A BUSCA PELA IDENTIDADE NACIONAL

Olá Escritores!

 

Preparados para o artigo desta semana?

 

Este ano, como sabemos todos, teremos eleições.

 

As primeiras eleições em nível federal desde o famigerado pleito de 2018, um ano para nos envergonharmos, onde vimos os mais baixos ardis e estratégias vis para a garantia da chegada ao poder do nazifascismo que está aí. 

 

As eleições de 2018 e tudo que sobreveio na esteira desde acontecimento, vai entrar para os anais da história como um dos capítulos mais sórdidos de nossa história recente, resultado de toda uma conjuntura internacional de; crise do capital, ascensão da extrema direita no mundo, crise da imprensa, proeminência das chamadas fake news e de uma articulação criminosa que ocorreu aqui no Brasil, lá no ano de 2016, na ocasião dos subterfúgios utilizados para a destituição de uma Presidenta eleita democraticamente. 

 

E não podemos esquecer, obviamente, o conluio de juízes, procuradores e advogados que agiam de forma parcial e pró ativa com vistas à incriminar, sem provas, o ex Presidente Lula, com um empenho direto do Juiz/estrela da Operação Lava Jato, Sergio Moro que, depois de conseguir seu intento, a condenação do ex Presidente Lula, retirando o então líder das pesquisas da corrida eleitoral, se favoreceu diretamente no governo Bolsonaro, aceitando, sem nenhum peso na consciência, o cargo de Ministro da Justiça com status de "super ministro", com uma suposta "carta branca" para fazer o que quisesse no mistério. 

 

Mesmo nesta posição vergonhosa, sendo o juiz responsável por retirar da disputa eleitoral o líder das pesquisas e se aproveitando diretamente da condenação, dada por ele mesmo (pasmem!!), ficou no governo mais de um ano, saindo de forma atribulada, em um espiral de acusações, mentiras e traições mútuas.

 

Tudo que vem acontecendo no Brasil e no mundo nas últimas décadas é realmente complicado de se entender, certamente, quando nos for permitido um tempo para uma pesquisa mais aprofundada e, salvaguardado o devido distanciamento histórico, escreveremos um artigo para tentarmos entender melhor toda esta conjuntura complexa e desafiadora que vai se desenrolando à nossa frente e da qual estamos todos mergulhados, queiramos ou não.

 

Por ora, em nosso artigo de hoje, pretendemos iniciar uma série de artigos esporádicos com as palavras-chave eleição e identidade nacional que visa um aprofundamento em temas que dizem respeito a política e a busca por uma “identidade nacional”.

 

Você deve se lembrar que, em nosso artigo ÉTICA JORNALÍSTICA NOS DIAS ATUAIS, publicado em 14/03/2022, discorremos sobre a crise na imprensa mundial e brasileira.

 

Verificamos neste artigo que a imprensa, mesmo sendo um pilar fundamental em qualquer democracia, por uma série de vicissitudes, se encontra com uma reputação não muito boa. 

 

Lá, dissemos as seguintes palavras:

 

(...) a confiança na ética jornalística está tão ruim quanto a reputação dos políticos e dos partidos políticos, mesmo que ambos, políticos e jornalistas, sejam fundamentais para a nossa vida em sociedade.       

 

Nesta passagem nos ocorreu que, além da crise na imprensa, existe também uma crise na política, que, aliás, é muito maior e mais bem arregimentada na cultura brasileira do que a crise na imprensa, que é relativamente nova.

 

O desinteresse do brasileiro em relação a temas políticos, a não participação da população na vida pública e a falta de uma cultura política em nossos cidadãos nasce juntamente com a história do país, estas características estão, inclusive, diretamente associadas à busca por uma identidade nacional, em outros termos, a busca para tentar definir o ethos brasileiro, aquilo que nos identifica como brasileiros que somos.

 

Será que temos uma identidade nacional, que nos defina como "brasileiros" ou somos apenas um punhado de pessoas dividindo um espaço no planeta, sem qualquer tipo de laço?

 

Como veremos em breve, estabelecer uma "identidade nacional" não é tarefa simples, há muita divergência sobre este tema entre os estudiosos.

 

Mas, a despeito de todas estas discordâncias, na busca por uma identidade nacional, podemos destacar certas características que definem bem nosso povo, nossa proposta de hoje é tentar encontrar um certo caminho a ser seguido na busca por um ethos brasileiro, nos aprofundando um pouco nessas características que podemos identificar com base em um estudo sério de nossa própria história.

