A TECNOLOGIA NA BUSCA PELO AUTOCONHECIMENTO - AJUDA OU ATRAPALHA?
Olá Escritores !!
Preparados para o artigo desta semana ??
Hoje convidamos vocês para uma viagem ao interior de nós mesmos, refletindo e nos perguntando; será que pensamos sobre nós mesmos, sobre o nosso próprio crescimento individual?
Será que conhecemos a nós mesmos?
Essa é a pergunta que assola a humanidade, desde tempos imemoriáveis.
Voltar nossos pensamentos para aquilo que faz de nós sermos o que somos, tentando fazer dessa análise uma demanda franca, livre de artimanhas e auto enganos é providencial, já que vivemos em uma época que sugere justamente o contrário, ou seja, que se ignore o auto conhecimento e se volte os olhos para fora de si, que se viva uma existência diluída nas massas, recheada de distrações e respostas simplistas e que atendam, de forma superficial, aos grandes questionamentos que naturalmente surgem de nossa vivência.
Nesta forma enganadora de viver, negando um auto exame legítimo de si e mergulhado na massificação, a tecnologia tem um papel central, afinal, é por meio da tecnologia e de seus aparatos e, mesmo pelas facilidades promovida por ela, que camuflamos a busca por nós mesmos em entretenimento vazio, distrações embrutecidas e em um otimismo vulgar que supervaloriza os avanços tecnológicos, supõe para estes avanços a grande razão de ser de toda a humanidade, em outros termos, tem-se no desenvolvimento tecnológico a grande aposta da humanidade para resolver todos os dilemas humanos, inclusive, os de ordem ético/morais.
Certamente, temos muitos motivos para nos orgulharmos de nossos feitos tecnológicos e o conhecimento proporcionado por ele.
Recentemente, por exemplo, a humanidade lançou para o espaço uma sonda espacial que nos ampliou, um pouco mais, o nosso já considerável conhecimento sobre o espaço, com o telescópio James Webb, o que, doravante, ajuda a nos conhecermos melhor como espécie, nossas origens, etc.
Além da imensidão do espaço, vasculhamos o mundo quântico e seus sistemas físicos, desenvolvemos e produzimos vacinas em tempo recorde na pandemia do novo coronavírus, produzimos celulares e computadores super potentes que eliminam as distâncias e nos permitem uma comunicação eficiente com qualquer um, em qualquer lugar, essas são conquistas da humanidade, possíveis graças aos avanços tecnológicos, que ampliam o nosso conhecimento de mundo e, de certa forma, de nós mesmos.
A tecnologia é, inegavelmente, uma grande ferramenta para a expansão do saber humano.
Isso ninguém nega.
O problema passa a ser quando se deposita na tecnologia uma certa "fé cega" que supõe ser a tecnologia a única resposta possível para os diversos dilemas ético/morais que assolam a humanidade desde sempre, além dos novos dilemas que vão surgindo na história, muitos deles fomentados justamente pela implementação de certas tecnologias aplicadas, como os dilemas da I. A., por exemplo, que tende a tomar o lugar dos humanos em determinadas tarefas.
O que estamos tentando estabelecer em nossa reflexão de hoje é que, todo este conhecimento que obtemos sobre a realidade até aqui, proporcionado em grande parte pela tecnologia, não dá conta de aplacar a pergunta que um pensamento filosófico isento de toda esta euforia tecnológica faz:
Em que toda esta tecnologia e todo este conhecimento obtido por meio da tecnologia nos ajuda a viver melhor?
Afinal, mesmo cercados de tanta tecnologia ainda temos que lidar com problemas que se arrastam por milênios a fio, assombrando nosso cotidiano e sem a menor perspectiva de solução.
Estamos presenciando, bem diante de nossos olhos, pessoas pedindo a volta da ditadura, pessoas negando preceitos científicos, negando a eficácia das vacinas, acreditando em "terra plana", manifestações nazistas se multiplicando, racismo cada vez mais contundente, violência policial cada vez mais brutal, machismo com o aumento considerável de feminicídio e homens tratando mulheres como sua "propriedade", assassinatos por motivos fúteis, homofobia violenta, xenofobia, intolerância religiosa entre outros problemas que, em teoria, dado o nosso inegável avanço tecnológico e o conhecimento que todo este avanço proporciona, deveriam ter ficado para trás.
