DA URGÊNCIA À EMERGÊNCIA - A IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO AMBIENTAL NO SÉCULO XXI
Olá Escritores !!
Preparados para o artigo desta semana??
Em nosso artigo de hoje vamos refletir sobre as questões ambientais e os desafios que se descortinam no horizonte de toda a humanidade.
Há décadas a pauta ambiental com suas mudanças climáticas deixou de ser um conceito distante, do qual ouvíamos falar no noticiário e que não alterava nossas rotinas, nos dias atuais as mudanças climáticas nos atingem diretamente, seus efeitos podem ser sentidos de diferentes formas; seja por um simples transtorno, como ficar preso em um engarrafamento, seja pela inflação nos alimentos, sentido nas prateleiras dos supermercados ou seja ainda por perdas irreparáveis e incalculáveis que se dão em vidas humanas nas tragédias de grandes proporções.
Em maior ou em menor grau, todos nós sentimos em nossa vivência diária que o clima não está bem.
Por isso a escolha das palavras no título de nossa reflexão de hoje não é aleatória, a urgência e a emergência são palavras do repertório hospitalar, a emergência apresenta uma ameaça imediata para o paciente, enquanto a urgência é uma ameaça em um futuro próximo, que pode vir a se tornar uma emergência se não for solucionada.
A questão ambiental é urgente desde 1859, quando a comunidade científica tomou conhecimento de que as ações do ser humano no planeta causavam consequências, desde então, a comunidade científica vem alertando governos e sociedade para as questões ambientais com provas científicas e um incisivo levantamento de dados.
Algumas atitudes foram tomadas no decorrer dos anos; fóruns internacionais, reuniões com chefes de estado, relatórios, painéis, protestos, atitudes drásticas, como as ações do Greenpeace e outros ativistas e ONGs mundo afora, mas, infelizmente, todas essas ações não foram suficiente para arrefecer nosso estilo capitalista de viver e seguimos pelo caminho do consumo inconsequente, optamos por continuar dependentes de combustíveis fósseis, carvoarias, usinas nucleares, continuamos produzindo lixo, poluindo rios e mares, destruindo florestas e ecossistemas inteiros, em nosso consumismo desenfreado ficamos indiferentes à exploração e ao sofrimento animal e tantas outras escolhas equivocadas que tomamos no decorrer histórico ludibriados por um suposto "progresso".
O resultado de toda esta negligência histórica está chegando à nossa porta e se, desde 1859, a questão ambiental nunca deixou de ser urgente, o início deste século marca uma era onde a questão ambiental deixa de ser urgente e passa a ser emergente, significa dizer que, na busca por um impreterível equilíbrio ambiental, a humanidade vai ter que abandonar antigas "certezas" e passar a adotar um novo cânone de valores em sua relação com a natureza.
Estamos falando de uma mudança de paradigma tal que envolverá muito mais do que somente a relação humana com a natureza, mas sim com toda a realidade, uma mudança que abrangerá toda a ética humana, tanto em seu trato com a realidade, como em suas relações sociais, transformando valores que estão profundamente enraizados em nossa psique ocidental.
Esta profunda mudança estrutural virá a reboque da emergência das questões ambientais, que não podem mais ser ignoradas e demandarão um grande esforço coletivo de toda a comunidade internacional, tendo claro que ações concretas precisam ser implementadas para a preservação da biosfera terrestre e, consequentemente, para a nossa própria preservação como espécie.
Todo este esforço na busca por uma preservação ambiental trará subjacente outras necessidades na área social, são problemas que não poderão mais ser neglicenciados, não será mais possível ignorar a massa de miseráveis e esfomeados que o atual paradigma produz, afinal, a má distribuição da riqueza mundial está intrinsecamente ligada às questões ambientais.
Não custa recordar que 1% da população mundial detém 45,8% da riqueza planetária, significa dizer que quase metade da riqueza produzida no mundo está nas mãos de um pequeno grupo, correspondente a 1% da população mundial, enquanto isso, 99% da população mundial divide a outra metade da riqueza, distribuída da seguinte forma; 39,1% da riqueza planetária fica concentrada entre os 11,1% que têm de US$ 100 mil a US$ 1 milhão; 13,7% da riqueza é dos 32,8% que possuem de US$ 10 mil a US$ 100 mil e 55% da população lida com 1,1% da riqueza, ou seja, estamos falando de uma massa de miseráveis a nível mundial.
