O ENFERMEIRO DA NOITE - IMPRESSÕES
Olá Escritores !!
Preparados para o artigo desta semana ??
Estamos em plena Copa do Mundo FIFA Catar 2022 e, certamente, vamos colocar aquele nosso olhar crítico neste grande evento muito em breve, enquanto isso, no artigo de hoje, vamos refletir sobre um lançamento da Netflix que chamou muito a atenção; tanto pela qualidade técnica quanto pela história, que é real e perturbadora.
Hoje é dia de analisar criticamente um filme que nos convida a refletir profundamente sobre várias facetas de nossa "condição humana"; amizade, culpa, arrependimentos, crime, violência, negligência entre outras camadas da "essência humana" estão neste filme.
Hoje vamos dar as nossas IMPRESSÕES sobre o filme O ENFERMEIRO DA NOITE (The Good Nurse), um thriller, baseado em fatos reais sobre mais um serial killer produzido pela problemática sociedade americana.
Logo depois do lançamento de Enfermeiro da Noite, ainda no ano de 2022, a Netflix lançou um documentário sobre o caso de Charles Cullem chamado EM BUSCA DO ENFERMEIRO DA NOITE (Capturing The Killer Nurse) esse documentário é uma ótima pedida para quem quiser se aprofundar nos acontecimentos relatados no filme, ele traz entrevistas, pontos de vistas, imagens reais e muito material extra sobre os acontecimentos narrados no filme, muita da informação que você vai ler em nosso artigo de hoje vem deste documentário, se você gostou do filme vale a pena incrementar as suas informações com este documentário.
A Netflix, vez ou outra, surpreende com obras de grande teor crítico, aqui em nosso espaço temos um artigo sobre uma dessas obras diferenciadas com o artigo NÃO OLHE PARA CIMA - IMPRESSÕES, publicado em 8/1/2022, neste artigo falamos sobre o filme Não Olhe Para Cima, um filme que chamou muita atenção da crítica e do público, isso porque retratou com maestria e muita sátira a época distópica que vivemos.
Hoje, vamos falar sobre outra obra que nos remete à uma profunda reflexão sobre nossa sociedade, uma sociedade regida por preceitos mercadológicos em tudo, inclusive na saúde, onde a primazia deveria ser dado à vida humana prioritariamente, muitas vezes, deixada em segundo plano em detrimento de lucros para grandes conglomerados corporativistas.
O filme expõe problemas bem "americanizados", retratando as dificuldades das pessoas com o sistema de saúde privado americano e seus conglomerados que, em nome do lucro, optam em deixar um assassino em potencial livre por receio de perder mercados, no entanto, podemos estender esta crítica a toda a sociedade ocidental que tem no lucro e nas relações mercadológicas o seu mote principal.
Assim sendo, esta história escabrosa, que aconteceu nos EUA, encontraria condições para acontecer em qualquer país do ocidente, afinal, todos nós seguimos a lógica capitalista de lucro absoluto sobre qualquer outro tipo de consideração, além disso, toda a sociedade ocidental é refém do lobby farmacêutico.
De qualquer foma, não deixa de ser sintomático e simbólico que esse caso estupefaciente tenha ocorrido nos EUA, expondo para o mundo a problemática de um sistema de saúde privado, as falhas da justiça americana e a chamativa quantidade de assassinos em série produzida pela sociedade americana.
O Enfermeiro da Noite incomoda porque é real, uma história angustiante de um assassino que poderia ter sido impedido se nossas sociedades não fossem regidas pelo lucro absoluto.
Para contar esta história tão delicada o diretor dinamarquês Tobias Lindholm usou uma paleta de cores fria em sua fotografia, retratando bem o clima de uma unidade de saúde intensiva em uma narrativa que busca mergulhar o telespectador nesta atmosfera fria de hospital.
As atuações do elenco estão bem imersivas, principalmente na dupla principal, Jessica Chastain e Eddie Redmayne interpretando Ann Ridgway e Charlie Cullem, muito inspirados em suas interpretações.
Mas o filme não foi uma unanimidade, houve também muita crítica negativa sobre o filme, muita gente achou a fotografia "fria" e a narrativa "lenta", mas, para nós, o grande mérito deste filme foi nos apresentar uma situação que foi real, nos convidando a refletir sobre o tipo de sociedade em que vivemos e as várias facetas das relações humanas e, nestes termos, as escolhas do diretor e de sua equipe em achar o tom para contar esta história, ao meu ver, foram acertadas.