Além disso, toda esta tecnologia não consegue aplacar outros dramas humanos que nos acompanham em nossa jornada, nos últimos 100 anos, um século marcado por muito orgulho epistemológico, o que verificamos foi o adoecimento de nossas sociedades, foi neste último século que observamos aumentar os níveis de depressão, angústia, medo e suicídios.
Neste caso, a tecnologia é parte constituinte do problema, afinal, é por meio dela que desenvolvemos e produzimos em escala industrial as drogas que nos entorpecem, que nos dopam frente uma realidade que queremos escamotear.
Só no Brasil, uma pesquisa, efetuada pelo Conselho Nacional de Farmácia (CNF), mostra que 77% dos entrevistados têm o hábito de se automedicar.
Assim, mesmo que se reconheça a importância da tecnologia em nossa vida e em nosso desenvolvimento como especie, é preciso encarar o fato de que a tecnologia, ao contrário do que muita gente pensa, não é a solução, muito menos o caminho, para resolver nossos problemas fundamentais, em muitos casos, inclusive, a tecnologia é a fonte do problema, seja por produzir um produto que pode ser mal usado, como as drogas, por exemplo, seja por empolgar seus usuários ao ponto de produzir nos mesmos uma "cegueira coletiva", um otimismo descabido que escamoteia o verdeiro caminho para uma sociedade melhor.
Nesta breve introdução, somos capazes de perceber que a tecnologia e seu uso possui uma função ambígua; pode tanto ser usada para grandes avanços em nosso conhecimento de mundo, como pode ser uma ferramenta eficaz para o nosso atolamento em uma sociedade cada vez mais doentia, alienada dos problemas reais da existência, com indivíduos mergulhados em distúrbios psicológicos, distrações rasas, drogas, entorpecentes e na falta de uma perspectiva de futuro, uma sociedade que, de forma geral, se encontra em um niilismo perigoso.
Nada poderia ser mais pernicioso para uma sociedade do que indivíduos tão massificados que lhes falte um olhar sobre si mesmos, em outros termos, só melhoraremos, como sociedade, quando tivermos membros que coloquem sobre si mesmos um olhar crítico genuíno, o conhecer a si mesmo é fundamental para o crescimento individual e, consequentemente, para o crescimento social.
A tecnologia pode nos servir para ambas as situações, pode tanto nos servir como um importante instrumento de crescimento individual, como pode servir para uma distração barata e alienante, sem qualquer importância, que nos empurra para uma existência inautêntica, diluída nas massas.
Para qual fim o leitor acha que a tecnologia está sendo usada nos dias atuais?
...
Apesar de tantas conquistas, buscamos um certo distanciamento da realidade, somos assolados por depressão, tristeza, incompletude, vazio existencial, niilismo, tédio, suicídios entre outras mazelas humanas, que toda esta tecnologia e toda esta empolgação em torno dela não consegue aplacar.
Tendemos buscar a felicidade fora de nós, por isso verificamos que a tecnologia, em nosso atual estado, só nos serve como uma fuga da realidade, uma realidade dura demais que procuramos, a todo custo, maquiar para que se pareça o mais palatável possível.
Com tantas fugas, falhamos em viver a vida no que ela é de verdade, negamos suas dificuldades, sua finitude e nos escondemos em subterfúgios tecnológicos, perdemos assim a chance de sermos mais "humanos".
No artigo de hoje, vamos refletir melhor sobre a relação entre o auto conhecimento e a tecnologia que nos cerca.
Na busca pelo auto conhecimento, tão importante para um crescimento individual que, por sua vez, refletirá em uma sociedade melhorada, a tecnologia ajuda ou atrapalha?
Afinal, considerando que a tecnologia é uma realidade em nossas sociedades e que, dificilmente, pavimentaremos nossa via para o futuro sem ela, devemos refletir melhor sobre o seu papel em nosso cotidiano.
Para tal empreitada, sugerimos retomar às raízes da filosofia, tomando emprestado a biografia e a filosofia de Sócrates, um dos primeiros pensadores que entenderam que só conhecendo a si mesmo o mundo se revela como ele realmente é.
Mas é sempre bom recordar que o auto conhecimento é figura farta na história da filosofia, com vários autores que se debruçaram sobre o tema, trazendo diversos pontos de vistas e novos olhares sobre este assunto tão importante.
