inicialmente pelo filósofo norueguês Arne Naess (1912-2009) que cunhou o termo em 1972 e os Partidos Verdes têm princípios bem definidos como raio de sua ação, vamos ver os principais deles:


> A sabedoria ecológica ou Ecosofia, reduzir o impacto da ação humana sobre o meio ambiente, buscando formas harmoniosas de coexistir com outros seres da biosfera terrestre;

> A justiça social, priorizar a justiça social em detrimento da ordem, tender sempre para a justiça, combatendo arduamente as injustiças sociais;

> A democracia de base, evitar, ao máximo possível, a centralização de poder nas mãos de grupos pequenos fortalecendo assim os preceitos democráticos, a democracia plena é condição fundamental para as questões ambientais e de justiça social;

> A Não-violência, inclui não somente um pacto de não agressão física como também nenhuma outra manifestação de violência, seja verbal, moral, intimidação etc. assim se estabelece uma linha de diálogo com o contraditório e busca-se resolver os conflitos de forma pacífica, mas não se deve confundir o pilar da Não-violência com inação ou negligência, afinal, muitas vezes, para se desafiar o modelo vigente é necessário assumir uma postura pro-ativa, realizar manifestações, protestos, passeatas, requerer direitos etc. 


Para Naess a Ecosofia é, sobretudo, uma postura política, busca modos concretos de coexistência harmoniosa entre sociedade humana e natureza, tal postura nos desafia constantemente a luta, pois, implica em pensar novas formas de produzir as coisas e, ao mesmo tempo, nos reeducar em nossos hábitos de consumo desafiando interesses muito bem enraizados em nossas sociedades, enfrentando poderosos lobbys acostumados a mandar no jogo até aqui.


Veja o que Naess nos diz sobre a Ecosofia:


Por Ecosofia quero dizer uma filosofia de harmonia ecológica ou equilíbrio. 

A filosofia como uma espécie de sabedoria é abertamente normativa, pois contém tantos as normas, regras, postulados, anúncios prioritários de valor e hipóteses sobre o estado de coisas no nosso universo.

"Sabedoria" é a sabedoria política, a prescrição, não apenas a descrição científica e a previsão.


Fonte: An Ecophilosophy Approach, The Deep Ecology Movement, And Diverse Ecosophies, publicado no Journal Of Ecosophy em 1997.   

...


Ecosofia e Ecologia Profunda nasceram em ramos diferentes da filosofia, mas seus objetos de estudo são tão intrinsecamente interligados que um pensamento complementa o outro, formando um arcabouço de conhecimento que visa re-significar o conceito "ecologia", assim sendo, a ecologia, que até então sempre foi considerada um ramo da biologia voltado ao estudo dos seres vivos e suas interações com o meio ambiente,  passa a ser também uma nova consideração filosófica e política, com vistas a um engajamento de toda a sociedade em busca de uma mudança estrutural, substituindo valores atuais como o individualismo, antropocentrismo, consumismo entre outros, por valores ambientais, sistêmicos, sociais entre outros.


Em fato, o que propõem estes novos pensamentos filo-ecológicos é que se desfaça da noção do Uno, do individual e da indiferença, pensamentos que fomentam uma falsa separação entre ser humano e natureza, se olharmos com bastante atenção, vamos perceber que as várias subdivisões que tendemos a implementar em nossa vivência geram uma série de confusões nas quais estamos profundamente mergulhados.


Político, ecológico e social não estão separados, mas são nodos de uma mesma rede na qual estamos todos conectados, por isso, esta nova forma de filosofia que vem surgindo neste novo século propõe que caminhemos para a eliminação das divisões, colocando um olhar "holístico" em tudo, considerando todos os seres do planeta como habitantes de uma mesma casa e, portanto, detentores de direitos a vida como nós mesmos e todos os seres humanos como iguais, detentores dos mesmos direitos e igualmente responsáveis pela preservação do planeta.


Estamos sugerindo uma "ecologia das relações humanas" uma nova forma de vivenciar nossas relações, seja nossa relação coma natureza, ou mesmo nossas relações uns com os outros, simplesmente não aceitar que seres humanos como nós, em diversas partes do planeta, passem fome ou vivam em condições indignas, se isso virar um valor de fato em nossa sociedades e não somente uma "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão", que é linda no papel, mas não é aplicada na realidade, teremos engajamento real e político para resolver estas questões, todo este intrincado processo de mudança passa primordialmente por uma "consciência  ecológica", é a ecologia a temática capaz de unificar todo a humanidade em torno da busca de novos valores, isso porque a questão ambiental trata de um tema que interessa a toda a espécie humana, trata de nossa própria sobrevivência e requer ações que não podem ser escamoteadas ou adiadas, não mais. 