De qualquer forma, se você não assistiu ao filme dê uma chance e tire as suas próprias conclusões e, a partir de agora, você está entrando em zona de !!!SPOILERS!!! então caso não tenha assistido ao filme pare por aqui e volte mais tarde ou, continue por sua conta e risco, no mais, só podemos desejar para você uma;
Boa Leitura!!
"Baseado em uma perturbadora história real "
Quando começou a subir os créditos finais em O ENFERMEIRO DA NOITE (EdN) minha cabeça começou a fervilhar de tantas reflexões que esta história me trouxe, este filme nos apresentou uma situação absurda, difícil de acreditar e estupefaciente, justamente o espírito que o slogam do filme conseguiu capturar, de fato, estamos falando de uma história perturbadora, em diferentes níveis;
A história de EdN incomoda porque traz várias questões relativas aos relacionamentos humanos; culpa, violência, amizade, mentira, traição entre outras características e traz também reflexões sobre as instituições que, muitas vezes, fazem escolhas eticamente duvidosas.
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Contando rapidamente a premissa do filme, trata-se de uma mulher, Ann Ridgways - interpretada por Jessica Chastain - enfermeira de uma unidade de tratamento intensivo, sobrecarregada pelo trabalho e com uma condição cardíaca delicada e complexa, a cardiomiopatia, trabalhando nestas circunstâncias e escondendo a sua condição de saúde de seus superiores ela acaba por receber a ajuda de um colega de trabalho, Charles Cullen - interpretado por Eddie Redmayne - um enfermeiro prestativo, agradável e gentil.
Com o passar do tempo, Ann vai descobrir que a tragédia segue Charlles onde quer que ele vá, tudo começa com a misteriosa morte de Ana Martinez, uma paciente idosa que havia sido tratada por Ann e Charlie que morre sem nenhuma causa aparente, 1 semana depois dessa morte, o hospital abre um sindicância interna e chama a polícia para uma investigação.
No entanto, logo no início das investigações, o conselho do hospital, liderado pela gerente de risco Linda Garran, miniminizam os riscos e começam a dificultar o trabalho dos detetives de todas as formas imagináveis, os detetives Danny Baldwin e Tim Braun descobrem que o hospital só relatou o ocorrido com a Sra Martinez 1 semana depois do ocorrido e o corpo havia sido cremado o que impossibilitaria uma autopsia.
Logo os detetives desconfiam de Charles e descobrem que ele havia se envolvido em outras mortes em circunstâncias misteriosas no passado e que havia sido condenado por acusações menores em 1995, conversando com Ann os detetives descobrem, no prontuário de Martinez, que havia sido administrado insulina no soro dela, mesmo que ela não fosse diabética.
Os detetives questionam Ann sobre a personalidade de Charlie, mas ela o defende, afinal, até este ponto, Ann considerava Charles um colega muito prestativo e gentil e fora de qualquer suspeita.
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É com esta premissa que EdN nos entrega um filme frio e sombrio, relatando o cotidiano de uma equipe de enfermeiros em uma unidade para pacientes graves, o filme conta essa história se utilizando de uma narrativa que tem a clara intenção de fugir dos clichês dos filmes de suspense hollywoodianos, isso quer dizer que o ritmo do filme é lento, mas veja bem, lento não quer dizer "chato" ou "arrastado", na verdade, a opção do diretor Tobias Lindholm é que o seu telespectador sinta na pele a tensão de uma unidade para pacientes graves.
Somos apresentados à essa tensão logo nos primeiros minutos do filme, desde a cena inicial que mostra um procedimento de ressuscitação com Charles por perto, desde o princípio do filme somos inseridos no mundo dos enfermeiros dessas unidades, com seus corredores frios, luz azulada e com um clima onde o espectro da morte está sempre presente.
A proposta que o diretor Lindhol nos trouxe em EdN nos propõe novas experiências que vão além da tensão e ação permanentes, quando entendemos do que se trata esta nova proposta o filme cumpre muito bem ao que ele se propôs fazer, além disso, apesar de seu ritmo mais lento e fotografia gélida o filme tem momentos de muita tensão, que prendem o telespectador na cadeira, principalmente quando lembramos que a história é real, ou seja, aquelas situações incômodas, perigosas e tensas aconteceram de verdade!
A tensão do filme aumenta quando Ann descobre que Charlie tinha como modos operandi furar os sacos de soro com insulina ou digoxina matando suas vítimas lentamente em horas ou dias, os enfermeiro(as), seguindo suas rotinas não sabiam que estavam levando sacos de soro contaminados para os pacientes.