Fonte; Instituto Mundial para o Desenvolvimento de Pesquisa Econômica da Universidade das Nações Unidas.
Um contingente assim tão grande de pessoas em condições de extrema miséria são questões políticas que vão muito além da simples falta de dinheiro, a má distribuição de renda abarca outros fatores referentes a gestão do Estado na vida de seus cidadãos, dizem respeito a saneamento básico, moradia digna, alimentação saudável, acesso a medicamento e tratamento médico entre outras medidas que refletem na questão ambiental, por isso quando falamos em "desenvolvimento ambiental" estamos falando, necessariamente, de um "desenvolvimento sócio/ambiental".
Os desafios que se descortinam neste novo século, dos quais a questão ambiental tem inegável prioridade, são desafios que não podem mais ser postergados e, certamente, trarão outros desafios a reboque já que demandará um esforço coletivo mundial como poucas vezes se viu na história, afinal, estamos falando de uma questão de vida ou morte para toda a espécie humana.
Sabemos que atravessamos uma época de muito negacionismo científico, as adversidades que enfrentamos no combate à pandemia do novo coronavírus e as decisões tomadas no enfrentamento dessa situação sanitária grave, demonstraram que houve um considerável negacionismo científico que custou vidas.
Mesmo tendo consciência da era conturbada que atravessamos, do negacionismo, da ascensão da extrema direita e dos incontáveis retrocessos, a questão ambiental grita tão alto que é impossível ignorá-la, é uma realidade tão concreta, tão emergente, que vai se impor à humanidade, não temos mais tempo para ignorar as mudanças climáticas.
A questão climática é um dos maiores desafios que teremos que encarar no século XXI, um desafio que estimulará em toda a humanidade uma nova forma de lidar com a realidade, isso porque tais mudanças necessitam de ações abrangentes, que extrapolam as divisas políticas e exigem comprometimento de longo prazo, ações concretas e colaboração entre as nações.
Quando falamos de proteção do meio ambiente, de ecossistemas, biosfera etc. as divisões políticas não fazem a menor diferença.
Aqui em nosso espaço tangenciamos o tema "mudanças climáticas" em duas ocasiões; em nosso artigo ÉTICA VERDE - A TEIA DA VIDA, publicado em 31/7/2021 e no artigo O ULTIMATO DO IPCC - MUDANÇAS CLIMÁTICAS E O PESO REFRIGERAÇÃO, publicado em 14/8/2021, estes textos trazem outras perspectivas sobre o tema e complementam as reflexões que faremos hoje.
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Em nossa reflexão de hoje dividimos o texto em 2 capítulos principais, distribuídos da seguinte forma:
> 1ª parte - A urgência da questão ambiental - estabelecendo uma "linha do tempo" das questões ambientais destacando que, desde que foi notada, a influência das ações humanas no planeta sempre foram consideradas como urgente para a comunidade científica;
> 2ª parte - A emergência da questão ambiental - destacando que, desde o início do século XXI, a questão ambiental deixou de ser urgente e passou a ser emergente, o que significa dizer que não é mais possível nenhum tipo de procrastinação, as ações devem ser efetivas, pois, os efeitos das mudanças climáticas deixaram de ser projeções e passaram a ser efeitos táteis, sentidos por todos os habitantes do planeta, em maior ou menor grau.
> Semana que vem, voltamos ao tema "meio ambiente", refletindo sobre o papel da filosofia no contexto ambiental.
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Então vamos nos aprofundar nestes novo agir no mundo que visa a preservação da espécie humana no planeta.
Desejamos para você uma Boa Leitura e uma Boa Reflexão!
A URGÊNCIA DAS QUESTÕES AMBIENTAIS
Começamos a mudar o equilíbrio ecológico do planeta aproximadamente no ano de 1800, este período compreende uma fase em que entra em vigor mudanças significativas na organização social, começa a se estabelecer um novo paradigma organizacional que implementa o trabalho assalariado por meio da Primeira Revolução Industrial (1750-1850) que reorganiza os meios de produção, concomitantemente, há uma melhoria no saneamento básico e na capacidade técnica para produzir grandes quantidades de comida, fatores que elevam a taxa populacional do planeta.