 

Neste caminho que estamos sugerindo, propomos deixar em segundo plano as visões "estrangeiras" de análise, ou seja, procuramos construir a nossa identidade nacional usando a nossa própria história como referência, sem recorrer a estudos da filosofia clássica que, por definição, é majoritariamente europeia, vazadas de noções que não dizem respeito ao nosso desenvolvimento.

 

Trata-se de um movimento de "voltar os olhos para si mesmo", procurar entender o que faz de nossa cultura particular ser o que ela é e, por consequência, entender certos comportamentos exclusivos que temos frente as culturas estabelecidas de outros povos do planeta, em outras palavras, o que nos faz brasileiros.

 

Talvez, a busca pelo ethos brasileiro seja uma tarefa que esteja em sua tenra infância, mas, na proposta de sugerir um método para esta difícil tarefa, visamos nos concentrar em 2 características bem específicas da essência brasileira e que serão nossa “bússola” em nossa investigação de hoje:

 

Primeiramente, a aversão do brasileiro médio a  assuntos relacionados à política, a falta de interesse e de participação política nas grandes decisões do país e a falta de uma cultura política;

 

Em segundo lugar, o individualismo brasileiro, uma das características mais destacadas de nossa população, que reflete diretamente a relação que a população tem com a coisa pública, com a república e com a democracia.

 

Seguindo estas 2 diretrizes básicas e nos concentrando, em um primeiro momento, nestas 2 características mais marcantes de nossa população, esperamos estabelecer um trilho para que a discussão sobre o ethos brasileiro avance.

 

Consideramos que refletir sobre si mesmo, seja como um indivíduo ou seja como uma nação (um povo), é uma importante tarefa existencial, tem a ver com a busca por uma vivência mais autêntica, que toma para si os rumos de seus próprios destinos.

 

...

 

Um último recado antes do texto.

 

Nossa análise sobre o Brasil sempre vai considerar um contexto mundial, por isso será um ato natural em nossa dinâmica cambiarmos do nacional para o internacional e vice versa, faz parte de uma análise honesta, a nosso ver, que as considerações sobre nosso país levem em conta um contexto mundial.

 

O Brasil, por uma série de particularidades, se desenvolveu de costas para a América Latina, alimentando em si uma prejudicial admiração exacerbada e desmedida à Europa e aos EUA, síndrome de todos os países de cultura colonialistas e, por consequência deste desenvolvimento, o Brasil cresceu isolado, fechado em si mesmo.

 

Foi destas marcantes características que desenvolvemos o nosso “complexo de vira latas”; a impressão de que as coisas ruins que acontecem por aqui são exclusividade do Brasil e que os países ditos desenvolvidos são sempre melhores.

 

Todas estas especificidades brasileiras, condizentes com o nosso desenvolvimento particular no decorrer histórico, tendem a obnubilar o olhar de nossas análises, poluindo as mesmas com a falta de uma conjuntura internacional dos fatos, em outros termos, desconsidera-se um parâmetro mundial congruente e, muitas vezes, a própria história nacional, para fazer as análises dos fatos que ocorrem em nossa história, procura-se ter um “espelhamento” com os países ditos desenvolvidos procurando seguir as mesmas pegadas históricas destes países, o que é impossível.

 

Na contramão destas análises parciais, que consideram mais o ponto de vista estrangeiro de nossos problemas domésticos do que uma análise mais intimista, que enquadre a situação do Brasil, um importante país no cenário geopolítico mundial, dentro de um contexto global, reiteramos que nossas análises, sobre o Brasil, sempre consideram a situação mundial, somente assim consideramos ser possível fazer uma arguição mais aprofundada e séria sobre nossa própria cultura inserida em uma cultura humana.  

 

Sentindo que já nos alongamos demais, desejamos para você uma;

 

Boa leitura e boa reflexão!

 

 



 

A CRISE NA POLÍTICA 

 

Em diversos artigos, aqui em nosso espaço, verificamos que o ocidente e suas sociedades enfrentam várias crises, sobre algumas dessas crises falamos de forma pormenorizada.