Então, conhece a ti mesmo e, tenha uma boa leitura!
Sem dúvida nenhuma nós, como seres humanos, temos muitos motivos para nos orgulhar, pelo menos no que tange nosso conhecimento aplicado, a chamada "ciência" cujo o principal fruto se mostra na tecnologia, o braço aplicado da ciência.
Foi por meio da ciência e de sua aplicação em nosso dia a dia que chegamos aos confins do universo, desenvolvemos tratamentos eficazes e descobrimos curas para muitas doenças, desenvolvemos vacinas para prevenção de moléstias, assim como, exploramos todo o nosso planeta, do mais alto pico ao mais profundo oceano, também desvendemos os mistérios do mundo quântico, entre outros feitos maravilhosos e surpreendentes que devem ser exaltadas como grandes feitos da humanidade.
De fato, os últimos 100 anos são uma era onde a humanidade avançou bastante em seu conhecimento da realidade e na aplicação da ciência, que gerou incontáveis dispositivos, sem os quais, fica difícil imaginar a vida sem hoje em dia.
Estes aparatos tecnológicos melhoram a nossa capacidade de comunicação, interação, registro, informação e reconhecimento de tudo que nos cerca, é incrível pensar que um simples celular contém todo o conhecimento humano, bem na palma de nossas mãos, com a internet.
Aliás, vale a pena citar que em nosso espaço temos um ensaio especial sobre o papel da internet em nossas sociedades tecnológicas/digitais com o artigo, O PAPEL ÉTICO/MORAL DA INTERNET NAS SOCIEDADES DIGITAIS, publicado em 11/12/2021, lá discutimos as implicações ética/morais da internet, um dos principais feitos tecnológicos alcançados pelo ser humano e que abrange grande parte das nossas vidas nas sociedades modernas.
Não obstante, mesmo reconhecendo todas as vantagens inegáveis que a tecnologia nos trouxe, a despeito de toda esta euforia tecnológica, a pergunta do filósofo persiste:
Excetuando as aplicações práticas da tecnologia, em que nos ajuda toda esta tecnologia quando falamos em um aprimoramento ético/moral?
Afinal, não podemos ignorar que, envolvida no otimismo exagerado de seus correligionários, que supõem ser a tecnologia a grande fonte de "bondades" para os seres humanos, a tecnologia é largamente utilizada para fins não tão nobres assim.
No senso comum reina a ideia de que a tecnologia só produz coisas boas e producentes, que dão sentido à jornada humana e que preenchem as lacunas dos problemas morais que nos acompanham, desde os primórdios da humanidade, até os dias de hoje.
Tem-se assim uma ideia "romantizada" da tecnologia, como se as promessas de uma vida facilitada e livre de dilemas éticos fosse, não somente alcançável, como também disponível e acessível para toda a humanidade.
Esta visão "otimista" da tecnologia é uma concepção inocente da mesma, primeiramente, porque desconsidera uma realidade político/social, fundamentada por sua vez, em uma conjuntura neoliberal capitalista que nos obriga a levar em conta a posição social dos sujeitos, ou seja, a tecnologia não será para todos, mas sim para aqueles que puderem pagar por ela, imaginar uma utopia tecnológica onde viveríamos em uma sociedade em que todos os membros teriam acesso aos mesmos benéficos é de uma inocência comovente.
Em seguida, é uma visão inocente e comovente da realidade porque, como a conhecemos, a tecnologia é também um instrumento na produção de soluções esvaziadas de sentido, que em nada ajuda nos problemas fundamentais humanos.
A tecnologia é abundantemente usada para para amenizar uma angústia humana que simplesmente não nos abandona, mas ela faz isso não por meio de uma busca autêntica de um conhecimento aprofundado, que nos melhore como seres humanos, ela faz justamente o oposto disso; trabalha incessantemente na produção de entretenimento barato, drogas entorpecentes, discussões banais e sem sentido e na produção de bens de consumo.
Destaca-se novamente uma certa inocência utópica quando imaginamos para o nosso futuro uma sociedade que só usará a tecnologia para fins nobres, voltados para um crescimento social, de todos os membros da sociedade, que visa educar, de forma crítica e emancipadora, seus cidadãos ao incorrer em um esmerilhamento ético, amenizando as injustiças sociais, a aplacação da fome e das misérias humanas, no fundo, todos nós sabemos que, pelo menos em nossa atual conjuntura, seria impossível o uso da tecnologia nestes termos.