Muita gente não sabe, mas em 2022 ultrapassamos a marca de 8 bilhões de habitantes, nosso primeiro bilhão foi justamente no ano de 1804, o período de abrangência da Primeira Revolução Industrial, desde essa época, a população mundial cresceu bastante; no ano de 1927 chegamos a 2 bi, em 1960 3 bi, em 1974 batemos a marca de 4 bi, em 1987 subimos para 5 bi, em 1999 alcançamos a marca de 6 bi, depois, em 2011, 7 bi e, em 2022, chegamos a marca atual de 8 bilhões de pessoas no mundo.
Estimativas da ONU apontam que até 2100 seremos aproximadamente 11 bilhões de seres humanos.
Crescimento exponencial da população aliado a formas cada vez mais industrializadas de produção, consumo esvaziado de sentido entre outros fatores, fizeram nossas ações influenciar diretamente nos ciclos naturais.
A primeira grande percepção de que o clima não estava bem aconteceu no ano de 1859, com as observações de Jonh Tyndall (1820-1893) que descobriu que a concentração de certos gases na atmosfera poderia bloquear a radiação infravermelha o que, na prática, alteraria a temperatura média do planeta.
Desde o primeiro grande estudo de Tyndall em 1859, demonstrando cientificamente que a ação humana no planeta estava causando efeitos nefastos, a questão ambiental sempre preocupou a comunidade científica, no ano de 1896, outro estudo importante surgiu para corroborar a urgência das questões ambientais, dessa vez com um químico chamado Svante Arrhenius (1859-1927) que publicou um estudo onde levantou a hipótese de que a queima de combustíveis fósseis estaria potencializando o aquecimento global.
Mesmo com a preocupação cada vez mais sólida da comunidade científica sobre os efeitos nefastos no clima do planeta, causados pela interferência humana, a questão ambiental nunca conseguiu sair dos círculos acadêmicos e as ações políticas em prol da redução da emissão de gases sempre foram tímidas e ineficientes.
Muitos fatores ajudaram a obnubilar os problemas climáticos, questões geopolíticas, econômicas e até mesmo o antropocentrismo do paradigma cartesiano, que rege nossas ações desde a Modernidade, impediram que a população e os governos se engajassem na redução de poluentes.
No período que compreende os anos entre 1850 até o final da Segunda Guerra em 1945, entramos no que se convencionou chamar de Segunda Revolução Industrial, neste período temos o desenvolvimento da indústria química, de aço, elétrica e petróleo, navios movidos a vapor, desenvolvimento do avião e do automóvel, energia elétrica, produção em massa em linhas de montagem, enlatamento de comida, refrigeração, fertilizantes, pesticidas entre outros avanços.
Os progressos surgidos no período da Segunda Revolução Industrial e o constante crescimento populacional aumentam o consumo e nossa necessidade de produção de bens e serviços o que, por sua vez, aumentou a necessidade de exploração cada vez mais agressiva dos recursos naturais e a consequente elevação dos gases nocivos à atmosfera, além da produção cada vez maior de lixo, aumentando assim a poluição dos mares, ar atmosférico, solo etc.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 e o início da Guerra Fria em 1947 entramos em uma nova fase para as considerações climáticas.
O ano de 1957 é importante neste novo contexto, a antiga União Soviética inicia uma corrida espacial com o lançamento do Sputnik, o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra que tinha, entre outras funções, estudar as propriedades da superfície da Terra para futuras missões tripuladas, os EUA, por sua vez, lançaram uma série de satélites meteorológicos, a série Nimbus, o Nimbus III, que ficou em órbita de 1969 a 1972, forneceu medições abrangentes sobre a temperatura global, os satélites foram o primeiro passo para enxergar o planeta "de fora", com uma visão do planeta como um todo unificado.
Ainda no ano de 1957, preocupações com a Guerra Fria fazem a ONU angariar apoio para instaurar o primeiro Ano Internacional da Geofísica, uma iniciativa que tinha como intenção fomentar esforços para que ocorresse uma maior e melhor compreensão dos fenômenos relacionados à Terra, em outros termos, mobilizar, não somente a comunidade científica, mas também a sociedade civil, órgãos estatais e iniciativa privada para a compreensão mais aprofundada da dinâmica natural do planeta.
Esta iniciativa trouxe novos apoios financeiros para pesquisas sobre o clima e uma nova organização para as pesquisas voltadas para as mudanças climáticas.
