O POPULISMO E A PARUSIA POLÍTICA NA AMÉRICA LATINA

Olá Escritores!! 


Preparados para o artigo desta semana ??


Hoje, vamos falar sobre o populismo; como ele se constitui em nossa estrutura política e identidade latina, assim como, a parusia política que, como veremos em breve, trata-se de uma perene espera por um indivíduo que resolva nossos problemas.


O populismo e a parusia política são 2 das mais marcantes peculiaridades da América Latina, marcas que precisamos saber identificar na busca por um melhoramento como nações que tiveram suas histórias interrompidas, uma reflexão importante no contexto do mundo atual, no qual, está em curso consideráveis rearranjos geopolíticos.  


Apesar de nosso artigo de hoje falar da América Latina como um todo, com as singularidades de toda a região e não somente do Brasil, podemos considerar o texto de hoje como mais um passo rumo a nossa identidade nacional, que visa um aprofundamento na busca por nossa identidade como nação, pois, nunca é demais lembrar que, qualquer análise séria sobre nosso país, deve considerar um contexto mundial e, quanto mais próximo focarmos nossa lupa histórica em nosso país, mais devemos considerar a história de nossos vizinhos. 


Afinal, como já diesemos aqui em nosso espaço, trata-se de um erro repetido nas análises sobre nosso país a deliberada ignorada que se dá no contexto latino, ou seja, faz-se um exame sobre o Brasil sem nunca considerar o desenvolvimento de nossos vizinhos, de costas para a América Latina, mas sempre de frente para os EUA e/ou para a Europa.  


O texto de hoje conversa muito bem com o artigo A BUSCA PELA IDENTIDADE NACIONAL, publicado em 26/03/2022 neste artigo discorremos sobre algumas características de nosso povo que constituem o nosso jeito particular de ver o mundo, neste artigo nos dedicamos exclusivamente à uma análise do Brasil;



Em nosso artigo de hoje vamos abordar o tema populismo, como esta prática se alojou em nossa política e como ela está sendo usada descaradamente pelo governo atual em sua sanha por poder sem limites e sobre a parusia política, a espera pelo "super político", a figura individual que se alimenta, justamente, do populismo.


Então, vamos partir para mais esta reflexão importante sobre nós mesmos, na busca pela construção de nações fortes e justas, para toda a América Latina.


Desejamos para você uma boa leitura e uma boa reflexão!! 





Para falar do populismo no continente americano precisamos partir de um fato histórico de suma importância; a Revolução Americana. 


Foi este fato histórico em particular que  inciou nas Américas um grande movimento de emancipação dos países que, até então, estavam sob julgo de outras nações europeias.


A Revolução Americana, ocorrida no ano de 1776, influiu nos atos iniciais da Revolução Francesa e desempenhou um papel de preponderância no desencadeamento das insurreições que levaram as independências das então colônias espanholas e portuguesas.


Depois da Revolução Americana foi se desencadeando, em todo o continente americano, insurreições e sublevações que instauraram uma nova ordem no continente em um grande "efeito dominó"; 


Não obstante, é importante ressaltar que este rastilho de pólvora, iniciado com a independência dos EUA, não resultou nos mesmo frutos por lá e por cá, em outros termos, o desenvolvimento do norte e do sul no continente americano se deu de forma bem distinta um do outro.


No norte do continente, dadas as circunstâncias históricas que proporcionaram o desenvolvimento de um povo que nunca em sua história sofreu com a pobreza em massa, além de ser uma nação muito experiente em auto gestão, que obteve como resultado de sua independência  o surgimento de um robusto corpo administrativo, com instituições fortes e atuantes, além de uma carta magna consistente - sobre o desenvolvimento americano faço uma análise mais detalhada de seu desenvolvimento em um artigo que publiquei na Revista Filosófica São Boa Ventura com o título O NEOLIBERALISMO E A CONSEQUENTE PRODUÇÃO DA INDIFERENÇA NO SUJEITO MODERNO, uma boa oportunidade para quem tenha interesse em se aprofundar na história americana e suas consequências para o mundo. 


No centro e no sul do continente, a perniciosa tradição colonialista que visava unicamente a exploração sem nenhum intento de formar uma nação, resultou em nações que não tinham qualquer experiência em auto gestão, altamente dependentes das colônias e com um povo disperso, sem união, instituições fracas e sem credibilidade popular e cartas magnas cheias de lacunas.  