Do jeito que está hoje, a tecnologia mais nos atrapalha do que nos ajuda, serve diretamente a incessante produção e consumo de bens que em nada acrescentam para um aperfeiçoamento ético de nossas sociedades, assim sendo, ela é uma ferramenta voltada a fomentação do consumismo exagerado e sem sentido no qual estamos profundamente mergulhados, assim como, na produção de distrações e entretenimento raso, servindo diretamente à indústria cultural e, não podemos deixar de citar que, ela é largamente usada na pesquisa e na produção de drogas entorpecentes.
Em outros termos, mesmo que se reconheça os grandes avanços que a tecnologia nos proporcionou e nos proporciona até hoje, devemos trazer à baila a incômoda verdade de que a forma como utilizamos todo este avanço, pelo menos no que diz respeito ao uso em larga escala, é problemático, supõe sempre o uso estritamente pragmático, visando produzir lucros financeiros para grandes grupos corporativos e/ou uma ferramenta de alienação dos sujeitos, em sua constante fuga da realidade.
O sujeito moderno busca a sua felicidade fora de si, se valendo da tecnologia e dos seus frutos, mergulha sem nenhuma reflexão nas drogas, nas distrações vagas, nos gadgets, em qualquer aparato ou produto tecnológico que lhe proporcione uma fuga de si e de sua realidade intrínseca.
Com tantas fugas perdemos a chance de praticar a nossa humanidade, em outros termos, buscamos, em nossas fugas, escapar da vida em si, das intempéries do viver.
Por todas estes motivos, que estamos vendo até aqui, vamos percebendo que a tecnologia, pelo menos da forma que ela é usada em nossas sociedades modernas, mais nos atrapalha do que nos ajuda na busca por um auto conhecimento.
Dado esta conjuntura, como poderíamos fazer um uso mais proveitoso de toda a tecnologia e do conhecimento possibilitado por ela em nossa vivência e usá-la de forma mais propositiva e menos alienante?
Como fazer uso da tecnologia para uma reflexão aprofundada sobre nós mesmos, na busca por um autoconhecimento que eleve a nossa humanidade?
É sobre isso que vamos refletir na parte final de nosso artigo de hoje.
...
O autoconhecimento é tema recorrente na história da filosofia, isso porque a busca por uma felicidade autêntica não se encontra fora de nós, muito pelo contrário, ela está em nós, brota de nós como um pensamento reflexivo, ou seja, um pensamento que vai ao mundo e retorna para nós.
Em muitas correntes filosóficas se destaca a preocupação com a felicidade(auto conhecimento) e com o bem viver(comportamento ético), valorizando e preservando a nossa "humanidade", ou seja, não é uma visão que tente encontrar meios de disfarçar o que a vida tem de mais angustiante, como o medo da morte, por exemplo;
mas encara vida com tudo que ela tem de melhor e de pior, um pensamento assim tão franco e visceral não tem por meta nos tornar mais eficazes ou mais rentáveis, mas sim nos tornar mais felizes, sinceramente felizes e mais sociáveis, genuinamente preocupados com a vida de todos os membros da sociedade.
Um pensamento filosófico, crítico, sincero e sem dogmas pode nos abrir os olhos para que percebamos que algo em nossas sociedades modernas não está bem, mesmo que muitos de nossos membros acreditem que estamos no "melhor que podemos ser" encantados com a tecnologia que nos cerca confundem um desenvolvimento ético com um desenvolvimento científico.
Assim, mergulhados neste otimismo tecnológico o sujeito moderno supõe estar no apogeu de seu desenvolvimento em todas as instâncias da vivência humana, ou seja, iludido pela tecnologia e suas possibilidades pensa que sabe o que, em fato, não sabe.
...
Na Grécia antiga, uma das inscrições que adornavam o Templo de Apolo em Delphos era:
Conhece-te a ti mesmo, um jeito de filosofar.
Foi neste templo que Querofonte, um dos discípulos de Sócrates fez a pergunta que inauguraria um novo jeito de filosofar, ele perguntou à sacerdotisa quem era o homem mais sábio da Grécia.
A resposta do oráculo foi precisa e resoluta; Sócrates, disse a oráculo, Sócrates é o homem mais sábio da Grécia.