Em 1960 o climatologista estadunidense Charles David Keeling (1928-2001) mede com precisão o CO2 na atmosfera terrestre, comprovando que há um aumento anual considerável Keeling constata, por meio de seus estudos, que a curva ascendente de emissões de dióxido de carbono na atmosfera se dão pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e pelo fato de que os oceanos não têm capacidade de absorver todo o CO2 emitido.
Outras pesquisas importantes vão surgir durante toda a década de 1960, em 1968 as atenções se voltam para as geleiras; estudos sugerem a possibilidade de colapso nas camadas de gelo da Antártida, o que elevaria o nível do mar.
Em 1969 outro evento histórico vai ter influência nas questões climáticas.
Se, com a corrida espacial iniciada no ano de 1957, começa a se ter uma tênue noção do planeta como um todo unificado, as imagens produzidas pela da chegada do ser humano a lua trazem novas perspectivas sobre o nosso planeta, as imagens televisivas mostrando o planeta como uma esfera azul, solta em um manto negro infinito, implementam no imaginário popular a ideia de que a Terra é um só planeta, sem divisas políticas e frágil.
A década de 1970 é marcada por um maior engajamento sobre as questões climáticas em vários estratos da sociedade, seja na sociedade civil, na comunidade internacional ou mesmo na área governamental, há um maior reconhecimento de que as questões ambientais são importantes e há ações concretas para implementar mudanças no trato com as questões ambientais.
Em 1970 é criada nos EUA a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (National Oceanic and Atmospheric Administration) uma instituição governamental ligada ao governo dos EUA cujo a função é monitorar e informar ao público em geral as mudanças climáticas, em 1971 nasce o Greenpeace, uma ONG com sede em Amsterdã e escritórios em mais de 55 países, em 1972 a ONU organiza a primeira grande reunião com chefes de estado para discutir questões ambientais na chamada Conferência de Estocolmo.
Em 1973 acontece uma crise petrolífera, conhecida como "primeiro choque do petróleo" causado por um embargo da Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (OPAEP) direcionado aos EUA e seus aliados, países que supostamente estariam ajudando Israel na guerra do Yom Kippur, em 1979 há outra crise petrolífera conhecida como a "segundo choque do petróleo" provocada pela diminuição da produção de petróleo após a Revolução Iraniana.
As crises petrolíferas que marcam a década de 1970 evidenciam que, apesar de haver uma maior consciência ambiental e esforços para a implementação de políticas voltadas à preservação ambiental em toda comunidade internacional há, na mesma proporção, uma insistente dependência de combustíveis fósseis e muitos interesses econômicos que vão se sobrepondo às questões ambientais.
A década de 1970 marca, portanto, uma disputa entre o aumento da consciência ambiental, com tentativas concretas de implementações de mudanças e o interesse econômico dado pela dependência de petróleo, principalmente nos países ricos.
Mesmo com relatórios cada vez mais contundentes da comunidade científica o lobby petrolífero exerce grande poder e influência nas esferas políticas, além disso, a ascensão ao poder de Margaret Thatcher em 1979 como Primeira Ministra da Inglaterra e Ronald Regam como Presidente dos EUA em 1981 reforçam um ideário neoliberal em todo mundo, aumentando o conservadorismo político, reduzindo as discussões ambientais aos ciclos científicos, diminuindo o interesse da sociedade civil e instaurando o ceticismo sobre as questões ambientais.
Apesar dos revés na década de 1980 os esforços dos cientistas para demonstrar a urgência das questões climáticas continuaram, em 1987 é assinado o Protocolo de Montreal da Convenção de Viena, um tratado internacional com a participação de 197 países impondo obrigações específicas para a progressiva redução da produção e do consumo de produtos que agridem a camada de ozônio.
Em 1988 a ONU cria o primeiro Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas o IPCC, cujo o primeiro relatório é publicado no ano de 1990, o IPCC não produz relatórios e sim organiza, compila e resume estudos de cientistas de todo o mundo e de diferentes matizes de pensamento, é importante salientar aqui a importância e a credibilidade do Relatório do IPCC, é praticamente um consenso na comunidade internacional que o Relatório do IPCC é a maior autoridade mundial em estudos sobre mudanças climáticas e aquecimento global, balizando políticas públicas climáticas em âmbito mundial e nacional.