Uma vez independentes, as antigas colônias padeciam de certa crise de legitimidade.


Se antes, o poder administrativo era exercido pelas colônias, sem nenhum questionamento, agora independentes, as antigas colônias careciam de organização política para reger seus próprios destinos.


Sem esta organização desenvolvida, o território foi alvo fácil para todo tipo de golpe e instabilidades político/administrativas fatores que relegaram para a Américas Central/Sul atrasos no desenvolvimento e no estabelecimento de uma soberania nacional.


Com um povo disperso e individualista, sem a participação popular nos grandes acontecimentos históricos, com instituições desacreditadas e brechas legais o continente foi terreno fértil para o surgimento de líderes com características bem específicas;


estes líderes políticos se aproveitaram destas peculiaridades do desenvolvimento latino e se tornaram lideranças, quase sempre, às voltas com um projeto de poder pessoal e nada mais, deixando de lado uma visão estadista de poder que visa o crescimento de uma nação forte, com reformas estruturais e a construção de uma identidade nacional robusta.


Para prolongar seu poder e manter o povo "domesticado" a estratégia desses líderes foi fazer governos populistas, que visavam atender aos anseios de uma parcela, que tinham as condições de mantê-lo no poder.  


Mas, afinal, o que é o populismo?


Como ele age e quais os seus efeitos ?



O populismo consiste basicamente em oferecer para certa parcela da população uma vantagem que responde de imediato a certos anseios desses grupos, em troca, o legislador busca apoio para a manutenção de um status de poder.


A prática é perniciosa no sentido de que não se busca resolver, de forma estrutural, o problema levantado, pelo contrário, geralmente as soluções apresentadas são soluções rasas e baratas, visam associar o suposto bem oferecido à imagem do governante, em outros termos, a ação populista é centralizada na figura do governante, personalizando a ação.


O populismo é também responsável por manter na ignorância e no medo a população em geral, interessa ao líder populista que seu povo não seja educado, emancipado, crítico ou questionador, pois, por se tratar de um "culto à personalidade do líder", o populismo está diretamente ligado ao controle da massa - falamos sobre o controle da massa em nosso artigo A MANIPULAÇÃO DA MASSA, publicado em 25/09/2021, complemente sua leitura.  


O populismo está diretamente ligado a outro fenômeno, muito conhecido de nós latinos; a "parusia".


A parusia, em em sua significação original, é uma palavra de viés religioso que designa a volta de Jesus Cristo no fim dos tempos, para o juízo final, o julgamento de Deus sobre todos os seres da Terra.


Refere-se, portanto, a uma perene espera por nosso "grande salvador", aquele que irá julgar os justos e os injustos e cumprir a justiça na Terra.


Mas, note o leitor que, à guisa de nossa reflexão de hoje, vamos subverter o sentido da palavra e agregar à ela um novo sentido, um sentido particular e "político", portanto, a parusia, em nosso texto de hoje, refere-se a espera de um "grande salvador", aquele líder político (populista obviamente) que nos salvará de nosso atraso em relação às nações das quais nutrimos uma admiração exacerbada.


O novo sentido que estamos estabelecendo para a palavra parusia é providencial por 2 motivos principais: 


1>  pelo teor religioso da palavra já que a América Latina tem um laço estreito com a religião, sendo esta uma marca de nossas sociedades, se mesclando em praticamente todas as instâncias de nossa cultura. 


A religião é um fator tão preponderante em nossa cultura que nossas sociedades se formaram no limite entre ser uma democracia de fato ou ser uma república teocrática,  guiada por parâmetros religiosos e dogmáticos. 


Com muito custo, conseguimos estabelecer democracias em quase todo o continente, mas o suposto "estado laico" está sempre dividindo atenções com a influência de dogmas religiosos em questões que deveriam ser estritamente políticas, o discurso moral/político/religioso está sempre em evidência em nossa cultura latina.


2> pelo fato da parusia ser uma palavra que expressa uma "espera" que se personifica na figura de um indivíduo que, sozinho, irá resolver os problemas de toda uma nação, assim como os cristãos aguardam o seu "salvador" os latinos estão igualmente sempre a espera do seu salvador, o "salvador da pátria". 