 

Mais recentemente, colocamos uma lupa na crise da imprensa, mas já discorremos sobre a crise nas sociedades ocidentais, crise de valores, crise ética, crise sanitária, falamos também sobre o negacionismo, sobre o controle da massa entre outros assuntos interligados entre si e que nos revelam que existe uma crise generalizada em várias instâncias de nossas sociedades.

 

No artigo de hoje vamos falar um pouco sobre mais uma crise instaurada e seus resultados no seio de nossas sociedades, a crise na política. 


Esta crise política em particular traz em si muitas questões sobre as quais devemos nos debruçar, por enquanto, vamos nos concentrar no “voto de protesto” uma forma que as pessoas encontraram de expressar a sua indignação com a classe política, o voto de protesto pode se manifestar no voto em branco, na ausência ao pleito ou no voto nas figuras mais esdrúxulas que se possa imaginar como uma forma de dizer “não!” às estruturas políticas tradicionais.

 

A crise na política e a descrença com a classe política não é exclusividade do Brasil, há no mundo todo o registro do desinteresse, principalmente dos mais jovens, em relação à política, de forma geral, precisamos deixar claro, a guisa de combater nosso já conhecido complexo de vira latas, que a repulsa à classe política, às instituições políticas, às democracias e a vida pública ocorre em todo o mundo ocidental.

 

Aliás, todo o nosso contexto Brasil/Mundo atual, da ascensão desta extrema direita, da proeminência das fake news, do negacionismo e da própria crise na imprensa, que vimos recentemente em artigos anteriores, corroboram a ausência da participação popular nos trâmites políticos no mundo todo. 

 

O voto de protesto, usado como ato de rebeldia frente ao Establishment,  tem sido uma forma de protesto prejudicial para a democracia e demonstra, com precisão, que há uma insatisfação generalizada com a classe política.

 

O voto de protesto coloca nas engrenagens de poder figuras que, ou não estão preparadas para a vida pública, ou agem unicamente em nome interesses pessoais – muitas vezes os dois casos. 

 

Movido pela insatisfação popular, o voto de protesto tem sido eficaz na corrosão da democracia de dentro para fora, ou seja, se utilizando dos próprios meios democráticos observamos a chegada ao poder de líderes que têm a clara intenção de destruir as instituições democráticas em nome de um projeto de poder, assim vão minando a já frágil confiança nas instituições públicas.

 

Aqui no Brasil Bolsonaro é um exemplo clássico desta nova forma de agir que a extrema direita encontrou, se aproveitando de uma insatisfação generalizada contra a classe política Bolsonaro se elegeu sendo o outsider, aquele que estava contra "tudo que está aí", surfou na onda do antipetismo, alimentado por nossa problemática mídia e na insatisfação generalizada da população contra a política. 

 

Se elegeu pela urna eletrônica e agora, gasta tempo e energia para solapar a confiança popular na urna que o elegeu, democraticamente;

 

incita a sua claque para a destituição STF, sabendo que sem um STF não há democracia, participa de atos anti democráticos, arma a população visando uma espécie de "guerra civil" com seus fanáticos, atiça o meio policial e forças armadas sempre estimulando a uma sublevação desta classe, isso sem falar nos crimes, tanto de responsabilidade (que já deveriam ter gerado o impeachment ) quanto os crimes comuns. 

 

Enfim, Bolsonaro é, de longe, a pior fase de nossa história recente e um excelente exemplo do poder devastador que existe no voto de protesto, resultado de uma insatisfação generalizada que só vem crescendo nos últimos anos.

 

Em várias partes do mundo, com esta crescente insatisfação à política, à democracia e as incontáveis crises que participam deste quadro, temos observado a eleição de vários políticos outsiders, cuja proposta é sempre ser o oposto dos políticos tradicionais.

 

Podemos citar, além de Bolsonaro, Donald Trump nos EUA, Andrzej Duda na Polônia ou ainda Marine Le Penna na França todos representantes desta direita radical e com uma trajetória parecida; prometendo ser uma opção radicalmente oposta ao status político estabelecido e elegendo para si um inimigo a ser combatido, seja o imigrante, o comunismo ou o PT.

 

...

 

Sobre esta insatisfação com a classe política no que diz respeito ao Brasil, exclusivamente, verificamos que em nós esta ojeriza à classe política está diretamente ligada a nossa identidade nacional, para nós é cultural o não envolvimento na vida política e a consequente inapetência à vida pública.