O grande desafio de nosso século é, sem dúvida, a questão ambiental e, dada a emergência deste tema para nossa sobrevivência, a filosofia vem se adaptando nas últimas décadas, não basta mais "contemplar" o mundo e conhecer sem nada fazer, é necessário propor caminhos para a intervenção política rumo ao engajamento social de todos que podem lutar e fazer da nossa casa um lugar justo para todos os habitantes deste pálido ponto azul.  


Se, desde tempos imemoriáveis a filosofia é uma manifestação humana que nos ajuda a compreender o mundo, livre de dogmas e fanatismos, buscando um conhecimento que seja real e franco, nos últimos séculos ela se adaptou aos novos problemas humanos e busca formas de ação efetiva em nossas sociedades, buscando não somente compreender a realidade, mas também formas de implementar mudanças práticas em nossa forma de agir no mundo. 


Parece que, de uns tempos para cá, a coruja de Minerva levanta voo também no alvorecer.


    

O século XXI se mostra uma era em que será necessária muitas mudanças estruturais em todas as sociedades ocidentais, demandando muita colaboração entre os países e a mudança radical de valores profundamente enraizados em nosso modo de viver, para uma empreitada assim tão ambiciosa a filosofia se mostra como uma ferramenta imprescindível, e ela vem se adaptando nos últimos anos, continua a ser uma forma de compreender a realidade livre de dogmas e preconceitos, no entanto, busca na atualidade indicar caminhos palpáveis para estruturar mudanças significativas e práticas, com vistas a construção de uma sociedade verdadeiramente justa, igualitária e deferente ao planeta, a casa de todos nós; gente, bicho e planta.    


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E aí, gostaram do artigo desta semana?


Como estamos percebendo em nossas reflexões a questão ambiental, juntamente com a questão educacional se mostram como nossos maiores desafios neste século que se inicia.


Evidencia também um papel de preponderância para a filosofia, isso porque os séculos anteriores o conhecimento conteudista era muito valorizado, neste século, estamos percebendo que mais do que conteúdo precisamos também de muito teor crítico para processar todas as informações que temos. 


A própria conjuntura de nossas sociedades e sua busca quase que ilimitada por tecnologia evidenciam que ter a informação apenas não basta, veja o desenvolvimento da Inteligencia Artificial, onde percebemos nitidamente que informação somente não é suficiente, é preciso saber o que fazer com a informação, aí entra uma "inteligência crítica" que, pelo menos por enquanto, só o ser humano tem. 


A inteligencia crítica é saber o que fazer com a informação que se tem, tornando assim as resoluções de problemas mais criativas e levando em consideração a ambientação (contexto) do problema, inteligência crítica deve ser treinada constantemente, não basta adquiri-la, é necessário treiná-la.


A nova filosofia que vem surgindo propõe justamente o aprimoramento desta inteligência crítica, pois tem um teor mais intervencionista, propõe caminhos palpáveis para mudanças complexas.


Esperemos que vocês tenham aproveitando bem as reflexões que fizemos hoje e, antes de nos despedimos, aproveitando o contexto do tema que tangenciamos hoje, julgamos ser proveitoso destacar um trecho de uma outra reflexão que fizemos e qu tema ver com a temática de hoje.     


Nos referimos ao texto; A FILOSOFIA SERVE PARA QUÊ?, publicado em 24/7/2021, neste texto, condensamos bem a nova proposta para fazer filosofia que estamos propondo que vai muito além da mera contemplação dos problemas, neste texto, falamos sobre uma filosofia com a intenção de intervir no mundo, mudar, de fato, o agir humano fornecendo as bases teóricas aliadas a uma reflexão livre de amarras morais que nos permitiria uma verdadeira mudança, embasada no que for melhor, tanto para nossa vida em sociedade, como para com nossa vida no planeta, repensando assim o atual modelo e considerando todos os habitantes do planeta como detentores de direitos, segue abaixo o trecho: 

 

É a Filosofia a manifestação humana que visa criticar a realidade o tempo todo, criticar o stato quo de nossas sociedades, os valores que seguimos cegamente sem questionar, a Filosofia não aceita respostas simplistas e prontas, poe tudo sob o julgo da crítica rigorosa, inclusive ela mesma.

 

Mas a Filosofia é muito mais do que reconhecer a estranheza da realidade e pô-la sob o julgo da crítica, a atitude filosófica é mais abrangente, trata de uma atitude intervencionista no mundo, uma atitude pragmática no sentido de requerer para si uma resposta para os questionamentos levantados, ou seja, não basta à Filosofia apenas notar e dizer sobre um aspecto da existência, levantar um questionamento e criticar.


É necessário uma atitude de proposição, insinuar uma via para o questionamento levantado, pensar, de forma lógica e rigorosa, sobre este aspecto notado, se não for possível a solução completa do problema, ao menos uma indicação sobre o caminho a ser tomado, uma reflexão mais aprofundada que visa mudar o mundo.

...


Então é isso, amigas e amigos, até o nosso próximo encontro que espero, seja semana que vem. 


Até lá e cuidem-se !! 





 

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