A falta de um projeto de nação, a desconfiança em relação às instituições e o individualismo são algumas das características que alimentam esta indelével espera. 


Não é à toa que em nossa cultura latino americana estamos sempre imersos em nossa parusia particular, sempre a espera do líder que irá nos retirar do atraso, sempre a espera do "herói nacional", sempre a espera do indivíduo que nos guiará rumo à prosperidade.


Pensamos em nosso progresso não como uma luta coletiva, de um povo que, unido, trabalha com afinco para que as gerações futuras usufruam da luta das gerações anteriores e, assim por diante, formando uma verdadeira nação, em um projeto de nação, por assim dizer, ao invés disso, esperamos que progresso virá com o advento de um indivíduo que se destaque desta massa disforme e nos guie rumo ao futuro, eis a utopia latina.  


O populismo e a parusia estão no DNA da cultura latino americana, foi forjada por meio de séculos de encobrimento de nossa cultura original, por genocídio étnico e carnal, pela imposição de uma cultura que se julgou superior a outra em determinado período histórico, pela exploração cruel e sanguinária, sem nenhuma preocupação com o futuro dos povos originários.


Por meio do populismo e da parusia a América Latina está repleta desses "caudilhos", esses líderes carismáticos e populistas que personificam a pretensa "voz do povo" por meio de medidas que em nada ajudam no desenvolvimento da região, são práticas baixas e vis de manutenção de poder e nada mais.    


A América Latina inteira se desenvolveu em torno do populismo e da parusia política; a eterna espera do indivíduo que resolverá os problemas por meio de sua personalidade forte e sua liderança firme, ou seja, o culto ao governante populista, que governa com vistas ao seu desenvolvimento pessoal, agarrado ao poder, continuamente, colaborando para o atraso civilizacional do continente. 


Por meio de nossa parusia política vamos atravessando os séculos sempre trocando um salvador por outro, em um nefasto culto à personalidade, em um oneroso jogo de poder que visa unicamente converter todas as atenções para a figura do líder. 


Neste jogo de poder, vale mais a retórica afiada e o  discurso inflamado do que a ação em si; 


vale mais a popularidade da ação do que seus benefícios reais.


Neste ponto de nosso artigo é bom esclarecer que não se trata de uma generalização, ou seja, dizer todos os líderes latinos são populistas, que todos os países se desenvolveram unicamente com fórmulas populistas ou dizer que todo o povo latino vive em uma parusia cega.


Isso não seria verdade, afinal, observamos líderes estadistas que se destacam por uma visão de estado real, que lutam por reformas estruturais, que visam mudar as bases de nossos países, reforçando visões de mundo integralistas e emancipadoras. 


Em todos os países da América Latina podemos encontrar exemplos de políticos estadistas e de iniciativas populares que vão de encontro a simples espera de um salvador.


Em nosso empreendimento de hoje tentamos colocar sob  o julgo de nossa crítica as especifidades de nosso desenvolvimento latino que tem estas propriedades do populismo e da parusia política, um legado de nosso passado colonialista que pode até não ser determinista de nossos destinos, mas são, inegavelmente, constituintes de nossa identidade.


Por isso, estamos vendo estas práticas nos dias de hoje, com resultados satisfatórios aos políticos sem escrúpulos e agarrados ao poder pessoal.


Conversar abertamente sobre estas singularidades de nosso desenvolvimento é reconhecer um passado real para que se possa, a partir da discussão franca, traçar estratégias para sair do atraso que séculos  de colonialismo e exploração nos legaram, sem nunca  generalizar, pois, há de se reconhecer que, apesar de nosso passado interrompido, muito se fez em nossa região, temos muita coisa para nos orgulhar. 


Assim como devemos discutir nosso passado, no que tange estas peculiaridades do populismo e da parusia política, temos outros inúmeros problemas para trazer à baila; problemas que devemos reconhecer, nos aprofundar, discutir, ponderar e, por fim, quem sabe, resolver, como o machismo, o racismo, o patriarcado, as ditaduras, que atrasaram ainda mais toda a região, entre tantos outros problemas relativos ao nosso desenvolvimento latino e dos quais nunca conversamos francamente.