 

Quem de nós nuca ouviu ou falou frases feitas do tipo:

 

políticos são todos iguais, todos ladrões e não sobra um sequer

 

A ideia de que a política em si não presta e que todos os políticos são desonestos povoa o nosso imaginário popular, desde a nossa mais tenra infância, somos bombardeados com uma insatisfação generalizada em relação a assuntos da política nacional, ninguém reflete muito sobre isso, trata-se de uma ideia fixa na identidade brasileira, imposta no senso comum.

 

O brasileiro médio se orgulha em afirmar que não participa da vida pública, não vota em ninguém, não se interessa em saber o que ocorre nas esferas de poder, não participa do debate público.

 

Este comportamento se dá porque, no desenvolvimento de nossa história, o povo brasileiro nunca foi estimulado a participar das grandes decisões da nação, os grandes acontecimentos nacionais sempre se sucederam sem a participação efetiva do povo, além disso, a estruturação do sistema político brasileiro se desenvolveu com a classe política enclausurada em “palácios” o que passa a impressão de que a classe política brasileira está separada da classe popular.

 

Este desenvolvimento da política brasileira alimentou no senso comum uma impressão de que as instituições brasileiras agem somente a favor de uma casta política e contra o povo.

 

No Brasil há uma falta de confiança generalizada nas instituições e esta falta de confiança no Estado brasileiro acaba por resultar em uma cultura do individualismo, onde, por conta de uma sensação de desamparo em relação às instituições, opta-se por resolver os atritos por meios extraoficiais, muitas vezes, à margem da Lei.

 

Muito do “jeitinho brasileiro” vem daí.

 

Vamos nos aprofundar, um pouco mais, no individualismo brasileiro nas páginas a seguir.

 

O INDIVIDUALISMO BRASILEIRO

 

Continuamos na busca pelo Ethos brasileiro, aquilo que poderíamos identificar como sendo a nossa "identidade nacional”, aquilo que nos faz um povo único, unido por laços de cultura e história, que molda a nossa percepção particular de mundo, única na Terra e que nos faz brasileiros.

 

A esta altura de nosso artigo, seríamos capazes de identificar nosso ethos, aquilo que nos torna brasileiros? 

 

A pergunta é capciosa por si só, afinal, a questão da identidade para povos de cultura colonialista e de histórias interrompidas, como é nosso caso é, sem embargo, complicada;

 

primeiramente, devemos considerar que a identidade nacional é uma questão histórica, política e relativa, ou seja, a identidade está em constante construção, temos que desfazer do nosso imaginário a ideia da identidade nacional como algo fixo e imutável, ela é uma produção histórico/cultural em movimento.

 

A identidade brasileira se dá na busca por como o brasileiro se vê e quer ser visto, mas note o leitor este sutil jogo de palavras, não se trata da busca por nossa identidade considerando o que somos de fato, baseado em nossa história efetiva, onde, construiríamos uma identidade autêntica, boa ou má, mas autêntica.

 

Aqui, trata-se de construir uma identidade baseada no que gostaríamos que fossemos, como gostaríamos de nos ver e de sermos vistos, uma falsa identidade, por assim dizer, não obstante, na busca por nossa identidade estamos sempre de frente para a Europa e para os EUA e de costas para nossa própria história e para a América Latina, em outros termos, não é como somos de fato, mas sim como nós nos imaginamos em nosso inconsciente coletivo.

 

Como vamos observando nesta breve explanação, a questão da identidade brasileira é complexa, mas, mesmo com toda esta complexidade em relação a questão da identidade nacional, poderíamos destacar uma característica em particular que vai nos ajudar em nosso empreendimento de hoje; 

 

individualidade, é marca inegável de nosso suposto ethos, e é uma marca tão protuberante que nos permite torna-la objeto direto de estudo, possibilitando o aprofundamento para o fomento da busca por nossa identidade nacional. 

 

No cerne de nossa individualidade, está a completa alienação da vida pública e da atividade política, por parte de nossa população em geral.

 

Por isso, todos nós ouvimos e/ou falamos aquelas máximas que já fazem parte do nosso repertório:

 

Política não presta!

Eu só voto em branco.

Políticos são todos ladrões! Não salva um!

 

Entre outras frases feitas que refletem um total descaso com a classe política.

 

Está fixo no imaginário brasileiro a ideia de que a política é somente um meio para alguns enriquecerem, o debate político de nossa população se resume a discussões de boteco e atividades partidárias/midiáticas somente, sendo que a participação popular em uma república é muito mais abrangente.