Vale a pena citar a definição de "mudanças climáticas" para o IPCC:
O IPCC define mudança climática como uma variação estatisticamente significante em um parâmetro climático médio (incluindo sua variabilidade natural), que persiste num período extenso (tipicamente décadas ou por mais tempo). Em termos abstratos, a mudança climática pode ser causada por processos naturais e, realmente no passado da Terra, houve variações importantes no clima, como por exemplo, os períodos glaciais. Contudo, a mudança recente tem sua causa nas atividades humanas.
Fonte; Synthesis Report Summary for Policymakers: in IPCC Climate Change 2014.
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Em 1989 o lobby petrolífero reage aos ambientalistas; indústrias de combustíveis fósseis e outras indústrias dos EUA formam a Global Climate Coalition para dizer aos políticos e ao público que a ciência do clima é incerta demais e, por este motivo, as questões climáticas não devem ser levada tão a sério.
A década de 1990 marca um retorno às discussões sobre o clima, arrefecidos na década de 1980; em 1990 é publicado o Primeiro Relatório do IPCC, o relatório reforça que o aquecimento global é uma realidade e que é provável que aumente no futuro.
Em 1992 é realizado no Brasil a ECO-92, uma conferência de chefes de estados do mundo inteiro realizada no Rio de Janeiro, a segunda conferência do tipo ocorrida 20 anos depois da Conferência de Estocolmo realizada em 1972, a ECO-92 produziu resultados interessantes e propôs um novo olhar para o futuro em busca de um desenvolvimento mais sustentável e menos consumista, os EUA, que na época era governado por George W. Bush, argumentou que não iria submeter o avanço da economia americana aos sacrifícios necessários para a implementação das medidas.
Em 1995 temos o Segundo Relatório do IPCC onde é detectado uma "assinatura" do aquecimento e do efeito estufa causado pelo ser humano, o relatório aponta que o aquecimento será mais grave no próximo século.
Em 1997 é assinado o Protocolo de Quioto no Japão, com metas mais sérias para a redução da emissão de gases nocivos a camada de ozônio voltado principalmente para os países mais industrializados, George W. Bush não ratificou o tratado alegando que os compromissos acarretados por tal protocolo interfeririam negativamente na economia norte americana, somente em 2009 o então presidente Barack Obama encaminhou o Protocolo de Quioto para ser ratificado pelo Senado americano, se comprometendo assim com as metas estabelecidas.
Ao final da década de 1990 a questão climática era uma realidade tão consolidada, com efeitos tão evidentes, corroborados com dados concretos, fornecidos por décadas de pesquisas que, no ano de 2000, a Global Climate Coalition, a organização privada fundada no ano de 1987 por lobistas do setor petrolífero para desacreditar a opinião pública sobre as questões climáticas é desfeita, obviamente, o lobby petrolífero continuou a exercer influência política, mas a falência da GCC é sintomática no sentido de demonstrar que a questão climática é uma realidade inegável, mesmo para empresas poderosas do influente setor petrolífero.
A EMERGÊNCIA DAS QUESTÕES CLIMÁTICAS
O início dos anos 2000 marca uma nova fase para as questões climáticas, é neste período que a questão climática deixa de ser urgente para se tornar uma questão emergente, todas as previsões sobre os efeitos do clima no planeta, feito pela comunidade científica, deixam de ser projeções e passam a ser efeitos táteis, sentidos por todos os habitantes do planeta.
É na virada do século que começa a ocorrer eventos climáticos que escapam da previsibilidade, eventos cada vez mais catastróficos, além disso, há uma percepção geral de que os ciclos do clima estão desregulados.
Em 2001 é publicado o Terceiro Relatório do IPCC, este relatório afirma que há um aquecimento global sem precedentes na história humana desde o final da última era glacial.
Em 2003 é registrado uma onda de calor mortal no verão europeu.
Em 2005 temos furacão Katrina, o primeiro registrado no atlântico sul e, mesmo que não se possa fazer uma relação direta entre as mudanças climáticas e o surgimento dessa agressiva tempestade, foi este evento e outras grandes tempestades tropicais que estimularam o debate sobre impacto do aquecimento global e sobre a intensidade das tempestades.