A América Latina, assim como a África e grande parte do Oriente Médio são partes do globo onde a história foi interrompida por países ricos e imperialistas que, em algum momento histórico, julgaram que a sua cultura era superior a cultura de outrem, por ainda não estarmos "humanamente evoluídos" não devemos esperar dessas nações nenhum reconhecimento do atraso que nos custou esta interrupção histórica, muito pelo contrário, a exploração continua mesmo que com novas roupagens.


Assim sendo, cabe justamente a estes povos encontrar meios para sair do atraso que estas nações ricas nos legaram, a solução para sair de vez deste atraso não é uma resposta de claridade solar, muito diferente disso! 


A resposta é sombria e incerta, principalmente no mundo de hoje em franca mudança, não obstante, mesmo que não se tenha uma resposta derradeira para nossa diligência, há sim um caminho a ser seguido para que nosso futuro seja melhor e mais próspero do que nosso passado:


União entre os povos latinos! 


Deixar de lado a "viralatisse" e encontrar, em nós mesmos, o brio para reconhecer o grande povo que somos, com uma cultura forte e pujante que, mesmo explorado e saqueado por séculos, resiste e brilha.


Os latinos precisam tomar nas mãos os rumos de seus próprios destinos e trocar o populismo barato e a parusia política por projetos de nação e participação política e deixar para traz, de uma vez por todas, a herança maldita que Europa nos legou.  










A América Latina precisa voltar os olhos para a sua própria história e deixar para trás a admiração exacerbada que tem sobre aqueles que são os responsáveis pelo seu atraso, somente assim, nascerá em nós o orgulho necessário para o engendramento de uma grande região; consciente de suas falhas e com os olhos fixos no futuro a ser construído. 


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E aí, gostaram do artigo desta semana ?


hoje tocamos em uma assunto complexo que demandaria muito mais aprofundamento, mas, ao menos, iniciamos esta discussão tão importante para nós latinos. 


Como vimos, o populismo e a parusia política são parte da herança que a exploração europeia deixou para nós e devemos lutar contra isso como sociedade latina organizada. 


Como já pontuamos inúmeras vezes, tendemos a projetar nossos futuros sonhando em ser apenas cópias dos países que admiramos, passa longe da nossa compreensão que tudo que estes países são e que tanto admiramos é o fruto da exploração de outros países pobres história afora. 


Por conta desta admiração desprovida de crítica negligenciamos nossa própria cultura, achando que tudo que é latino não presta, que o que vale é o europeu ou o norte americano somente.


Aí percebemos que a exploração não nos roubou apenas o ouro de nossas terras, roubou também nosso orgulho.


Obviamente, temos coisas para admirar e aprender com estes países, o problema passa a ser pretender refazer as pegadas históricas à risca, ignorando os contextos históricos em que se deram estas situações, ou seja, a história desprovida de avaliação crítica.


Existe muito trabalho a se realizar na América Latina para desfazer os prejuízos de séculos de exploração causou, principalmente no orgulho latino, por isso artigos como o de hoje são de suma importância, eles nos causam um certo incômodo, trazem para o escopo de nossa discussão o debate sobre o que pretendemos ser no futuro.


Esperamos retornar a este importante tema muito em breve.


...


Antes de nos despedimos gostaríamos de deixar com vocês um breve recado:


Nosso espaço vai dar uma pausa por agora e retornar a partir do dia 20/08/2022, isso porque estou em fase final no meu curso e preciso me concentrar integralmente na defesa da monografia final, que vai ocorrer nos próximos dias (me desejem sorte). 


Mas esta breve pausa pode ser a oportunidade perfeita para você fuçar nosso espaço e colocar a sua leitura em dia com os vários assuntos dos quais já tratamos por aqui, tem para todos os gostos; contos, crônicas, artigo de opinião, artigos acadêmicos, resenhas de filmes e de livros enfim, tem muita coisa para ler aqui em nosso espaço, aproveite!


E se tiver algo por aí guardado na gaveta pode ser uma excelente oportunidade para publicar, o que você acha? 


esta pausa vai passar rapidinho, você vai ver.


Então, espero que você curta nosso artigo de hoje e esperamos vocês aqui no próximo dia 20;


até lá e cuidem-se !! 


  



  






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