 

Mas toda esta conjuntura de destrato com a coisa pública, ojeriza à classe política e alienação política é muito mais profunda do que poderíamos supor, além de suas raízes no desenvolvimento do ocidente que, como vimos há pouco, também apresenta uma característica de alienação política, principalmente nos mais jovens, há no Brasil um projeto para manter o povo sempre à parte das decisões importantes da nação. 

 

Se voltarmos nossos olhos para nosso desenvolvimento histórico, mais especificamente ao ano de 1889, quando observamos o fim da monarquia no Brasil, sem dúvida um importante fato político, vamos observar que a participação popular neste importante evento histórico foi praticamente nula.

 

De fato, o processo que pôs fim a monarquia no Brasil foi um ato orquestrado pela elite brasileira da época em nome de seus interesses e não um ato de clamor popular.

 

Ter a burguesia orquestrando levantes e revoluções mundo afora não é novidade, aliás, é mais comum do que poderíamos supor, a própria Revolução Francesa foi organizada pela burguesia da época, mas, não obstante, houve a força da participação popular, sem a qual a Revolução Francesa não aconteceria.

 

Diferente do Brasil onde a alienação política acontece desde os primórdios de sua história, na ocasião do fim da monarquia do país, sem dúvida, um fato de suma importância para os destinos da nação, a participação popular foi nula, tanto na organização e pressão aos poderes constituintes, quanto na participação efetiva.

 

Perceberemos esta alienação política, fruto de nosso individualismo, se observarmos o que nos disse um artigo escrito em 18 de novembro de 1889, por ocasião da queda do regime monarquista, o artigo é de autoria de Aristides Lobo e cita a apatia do povo ali presente frente a um fato de importância singular, que mudaria os destinos da nação e que foi encarado como um evento qualquer pelo povo presente, muitos dos que testemunharam o fato não sabiam sequer do que se tratava.

 

Em seu artigo Aristides vai dizer:

 

O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava, muitos acreditavam estar vendo uma parada

 

Ou seja,  já aquela época somos capazes de observar um desinteresse pelos destinos da nação, que é a marca do individualismo que nos caracteriza, mas é importante ressaltar que este individualismo não é uma marca do povo em si, que se inicia com ele por características estritamente identitárias, trata-se de um processo de alienação deliberado, promovido e alimentado pela própria estruturação política brasileira que foi se acomodando desta forma em seu desenvolvimento, submetendo o povo à uma alienação política, construindo assim a sociedade brasileira, sempre com um “pé atrás” em relação ao seus políticos e as suas instituições.

 

É bom considerar também que, em maior ou menor grau, a nossa negligência histórica com a educação e a falta de compromisso com a formação de pensadores críticos engrossa este caldo cultural e alimenta este estado de coisas, mas vale a pena reforçar que não se trata unicamente de apontar culpados ou de estabelecer um pensamento fatalista do tipo; "as coisas no Brasil são assim mesmo e não tem jeito", mas sim de fazer uma análise séria, que revisite nossa história de forma viva e ativa, trazendo para o escopo da análise os fatores que nos fazem sermos o que somos, com defeitos e qualidades, na busca de uma verdadeira identidade nacional.

 

Não perdemos nada em lembrar que todos os países do mundo se desenvolveram com características boas e más, faz parte de nosso "complexo de vira latas" pensar em países da Europa e os EUA como "exemplos de tudo!", onde todo o desenvolvimento histórico ocorreu sem nenhuma falha, onde  tudo, absolutamente tudo deu certo, onde as pessoas são felizes e não há nada de errado, o que, obviamente, é uma ilusão perigosa que só alimenta, ainda mais, nosso individualismo e alienação política.

 

Esta ilusão perigosa corroí todas as análises e nos faz ter uma imagem enviesada da realidade mesma, e o pior é que não vemos isso apenas nas pessoas simplórias, facilmente manipuláveis pela mídia e seus ardis persuasivos, observamos essas análises poluídas em gente estudada; repórteres, acadêmicos e nos mais variados "especialistas". 

 

Sempre uma análise não-verdadeira, impregnada de viralatismo, individualismo e indiferença, sempre de costas para a própria história, em busca de “soluções prontas” importadas de outras culturas. 

