A HOMOSSEXUALIDADE TEM UMA CAUSA?
Preparados para o artigo desta semana?
Hoje estamos chegando ao fim de nossa série sobre a sexualidade humana, foram 4 textos abordando a sexualidade humana em diferentes aspectos.
Vamos recapitular nossa jornada até aqui?
Começamos lá no dia 10/09 com o texto O MACHISMO QUE NOS HABITA neste ensaio refletimos sobre a questão do machismo estrutural em nossas sociedades, como esta estrutura machista está encrustada em nosso tecido social ditando as funções de homens e mulheres, sendo relegado à mulher sempre um papel menor, de subserviência.
Nesse artigo verificamos que a estruturação machista tem raízes milenares, o que faz os preceitos machistas se misturarem com a tradição, dificultando o combate a este tipo de pensamento, também verificamos que no decorrer dos anos foi utilizada várias teorias deturpadas para corroborar uma suposta superioridade masculina;
por fim, refletimos sobre o lugar de fala e o papel do homem desconstruído nessa conjuntura machista e patriarcal, para ser uma peça fundamental na luta contra as injustiças do machismo e não uma das engrenagens deste sistema patriarcal.
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No dia 17/09 lançamos a parte 2 de nossas reflexões sobre a sexualidade humana, ponderando sobre os motivos que fazem do sexo um de nossos mais bem estruturados tabus, em nosso artigo POR QUE SEXO É TABU?
Nesse artigo nos aprofundamos no tabu, sua etimologia, sua influência nas sociedades modernas e sua ligação com a transcendência e a religiosidade humana, justamente o que dá força para que assuntos tabus ganhem muita resistência no debate público.
Tendo claro o que é um tabu, seguimos esmiuçando os motivos do sexo ser um dos tabus mais contundentes de nossas sociedades, mesmo sendo uma de nossas manifestações mais naturais.
Foi nesse artigo que observamos, mais uma vez, que o machismo e o patriarcado estão no cerne das barreiras que encontramos para discutir o sexo abertamente, principalmente quando tentamos abordar o sexo que está fora do suposto padrão heteronormativo.
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Na semana passada, no dia 24/09 publicamos a parte 3 de nossa série com o artigo NOS QUARTOS DE MOTÉIS, este foi um ensaio muito especial e provocativo, pois visa desconstruir certos preconceitos que uma parcela de nossa sociedade sofre por conta de suas escolhas e por conta de viver a sexualidade de uma forma não convencional.
Nesse ensaio falamos abertamente sobre as prostitutas, os problemas de suas escolhas, sua sexualidade desprendia e sobre os tabus e preconceitos que essas meninas enfrentam em uma sociedade que vê o sexo como uma coisa da qual não se pode sequer falar abertamente.
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Hoje, estamos chegando ao fim de nossa série com nosso texto 4.
Hoje é dia de falar sobre uma manifestação da sexualidade humana que, assim como as outras que vimos no decorrer das semanas, também está envolto em tabus, preconceitos, desinformação e, assim como as outras manifestações, também sofre com o machismo estrutural e o patriarcado de nossas sociedades e desafia o suposto padrão heteronormativo e, por conta disso, sofre todas as consequências.
Hoje é dia de nos debruçarmos sobre a homossexualidade, uma das manifestações da sexualidade humana que mais intriga as pessoas.
Como estamos verificando nas últimas semanas a sexualidade humana não pode ser posta sob um padrão somente, a sexualidade humana não é algo que possa ser pré determinada, assim sendo, para que a pessoas descubra a sua sexualidade latente ela deve ter a liberdade para "experimentar" os desejos que o seu corpo expressa.
O problema passa a ser quando a sociedade, por meio de seus instrumentos de coerção, tenta "represar" os desejos que não se enquadram em um suposto "padrão sexual aceitável", desta feita, temos indivíduos confusos sobre a sua própria sexualidade que carregam muitas vezes culpas e neuroses por não conseguirem se adaptar, tentando se encaixar em padrões que não são os delas.
No artigo de hoje vamos refletir um pouco sobre toda esta conjuntura que tenta empurrar para a heteronormatividade os membros de nossas sociedades, imputando nos "desajustados" uma culpa que pode transformar membros sadios em pessoas doentes simplesmente por não se enquadrarem em padrões pré estabelecidos que regem a sua intimidade.
Para nos ajudar neste empreendimento complexo vamos nos valer das considerações de Michael Foucault, Sigmund Freud além de várias pesquisas e artigos sobre o tema.
Então, vamos mergulhar de vez em mais esta faceta da sexualidade humana, na busca pela desconstrução dos preconceitos que sufocam nosso desenvolvimento humano.
Desejamos para você uma Boa leitura e boa reflexão!!!