Não tardou para a notícia começar a se espalhar pela Grécia e chegar aos ouvidos do próprio Sócrates que não assimilou muito bem esta afirmação, por isso passou ele mesmo a procurar um homem que fosse mais sábio do que ele, o verdadeiro homem mais sábio da Grécia.
é importante contextualizar que a Grécia dos tempos de Sócrates era uma lugar de muita eferverscência; política, cultural e artística.
Atenas vivia em um período de puro esplendor democrático, um período de ouro tanto militar quanto cultural, as Ágoras gregas eram frequentadas por heróis de guerra, grandes pensadores e políticos, pessoas cheias de fama e glória.
Foi neste ambiente de grande pujança cultural que Sócrates viabiliza sua busca pelo homem mais sábio do que ele, e faz isso conversando com os frequentadores das Ágoras.
Sócrates aborda seus interlocutores de acordo com a fama que eles têm, ou seja, quando interpela um grande general busca saber dele o que é a coragem, quando conversa com um sacerdote procura saber o que é a piedade, quando aborda um político quer saber deste o que é a justiça e assim por diante, em suma, Sócrates inicia a busca pela "essência" das coisas.
Mas tudo que Sócrates constata com seus interrogatórios é que as pessoas sabem muito bem o que fazem, mas não sabem o que guia as suas ações, ou seja, quando pergunta para o general o que é a coragem recebe como resposta exemplos de coragem, técnicas de guerrear, formas de vencer oponentes, mas não consegue estabelecer o que é a coragem, ou seja, não consegue estabelecer o porquê luta.
Com um estilo incisivo, de muitas perguntas e aprofundamentos, Sócrates levava seus interlocutores à exaustão, ao ponto dos próprios entrevistados desistirem de tentar definir a essência das coisas do que, até então, julgavam ser grandes conhecedores, neste ponto, os próprios entrevistados reconheciam que, em fato, eles não sabiam o que julgavam saber.
Em outros termos, eles reconheciam, por si mesmos, que viviam até então sem saber, achando que sabiam.
A constatação da própria ignorância, promovida pelo método socrático, não era uma coisa agradável de se tomar consciência, inicialmente, porque se constata ser ignorante 2 vezes, primeiramente, vive sem saber das coisas e, em seguida, percebe que não sabia que não sabia, estava inconsciente, até então, de sua própria ignorância.
Sócrates então percebe que para ser um sábio realmente precisava se livrar de sua segunda ignorância, ou seja, precisava reconhecer que se é um sábio por reconhecer que nada sabia.
A partir daí Sócrates vai evitar viver uma vida de ilusão, supondo saber algo que em fato não sabia, ao invés disso, vai optar por tomar consciência de sua própria ignorância e, a partir desta consciência de si, partir para uma vida virtuosa na busca pelas verdadeiras ideias que o guiariam na vida.
Para Sócrates o ser humano deve assumir o seu lugar na natureza; o lugar de não se prostrar frente à natureza como um deus.
Conhece-te a ti mesmo, inscrição do Deuphos grego, portanto, reflete o verdadeiro lugar do ser humano na Terra; uma posição frágil, de não-ser e, por consequência, de nada saber.
Sócrates, depois de todos estes acontecimentos, tomou para si a missão de tentar transformar seus conterrâneos em verdadeiros sábios, tomando uma via virtuosa de auto conhecimento, o que mudaria por consequência toda a sua cidade no caminho do bem.
Mas o que de fato aconteceu foi que Sócrates e seu meio persuasivo de fazer as pessoas tomarem consciência de sua ignorância não era tão libertador quanto Sócrates esperava, pelo menos em um primeiro momento, na verdade, ciente de sua completa ignorância frente a existência, as pessoas ficavam extremamente desconfortáveis.
A constatação de uma condição demasiada humana, a saber, a completa ignorância frente as coisas que se julgava saber, causava em muitas pessoas abordadas por Sócrates uma sensação de desamparo, neste estado; perdidos, desamparados e conscientes de sua própria ignorância só restava para estas pessoas um auto exame, voltando os olhos para a sua própria vida, sem apelar para subterfúgios de nenhuma espécie.
Esta busca pessoal, causado por Sócrates e seu método, era uma tarefa sem fim , afinal, ao ser humano jamais será concebido a dádiva de ser um deus, ou seja, o ser humano nunca vai sair de sua condição humana.