 

É mais cômodo, tanto para a classe política como para a elite, manter a força popular subestimada, fora dos grandes debates que guiam nossos destinos.

 

Estamos falando de controle de massa aqui! 

 

No desenvolvimento brasileiro, regido pela classe política e pela elite, optou-se por manter a participação popular sempre em segundo plano, com isso nosso conceito de "república" é completamente deturpado.

 

A administração da coisa pública, em nosso senso comum, rege que o povo está de fora, reina a ideia de que o que é público não pertence a ninguém, uma visão completamente individualista, pois o que é público, na verdade, pertence a todos.

 

A individualidade brasileira vai se manifestando no trato que o povo, de forma mais geral, vai se relacionando com a esfera pública de sua vivência, não somente na vida política do país, na participação dos eventos que mudam os destinos da nação e na participação cívica, mas também em seu dia a dia, no trato com as ruas de seu bairro, das praças, do transporte público, dos prédios e espaços públicos, dos serviços, entre outros meios de influir na esfera pública.

 

Nossa individualidade brasileira vai se manifestando nessas diversas minudências que vão se apresentando em nossa forma de viver nossas rotinas, em nosso Brazilian Way Of Life vai se destacando a forma como tratamos a res publica, o leitor certamente vai notar que neste trato a relação brasileira com o público é, quase sempre, de indiferença, tem-se sempre em mente que o que é público não presta.

 

Na busca pela identidade brasileira, da qual se destaca o individualismo que estamos pontuando, há também de se ressaltar a questão da corrupção, ela é parte constituinte de nossa condição e contribui para a alienação política de nossa população, é a corrupção endêmica do país que alimenta na população uma descrença na classe política.    

 

Mas, devemos ter em mente que, o político de que tanto reclamamos, nada mais é do que um retrato fiel de nossa sociedade, em outros termos, se temos políticos corruptos e desinteressados na vida do cidadão comum é porque nós, como povo, também somos corruptos e desinteressados na vida social de nossos semelhantes.

 

A corrupção que enfrentamos em nosso país se alimenta diretamente do total desinteresse da população aos assuntos políticos que, por sua vez, é retroalimentada pela corrupção em um ciclo vicioso que só se quebrará com uma mudança de atitude da população.

 

Toda a vez que um cidadão fura uma fila, estaciona na calçada, paga ou recebe um suborno, joga um papel de bala fora da lixeira entre outras atitudes sabidamente erradas, mas aparentemente banais, onde, só se mira no benefício pessoal, em cada uma dessas atitudes, observamos o nosso individualismo se manifestar, ou seja, a vontade deliberada de se beneficiar individualmente e com vantagens, muitas vezes ilegais, sempre indiferentes ao bem coletivo.     

 

A estruturação política ajuda na consolidação desta individualidade brasileira, a centralização das atividades administrativas em grandes "palácios" que são inatingíveis, pelo menos no imaginário popular, reforçam a ideia de que os políticos são separados do povo, que vivem em palacetes, afastados da vida simples. 

 

 No senso comum é natural a ideia de que as decisões são tomadas às portas fechadas, sem a participação popular e com total indiferença aos reais problemas e necessidades do povo, alias, há sempre uma sensação contrária; de que tudo que é feito pela classe política visa, exclusivamente, um benefício próprio e o prejuízo das classes populares.

 

Por isso há no Brasil certa "Lei Paralela", Lei esta que vige ser "esperto" aquele que encontra formas de burlar as Leis, da mesma forma, é considerado um "otário" aquele cidadão que tenta seguir a Lei à risca, em outros termos, há na população uma conivência com quem encontra formas criativas de burlar a Lei.    

 

Este "afastamento" da vida política, implementado desde o início de nossa história, denota uma falta de interesse da população para assuntos públicos, por um lado, o cansaço da população em relação aos ininterruptos escândalos de corrupção, sempre presente nos noticiários, por outro lado, uma falta de interesse em promover em si uma cultura política.

 

Pode até ser um exagero dizer que a nossa democracia é uma farsa, afinal, todas as democracias do mundo, até as democracias dos países ditos desenvolvidos, estão em constante evolução, além disso, a nossa democracia vem passando por seu maior teste, sob a regência deste governo de traços nazifascista, mas temos que reconhecer que a democracia brasileira além de jovem é incompleta, lhe falta a real participação popular.