Em 2007 temos o Quarto Relatória do IPCC, este relatório adverte que os efeitos do aquecimento global tornaram-se evidentes e o custo para a redução das emissões de carbono seriam menores do que os danos que causarão.
Em 2009 peritos do clima advertem que o aquecimento global está chegando a um ritmo mais rápido e mais perigoso do que o previsto há apenas alguns anos antes, sendo assim, a temperatura média global (média de cinco anos) é de 14,5°C, o mais quente em centenas e, provavelmente, milhares de anos, apenas um ano após essas pesquisas.
O ano de 2010, é registrado como o ano mais quente de toda a história (média planetária) e a década entre os anos de 2010 a 2019 foi a década mais quente já registrada desde de 1800.
Em 2012, novos estudos encontram evidências que as recentes ondas de calor, secas, extremos de precipitação e inundações foram agravadas pelo aquecimento global.
Em 2021 temos o Quinto Relatório do IPCC, este relatório é considerado o mais completo de todos, pois se utilizou de modelos teóricos aperfeiçoados que se aprofundam ainda mais em dados do relatório anterior e, juntamente com a importância e o prestígio que tem, converte-se em um considerável compilado de pesquisas fundamentado em solidez científica, abrangência e na influência na tomada de decisões.
O Relatório vem em tom de "ultimato"; ou, tomamos atitudes concretas para a redução dos gases tóxicos ou, de agora em diante, o planeta se tornará cada vez mais hostil a presença humana, o relatório é enfático ao afirmar que são as ações do ser humano no planeta que são o principal responsável pelas mudanças climáticas.
O relatório aponta também que o aquecimento global é "inequívoco", resultado direto das ações do ser humano, principalmente emissão de gases do efeito estufa; as últimas décadas são as mais quentes desde 1850; o nível do mar aumentou cerca de 19Cm entre 1901 e 2010 devido a expansão térmica dos mares; o regime de chuvas, correntes marinhas e o padrão dos ventos estão sendo alterados, aumentando a tendência de secas em certas partes do globo e enchentes em outras.
Outra importante conclusão do Relatório aponta que algumas mudanças provocadas pela ação humana são irreversíveis, ou seja, não podem mais ser revertidas ao ponto anterior, mesmo que haja uma ação voltada exclusivamente para isso, o aumento do nível dos mares, a extinção de biomas, a extinção de algumas especies de animais e plantas entre outras, são alguns exemplos dos resultados de nossa inconsequente ação no planeta que não têm mais volta.
O Quinto Relatório do IPCC é a prova documental que registra nosso atual status, que passa, definitivamente, da urgência para a emergência, trata-se de um copilado pesquisas sérias de cientistas de todas as partes do globo, de várias matizes políticas e ideológicas que corroboram o momento delicado que atravessamos; as mudanças climáticas estão aí! E a sociedade precisa despertar de vez para esta realidade, mesmo nos tempos obscurantistas que atravessamos.
Vamos então terminar nossa reflexão de hoje citando as ponderações de Paulo Artaxo, renomado cientista brasileiro, reconhecido mundialmente por seus trabalhos sobre as mudanças climáticas e um dos participantes do Quinto Relatório do IPCC:
O que estamos alterando não é o clima da próxima década ou até o fim deste século.
Existem várias publicações com simulações que mostram concentrações altas de gás carbônico até o ano 3000, pois os processos de remoção do gás carbônico atmosférico são muito lentos...
A humanidade nunca enfrentou um problema cuja a relevância chegasse perto das mudanças climática, que vai afetar absolutamente todos os seres vivos do planeta.
Não temos um sistema de governança global para implementar medidas de redução de emissões e verificação.
Por isso, vai demorar ainda pelo menos algumas décadas para que o problema comece a ser resolvido...
A consciência de que todos habitamos o mesmo barco é muito forte hoje, mas ainda não há mecanismos de governabilidade global para fazer esse barco andar na direção certa.
Isso terá que ser construído pela nossa geração.
...
Passamos da urgência para a emergência e, de agora em diante, não temos mais tempo para mesquinharias.
Ou, mudamos nossa forma de lidar com o planeta, enxergando todos os seres vivos como habitantes do mesmo planeta e merecedores de dignidade, abandonando de vez a visão antropocêntrica que balizou nossas atitudes até aqui ou, teremos uma morte lenta e dolorosa.









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