Questionar é um ato humano, demasiado humano, afinal, nada mais natural ao ser humano do que questionar, perguntar, indagar e querer saber o porquê das coisas.
Sendo a curiosidade uma característica assim tão humana, seria natural que esta curiosidade abrangesse nossa sexualidade e, se aprofundando cada vez mais nessa curiosidade que nos constitui, chegaríamos certamente às dúvidas sobre a homoafetividade.
E, quando falamos de sexualidade humana, devemos levar em consideração que ela parte do indivíduo, ou seja, de alguma forma, por meio de seus desejos, experiências e experimentações o indivíduo será capaz de definir qual é a sua sexualidade latente.
É um ato de um questionamento que ganha muito em importância quando, o próprio indivíduo, numa atitude auto reflexiva, põe a si mesmo como questão, partindo de si, como o objeto de seu questionamento pode, enfim, surgir um questionamento autêntico e alcançar a mais natural das perguntas:
Por que existem homossexuais?
Ou, Por que tenho interesses eróticos em pessoas do mesmo
sexo?
...
Você encontrará as mais variadas respostas para
estes questionamentos;
explicações religiosas, esotéricas, comportamentais,
psicológicas, enfim ...
A maioria dessas explicações são de uma “simplicidade
ingênua”, se concentram mais na busca por respostas e respaldo do que na
sexualidade mesma.
Quando tocamos em temas complexos da humanidade, como a sexualidade humana, vale a pena evitar a opinião pessoal pura e simples e procurar um embasamento em pensadores que se debruçaram sobre estas questões com método, isenção e rigor.
Michael Foucault tem literatura sobre a sexualidade, sua obra A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE que, juntamente com DITOS E ESCRITOS, constituem obras que abrangem as questões da sexualidade humana, com destaque para a questão da homoafetividade, são essas obras e este pensador que vão nos guiar em nossas reflexões de hoje.
Foucault critica alguns pontos do movimento de liberdade gay, mas é preciso muita cautela na interpretação desta crítica, pois é muito
comum, em um tema complexo por si só, a interpretação enviesada do autor.
Foucault era, em sua vida pessoal, de orientação homossexual
e sua crítica dirige-se não a afirmação do desejo homoerótico, mas sim a
justificação de tal desejo a partir de fundamentos biológicos e naturalistas,
ou seja, a identidade biologicamente determinada - como estamos vendo nas últimas semanas, o determinismo biológico é um dos maiores problemas das questões sexuais, pois sempre se tenta justificar preconceitos e comportamentos machistas por meio de pretextos biológicos, desconsiderando a cultura humana.
Em 1982, em uma entrevista realizada em Toronto, no Canadá,
dirá sobre a recorrente má interpretação de seus textos:
- Em minha opinião, o
movimento homossexual hoje precisa mais de uma arte de viver do que de uma
ciência ou um conhecimento científico, ou pseudocientífico, daquilo que é a
homossexualidade.
...
Os homossexuais de nossa contemporaneidade, envolvidos pelo
espírito cientificista de nossa época, muitas vezes, gastam mais tempo e
energia justificando seus desejos do
que vivendo os mesmos.
A busca pela justificação do desejo homoafetivo é uma
constante em nossas sociedades.
Nesta busca irracional por uma justificação é comum cairmos
em um determinismo biológico, ou seja, busca-se o “convencimento” da sociedade
da naturalidade da homossexualidade.
Ora, que a homoafetividade é algo natural, posto que, sem
nenhuma dificuldade encontraremos inúmeros exemplos de comportamento homoafetivo
na natureza, isso é óbvio!
O problema passa a ser a justificação única como causa do homoafetividade.
Note o leitor que, no caso da homossexualidade, a justificação biológica vai servir tanto para afirmar a naturalidade da homossexualidade quanto para as correntes homofóbicas.
Ou seja, para as correntes pró homossexualidade, que tentam justificar sua demanda por meio da biologia tenta-se o convencimento da "naturalidade" da homo afetividade, afinal, não teremos dificuldade em encontrar na natureza exemplos de relações homo entre animais.
No entanto, as correntes contra homoafetividade se utilizam justamente de uma argumentação biológica para propagar seus preconceitos, pois, sendo a homossexualidade uma característica biológica dos indivíduos, poderia-se, em última instância, identificar essa característica e tratá-la.
Estes pensamentos homofóbicos se aproveitam da explicação naturalista da homossexualidade para arguir sobre uma disposição natural em certos indivíduos que apresentariam condições naturais (defeitos naturais), como, por exemplo, uma miopia, diabetes, arritmias entre outros defeitos naturais.