Os detetives já tinham certeza da culpa de Charlie, mas não conseguiam provar nada porque todos os hospitais que Charlie trabalhou escondiam informações e evitavam colaborar para evitar escândalos, a perda de investimentos e clientes/pacientes.
Com esta dificuldade posta Ann se ofereceu para ajudar a polícia a conseguir uma confissão de Charlie, lembrando que, além da tensão da situação de se envolver na caça de um assassino perigoso como Cullem, Ann sofria de uma condição cardíaca delicadíssima com crises de falta de ar, fadiga extrema e, algumas vezes, até desmaios, neste ponto, vale a pena destacar a atuação de Chastain, quando ela interpreta as crises de Ann a gente sente a angústia real dela e temos a nítida impressão de que Ann vai morrer a qualquer momento.
É interessante também perceber a ambiguidade dos sentimentos, tanto de Ann em relação a Charlie quanto de Charlie em relação a Ann; isso porque Ann diz que, apesar de Charlie ser um "amor de pessoa" em seu trato com ela Ann sabe o que Charlie fez e não pode simplesmente ignorar, mesmo assim, ao ajudar a polícia, ela diz que tem uma sensação estranha que não sabe explicar, uma sensação de estar traindo um amigo.
já pela parte de Charlie, pensamos como pode ser possível que uma pessoa tão fria e cruel quando se trata de matar outras pessoas possa nutrir uma amizade tão verdadeira em relação a Ann, obviamente que a mente de uma serial killer não é terra que se ande, mas, o fato, é que Charlie teve várias chances de matar Ann e não o fez, além disso, foi pela confiança que ele tinha por Ann e somente por isso que Charlie acabou cedendo e confessando seus crimes para a polícia, à sua maneira torpe de ser, Charlie considerava Ann uma pessoa especial para ele, foi esta complexa relação entre Ann e Charlie que pôs fim a carreira de crimes desse assassino em série.
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Outras reflexões que o filme nos traz é como pode um sistema de saúde permitir que um sujeito com o perfil de Charles Cullem trabalhasse em dezenas de hospitais em 16 anos sem que tenha sido impedido, tudo em nome de lucros e perdas de capitais já que, como sabemos, o sistema de saúde americano é privado, isso fica evidenciado também quando vemos Ann tendo que trabalhar por alguns meses para conseguir o seguro de saúde social, mesmo no estado de saúde delicado em que ela estava.
O filme destaca bastante o sistema de saúde americano e toda a sua problemática ao mostrar que, mesmo nas condições de saúde delicadas em que Ann estava, ela era obrigada a trabalhar, escondendo a sua condição de seus superiores e também expõe suas falhas ao verificarmos um sistema que permitiu que um sujeito com as características de Cullem passasse por tantos hospitais sem nunca ser impedido.
No final do filme, quando Ann consegue que Charlie confesse seus crimes ela pergunta para ele:
- Por que você fez isso?
E Charlie responde:
- Porque ninguém me parou.
O filme termina com um letreiro explicando que Charlie confessou cerca de 40 assassinatos em 16 anos de carreira como enfermeiro, na verdade, um acordo que Charlie fez para escapar da pena de morte, especialistas indicam que suas vítimas podem chegar a mais de 400 vítimas ...
E Ann passou por um transplante de coração e hoje vive com suas filhas, ela continua a ser uma dedicada enfermeira.
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Charles Cullen nasceu no ano de 1960 e tentou seu primeiro suicídio aos 9 anos, ingerindo produtos químicos, voltaria a tentar o suicídio várias vezes no decorrer de sua vida.
Descreveu a sua infância como "infeliz", perdeu o pai quando era muito novo e a mãe em uma acidente de carro dirigido pela irmã no ano de 1977.
Chegou a servir na Marinha onde foi dispensado por "instabilidade emocional", depois de ser dispensado da marinha se formou como enfermeiro no ano de 1987 e fez a sua primeira vítima em 1988.
Passou por 9 hospitais cometendo vários crimes até parar no hospital Somerset Medical Center em Somerville, onde, em 13 meses matou 13 pessoas - os acontecimentos narrados no filme.
Foi preso no ano de 2003 e julgado em 2006, condenado a 11 penas de prisão perpétuas, se livrando assim da pena de morte por colaborar com a polícia, esclarecendo os seus próprios casos cometidos em 16 anos de atividades, muitas de suas vítimas Charlie nem lembrava os nomes.
Cumpre pena na Prisão Estadual de Nova Jersey, em Trento.