 

Por isso, temos um longo caminhar histórico para sermos capazes de afirmar que nossa democracia é forte e robusta, a passos lentos, vamos construindo uma democracia que seja confiável, mas temos que ter em mente que uma democracia como almejamos passa, necessariamente, pela participação popular.

 

Assim sendo, mesmo que o individualismo seja a marca de nosso suposto ethos podemos sim almejar o fomento da formação de uma população de consciência política, uma sociedade de emancipados e engajados, capazes de tomar nas mãos as rédeas de seu próprio destino e esta mudança deve passar, necessariamente, pela educação/crítica e pela nossa juventude.    

 

Afinal, consciência política não nasce da noite para o dia, principalmente em um país que nunca em sua história priorizou a educação, onde a cultura sempre foi relegada e os cidadãos voltam os olhos para os seus próprios algozes numa espécie de “síndrome de Estocolmo”, mas o fato é que dado a situação política do mundo, todas as mudanças geopolíticas em curso e o tempo que temos não se trata mais de uma vontade simplesmente, mas sim de uma necessidade que implementemos, principalmente nos jovens, uma consciência política eficaz e autêntica. 

 

Devemos lembrar que este mesmo país cheio de problemas e falhas é o mesmo país das Diretas Já(1984) do Impeachment do Collor(1992), entre outras amostras de força e engajamento popular, ou seja, há uma força política adormecida em nosso ethos que devemos nos esforçar em despertar, somente assim vamos finalmente compreender que o verdadeiro poder emana do povo, desde que este povo lute por ele.  



 

A busca pela nossa identidade nacional passa, necessariamente, pelo engajamento politico da população.

     

 

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E aí gostaram d artigo desta semana?

 

Mais uma vez, tratamos de um assunto muito complexo do qual não arranhamos sequer a superfície e que, certamente, será alvo de um novo artigo para um aprofundamento muito em breve.

 

Antes de nos despedimos, gostaríamos de nos ater em alguns pontos;

 

Apesar do tom crítico de nosso artigo, apontando características muito fortes e de aspecto negativo de nossa personalidade brasileira é preciso registrar o amor que temos pelo nosso país.

 

O Brasil é um país grande, de muitos contrastes com uma história e cultura ricas, que, assim como a África e a América Latina, teve a história interrompida, sua cultura encoberta, suas riquezas naturais roubadas e os povos originários massacrados, além de um histórico inegável com a escravidão, mais um ingrediente deste caldeirão étnico.

 

Devemos partir da premissa de somos um país de cultura colonialista ou, em português claro, um país que foi violentado por uma cultura que, em algum momento histórico, se julgou superior a outra cultura.

 

O estudo de uma suposta identidade em países de cultura colonialista é extremamente complexo e nós, como os atores principais deste estudo, temos que ter uma atitude franca perante os desafios de se tentar chegar a esta identidade.

 

Além do individualismo e da alienação política, que trabalhamos em nosso texto de hoje, existem outras características alvo de críticas que poderíamos destacar e trabalhar nesta busca pela identidade nacional;

 

Somos também um povo machista, racista, patriarcal, conservador, todas estas características vêm de nossa formação histórica, são constatações desagradáveis que devemos trazer à tona para um debate sério, franco e proveitoso, que nos faça reconhecer estas características negativas e trabalhar para melhorá-las em busca de um povo que seja unido em nome de um projeto de nação, muito mais do que somente um bando de gente amontoado em um pedaço de terra.

 

Quando falamos dos destinos de uma nação é muito mais importante focar os projetos do futuro, em busca de uma nação justa, fazendo de sua história, por mais inconveniente que ela seja, um trampolim para o advento de um povo orgulhoso de si e justo para com os seus.

 

Mas, para chegar ao ponto de se conseguir uma nação assim, justa e de olhos fixos no futuro, é necessário encarar todas as facetas do seu próprio desenvolvimento, encarar as características negativas que não são exclusividade do povo brasileiro, características negativas formam todos os povos da Terra, afinal, antes de sermos nações somos todos humanos.


Por fim, dito tudo isso, vamos encerrar salientando a importância da educação crítica, da arte, da cultura na busca de nossa identidade nacional e de um povo que tenha em si o verdadeiro orgulho de ser brasileiro.

 

...

 

No mais, esperamos que você tenha gostado de nosso artigo de hoje e esperamos encontrar vocês aqui semana que vem;

 

Até lá e cuidem-se  !!    

    

 

 

 




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