Esses supostos defeitos poderiam ser “corrigidos”, assim, a homossexualidade seria um “defeito
natural” apresentados por alguns membros, um defeito que poderia ser "corrigido" por um método (pseudo) cientifico qualquer.
Um absurdo, obviamente!
O reducionismo biológico, tanto para justificar quanto para criticar os fenômenos homo afetivos, fazem parte da "causa única", uma forma rasa, superficial e simplista que visa definir de forma definitiva o porquê de certos indivíduos manifestarem desejos pelo mesmo sexo, trata-se de uma falácia, muito utilizada até os dias atuais.
Foucault vai criticar severamente a falácia da “causa única”,
seja ela psicológica, física, naturalista biológica etc.
É digno de nota que também Freud, era avesso a esta falácia,
mesmo que encontremos inúmeros pontos de discordância entre estes dois
pensadores.
Sobre isso dirá Freud em TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE:
- Nem a hipótese de que a inversão é inata, nem tampouco a conjectura alternativa de que é adquirida explicam a sua natureza.
No primeiro caso, é preciso dizer o que há nela de inato, para que não se concorde com a explicação rudimentar de que a pessoa traz consigo, em caráter inato, o vínculo da pulsão sexual com determinado objeto sexual.
No outro caso, cabe perguntar se as múltiplas influências acidentais bastariam para explicar a aquisição da inversão, sem necessidade de que algo no indivíduo fosse ao encontro delas.
A negação deste último fator, segundo nossas colocações anteriores, é inadmissível.
...
Fica claro na passagem acima que, embora esteja engajado na
busca por uma causa da homoafetividade não basta defini-la com uma causa única,
ou seja, para Freud e para Foucault, dois homossexuais não desejariam o mesmo
sexo pelos mesmos motivos.
Em nossas sociedades é muito comum associar um desejo com
uma identidade e, neste hábito, somos facilmente conduzidos para interpretações
equivocadas que supõem que existam comportamentos comuns a certos tipos de
pessoas, assim, cria-se uma “essência” homossexual, esta dita “essência”
homossexual só nos leva para a confusão e para a ambiguidade, pois pode-se
conceber tanto uma essência supostamente boa, do tipo:
“homossexuais são mais sensíveis do que os héteros.”
Quanto ruim;
“homossexuais são promíscuos”.
Ambas prejudiciais, mentirosas e equivocadas.
Qualquer pensamento simplista, que nos guie rumo a uma concepção de “essência homossexual” e que supõem que todos os indivíduos daquele grupo agem de forma determinada é problemático, pois, sugere que todos os desejantes do mesmo sexo são parte de um subconjunto que serve de modelo.
O que observamos, principalmente em nossa contemporaneidade é que a busca por uma identidade a qualquer custo está fazendo as pessoas deixarem
a vivência fática de sua sexualidade em busca de um lugar de fala, em outros termos, vai se massificado a identidade Gay numa
identidade tal que possa ser identificada por si só, assim vai ser comprimindo
as identidades singulares.
Um bom exemplo para ilustrar o que dizemos aqui é convocar o
leitor a reparar a cobrança tácita que é efetuada em nossas sociedades ao se “intimarem”
as pessoas a assumirem sua sexualidade de forma pública.
Intimam-se as pessoas a “saírem do armário” como uma obrigatoriedade
ideológica.
O homem Gay que não se assume publicamente é tido como um
mentiroso, covarde e anti-gay, pois, o seu posicionamento deve ser colocado a
serviço de uma militância ideológica.
Sob essas e outras pressões vindas de nossas sociedades o
sujeito pode construir sobre si um ideal que não é verdadeiro, mas sim
produzido, ou seja, sob as pressões sociais a imagem que o sujeito tem de si pode
estar veiculado a uma ideologia que dissolve os reais desejos em um conjunto de
conceitos universalizantes, vai desaparecendo a singularidade;
O sujeito continuará sendo um homossexual, posto que seu
desejo continuará de forma latente, mas a sua homossexualidade se encontrará submersa
em incontáveis camadas que ajustam as pessoas em um todo pré estabelecido, uma
identidade construída, por assim dizer, e não autêntica.
Foucault vai apontar que a homossexualidade, como categoria
que distingue determinados indivíduos, tem data de nascimento:
Trata-se do ano de 1870 com o artigo de Carl Westphal (1833-1890), o nome do artigo é DAS SENSAÇÕES CONTRÁRIAS
Depois da publicação desse artigo deixa-se de ter um sujeito
que tenha praticado atos homossexuais e passa-se a ter um homossexual
substantivado, ou seja, uma classe de indivíduos, uma categoria de indivíduos a
qual classificamos como “homossexuais”.