Depois que os fatos do Caso Cullem vieram a público, expondo as falhas do sistema americano, Nova Jersey e mais 35 estados adotaram novas leis que incentivavam os empregadores a dar avaliações honestas do desempenho de trabalho dos funcionários dos hospitais, evitando assim a falta de requisitos para detectar comportamentos suspeitos por profissionais da área da saúde e a proteção inadequada para os seus empregadores.
E aí, é ou não é uma história perturbadora?
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E aí, gostaram de nosso artigo desta semana?
A história apresentada por Enfermeiro da Noite é perturbadora em diferentes níveis; expõe tanto nossas relações interpessoais quanto nossas relações institucionais.
Quem sabe, se a humanidade estivesse em outro patamar civilizacional, onde, o dinheiro não fosse posto em um status tão central Charlie Cullem não seria impedido logo em seus primeiros crimes?
Fica no ar esta reflexão.
Outra coisa que devemos pensar é em como a nossa sociedade ocidental está cada vez mais doentia, a quantidade de violência que observamos não são casos isolados de indivíduos que simplesmente escolheram cometer atos de violência por uma falha de caráter, são na verdade frutos que nossas sociedades produzem, temos que exercitar um novo olhar sobre esses fenômenos e reconhecer a nossa culpa, como sociedade.
Sempre nos chamou a atenção a quantidade de assassinos em série que a sociedade americana produz, mas, obviamente, este problema não é uma exclusividade dos americanos, toda a sociedade ocidental apresenta este drama, mesmo que em números menores, quando comparada aos casos no EUA.
O fato é que este comportamento violento reflete pressões que nosso estilo de vida vai imprimindo nos indivíduos, com este comportamento cada vez mais competitivo, onde, somos levados a tratar nossos semelhantes como potenciais inimigos, vez ou outra, alguém de constituição psicológica mais fraca apela para métodos violentos, aí explodem os casos de violência gratuita.
A sociedade americana é o supra sumo dos valores que estamos elencando aqui e, não é coincidência que estes valores, aliados à cultura de guerra e ao acesso facilitado de armas de fogo do estilo de vida americano, faça dos EUA o país com os maiores índices de assassinos em série e episódios de violência, altos demais para um país desenvolvido como os EUA.
Mas vale a pena dizer, mais uma vez, que a violência é um problema de toda a sociedade ocidental e, enquanto terminava este artigo, explodiu mais um caso de violência sem sentido bem aqui no Brasil e ainda mais perto, no Espírito Santo, na localidade de Aracruz, norte do estado.
O fato aconteceu há poucas horas de hoje, dia 25/11/2022; um homem invadiu 2 escolas matando 3 pessoas e ferindo mais de 15.
Tudo é muito recente e as informações são desencontradas, mas é sintomático que esta infeliz coincidência aconteça justamente enquanto tratamos de um caso de violência, vindo de um sujeito desajustado de nossas doentias sociedades.
São fatos que nos instigam a refletir bastante sobre o tipo de sociedades que estamos formando, afinal, ao que parece o atirador é um jovem de 16 anos, ex aluno da escola que tinha como alvo os professores;
há várias camadas aí que envolvem o nosso fracasso ético em elencar os valores que guiam nossas sociedades e, quando toda esta violência explode, ao invés de fomentamos um debate aprofundado sobre os motivos de tamanha violência o que observamos são os vários pedidos de mais repressão da polícia, o que na prática significa dizer; mais violência para combater a violência.
Ao meu ver, repressão policial como única resposta para episódios de violência não resolve o problema, muito pelo contrário, piora a situação.
Além da repressão policial o que estamos precisando mesmo fazer, como sociedade organizada, é uma verdadeira revolução no que tange nossos valores como sociedades e, dentro do escopo que tange esta revolução, alguns detentores de privilégios precisam abrir mão de regalias, mas esta é uma discussão complexa para um outro artigo...
Enfim, tanto o caso retratado no filme, quanto o caso que acabou de acontecer aqui no Espírito Santo, só nos demonstram que precisamos rever valores que hoje são considerados cânones em nossas sociedades ocidentais; consumismo, competitividade, individualismo, indiferença, fé cega na tecnologia entre outros, são valores que, definitivamente, precisamos rever.
Em nome de uma sociedade mais justa.
...
Esperamos que vocês tenham gostado de nosso artigo de hoje e semana que vem estamos de volta, contando com a sua companhia.
Até semana que vem e cuidem-se!!









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