O cerne da filosofia de Sócrates é de que mesmo nesta condição miserável, onde se toma a consciência de sua pequenez frente aos mistérios do mundo, vale muito mais a pena viver uma vida de busca constante, de trabalho sobre si mesmo do que uma vida de engodo, acreditando que se sabe o que de fato não sabe.
Platão, em Apologia de Sócrates, quando vai se referir ao seu mestre cita:
A vida sem exame não vale a pena ser vivida.
Ou seja, a única vida que vale a pena ser vivida, uma vida virtuosa, por assim dizer, é a vida de um autoexame constante, a vida que se dispõe a pôr sobre si mesmo o julgo de uma crítica contundente, do exame das atitudes, das ações, do constante duvidar, da constante busca pelo bem.
Este é o princípio da filosofia que é "amante da sabedoria", mas note o leitor que o amante, no sentido platônico, é o amante que deseja justamente o que não tem, por isso está em um indelével de trabalho sobre si mesmo, por meio do autoexame e da eterna busca.
Sócrates vem nos mostrar que, ao julgarmos que sabemos, na verdade, estamos apenas vivendo mal, vivendo uma vida que não se volta para si e se baseia em mentiras.
Como uma suposta solução para esta verdade incômoda propõe um caminho que nunca se finda; a via do autoexame.
Assim, propõe o método socrático, primeiramente, um voltar os olhos para si mesmo, para a sua própria condição no mundo, uma condição de pura ignorância soberba que nos faz acreditar que sabemos o que de fato não sabemos, na sequencia, propõe refletir e meditar sobre nossas ações e nos motivos que as movem , são ações boas ou más? São virtuosas ou desvirtuosas? Dignas ou não?
é obvio que Sócrates foi criticado e questionado história afora, depois que sua filosofia se consolidou nos anais da história, mas, goste-se ou não deste grande pensador, uma coisa é certa:
Ele fez de sua filosofia o seu estilo de vida e morreu pelo que acreditava ser o certo, quando o desconforto venceu a virtude na busca pela verdade das coisas e aqueles que se sentiram incomodados pelo jeito "socrático" de investigar a realidade condenaram Sócrates à morte por envenenamento.
E Sócrates, convicto no que acreditava, preferiu morrer tomando uma taça de cicuta do que se render as condições daqueles s que o julgaram e o sentenciaram.
....
Sócrates nos ensina que a soberba moderna, baseada na ciência e na tecnologia, não faz outra coisa senaõ escamotear nossa vivência e entopercer nossas vidas em engodos estruturados.
A tecnologia faz o moderno acreditar que sabe tudo sobre a realidade, sendo que os problemas fundamentais da humanidade continuam a nos assolar, tudo que fazemos é nos enganar, supondo que os avanços tecnológicos são suficientes para uma vida virtuosa.
Na verdade, com toda esta enganação, tudo que conseguimos foi piorar os problemas psico/sociais dos membros de nossas sociedades, não é à toa que é na modernidade que verificamos o substancial aumento de neuroses e outros problemas de ordem psicológicas.
Mas, como vimos nesta breve introdução sobre Sócrates, tomar a consciência de sua própria condição pode ser doloroso para muitos e perigoso para quem alerta.
Não obstante, é fundamental esta "tomada de consciência" de nossa própria condição de ignorância, somente assim poderemos fazer da tecnologia uma aliada na busca constante por auto conhecimento no engendramento de uma sociedade melhor, virtuosa e justa.
![]() |
| O trabalho sobre si mesmo é o mais difícil e, neste trabalho árduo e infindável podemos ter a tecnologia que nos cerca como aliada ou como inimiga; tudo é uma questão de escolha. |
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
E aí, gostaram do artigo desta semana?
Esperamos que sim!
Bem, já que nosso artigo de hoje ficou um pouquinho grande e considerando que não temos nenhum recado especial para dar hoje, só nos resta desejar para vocês uma boa semana, produtiva, de muito autoconhecimento e esmerilhamento ético aproveitando muito bem a tecnologia que está a nossa disposição e, semana que vem, nos encontramos aqui novamente.
Combinado?
Então, até lá e cuidem-se!!!!









.jpg)


Comentários
Postar um comentário