Antes destas postulações, um indivíduo que praticasse atos homoafetivos
era apenas um sujeito que praticou atos homoafetivos, não pertencia a nenhuma subclasse
de indivíduos;
O sujeito não era algo, ele tinha feito algo.
A partir dessa classificação vai mudando a nossa relação com
os indivíduos que se relacionam com o mesmo sexo;
e não mudou para melhor, importante destacar.
Seria uma obviedade dizer que relações entre pessoas do
mesmo sexo ocorrem desde sempre na história, existe um farto material com registros
na Grécia antiga, por exemplo, mas, foi somente no século XIX, paradoxalmente,
uma era de fortíssimo orgulho pela ciência, que a homossexualidade entrou para
o Catálogo Internacional de Doenças (CID), só saindo na década de 1990, quando deixou
de ser considerada uma patologia.
Pense nisso...
O que aconteceu em 1870 foi o surgimento do conceito moderno
de “homossexual”, carregado de preconceitos e ciência deturpada, além de uma
carga histórica negativa, por assim dizer.
Foucault vai salientar que o homossexual é construído, não
possui uma causa única ou uma essência que o defina como homossexual.
O que ocorre, segundo Foucault, é que desde 1870 ao se
descobrir homossexual o sujeito se percebe como um subproduto humano e esta é um
estigma que afeta profundamente a psique do indivíduo, pois ele se percebe como
um objeto de um estudo científico e não com autonomia sexual;
não é ele que diz de si mesmo, de sua sexualidade, mas sim
um outro, investido de certa autoridade;
um cientista, um
padre, um pastor, os pais, a sociedade, entre outros.
O século XX é marcante para os homossexuais, pois reforça inúmeros
preconceitos, foi neste período que entra em voga a família burguesa, a classe
média e a padronização da família, dita, tradicional;
- pai, mãe e crianças
–.
Neste paradigma, o homossexual é encarado como uma “espécie”
ameaçadora da família tradicional.
No final do século IXI e início do século XX, com a
psiqueatrização da homossexualidade, reforça-se o preconceito de que tudo no
homossexual se resume a sexo, assim sendo, sua identidade se constitui sobre
este engodo, sobre isso dirá Foucault:
- o homossexual do
século IXI torna-se um personagem:
Um passado, uma
história, uma infância, um caráter, uma forma de vida;
também é morfologia,
com uma anatomia indiscreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa.
Nada daquilo que ele
é, no fim das contas, escapa a sua sexualidade.
Ela está presente nele
o tempo todo:
subjacente a todas as
suas condutas, já que ele é o princípio insidioso e infinitamente ativo dos
mesmos;
inscrita sem pudor na
sua face e no seu corpo já que é um segredo que se trai sempre.
É lhe é consubstancial,
não tanto como pecado habitual, porem como, natureza singular.
...
Esta é a imagem atual, moderna, do homossexual;
a de que tudo nele é sexual, tudo incide em uma esfera
sexual de sua humanidade;
as explosões discursivas do século IXI e XX provocaram um
movimento centrífugo para monogamia heterossexual, reforçou-se o paradigma da
heteronormatividade, o sexo foi esmiuçado em cada mínimo detalhe;
suas condutas, seus sonhos (por meio da psicanálise), sua
infância.
O sexo tornou-se chave para a individualidade.
Mas, que individualidade é esta?
A homossexualidade sempre foi, desde o século IXI, passando
pelo século XX até os dias atuais, um termo carregado de estereótipos e
implicações médicas, legais e psicológicas.
Algumas conquistam vieram na década 1960, é verdade, com
toda liberdade sexual que aconteceu na época, mas os avanços vêm como uma onda avassaladora, se arrefecem com o passar dos anos e, invariavelmente, se vão.
Somente o preconceito é uma constante.
Se existe uma lição que podemos tirar de nossa breve
especulação e de nossos diálogos com Foucault é que a questão de gênero é muito
mais do que identidades sexuais pré estabelecidas.
Ou seja, somos muito mais do que simplesmente nossas
preferências sexuais.
Muito mais mesmo!
Não deixa de ser curioso que nossos desejos sexuais, sejam eles "héteros" ou "gays", tenham mais importância para nossos pares e nos definam mais do que preferir cerveja a suco.
Quem sabe, um dia consigamos formar uma sociedade onde
nossas preferências sexuais não importem mais do que a cor de nossos olhos, e a
amizade entre as pessoas vire uma realidade posta acima das preferências, onde as diferenças, mesmo que não completamente compreendidas, sejam respeitadas.
Sob este otimista prisma, o arco iris deixa de ser unicamente o símbolo da sexualidade humana e passa a ser aquilo que vem depois das tempestades, um verdadeiro sinal de aliança e coexistência respeitosa entre as pessoas e suas diferenças, sexuais ou não.









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