... E VOCÊ, TEM SAUDADE DE QUÊ?
Olá Escritores !!
Prontos para o artigo desta semana ??
Semana passada, em nosso artigo ARTE PARA NOS TRANSFORMAR , falamos da arte, um tema que abrange uma característica bem humana, que nos define como tal.
Esta semana continuaremos falando de aspectos ontológicos da estrutura humana, em outras palavras, vamos falar de emoções que você, como o ser humano que você é, já sentiu com certeza!
Hoje, vamos falar da Saudade.
Você já sentiu saudade de alguém, de alguma coisa ou de algum lugar?
Dói né ...
A saudade é um dos sentimentos mais nobres do ser humano, conforme vamos conferir em breve, mas, como tudo em nossa era líquida, verificamos que os valores verdadeiramente nobres estão sendo negligenciados, dê uma olhada a sua volta, reflita sobre as nossas sociedades e o que é considerado elevado para nós.
A nossa sociedade ocidental tem algumas características bem marcantes, já falamos muito delas aqui no Blog, vamos relembrar alguns dos atributos mais marcantes de nós mesmos:
Somos teocráticos por excelência, regidos por uma fé cega na ciência e seus feitos;
vivemos amontoados em grandes cidades, esvaziados de relações humanas autênticas;
somos incitados, o tempo todo, por estímulos nervosos que nos empurram para uma existência vazia de sentido;
somos regidos por um consumismo vertiginoso, consumismo este que gera uma massificação da cultura;
possuímos uma mente embrutecida pela espetaculização da realidade, que por sua vez, fomenta a banalização da violência transmitida nos jornais sensacionalistas;
em nossa vivência, há um império de uma dinâmica da superficialidade o que reforça ainda mais a nossa indiferença sobre tudo;
estes, entre outros aspectos, definem bem nossa contemporaneidade.
Com tudo isso há um empobrecimento do valor simbólico de nossa cultura e somos nós o fruto de tudo isso que mencionamos acima.
E são por essas condições que chamamos a sua atenção para a importância de significarmos uma manifestação genuinamente humana como a saudade, uma manifestação que nos retira, mesmo que por um breve momento, da cotidianidade cruel de nosso dia a dia desprovido de sentido.
Nossa intenção, com o artigo de hoje, é trazer à tona aspectos de nossa interioridade que estão recalcados pelo nosso artificialismo, vulgaridade, indiferença, pressa e alienação perante a existência.
Por isso, a exemplo do que fizemos semana passada, quando falamos da arte, estamos trazendo mais um tema da intimidade humana, para desacelerar um pouco e refletir sobre o que é realmente importante em nossas relações interpessoais.
...
Além de sentir a saudade e os seus efeitos,alguma vez na vida você já parou para pensar sobre a saudade?
Se você nunca pensou na saudades nestes termos aproveite a oportunidade e tenha uma;
Boa leitura !!
Não importa aonde você esteja, pode ser em uma reunião de família, um encontro com os amigos, no trabalho, na escola, enfim, em qualquer lugar, em qualquer situação, se alguém tocar no tema "saudade" sempre haverá uma pessoa que dirá:
-você sabia que a palavra saudade só existe em português.
Certamente, você já ouviu essa né, de que a palavra "saudade" só exite em português, certo ?
Isso pode até ser verdade, mas o fato é que qualquer ser humano, em qualquer lugar do planeta e falando qualquer idioma, em certo momento da vida sentiu, sente ou vai sentir uma falta imensa de alguém, de alguma coisa ou lugar.
O termo "saudade" costuma a ser atribuído aos portugueses pela aglutinação dos termos "solidão" e "saudar" e também por ser o povo português um povo saudoso por natureza, basta ler os poemas portugueses para se constatar isso, mas, é evidente que todo o ser humano sente falta de algo ou de alguém e não somente os portugueses.
A saudade, portanto, é universal e ela é a "estrela Dalva" da ausência.
Quando sentimos saudades o Eu-saudoso é retirado de seu estado consciente e exprime uma preferência por algo já vivenciado e atualmente ausente.
O passado assim é rememorado, não como uma lembrança vã ou corriqueira, mas sim em uma conexão direta com os afetos, esta conexão inclusive é a "ponte" entre as memórias afetivas (o passado rememorado) e o presente.
Todos nós passamos por isso e, às vezes, (muitas vezes, eu diria) somos levados a estes estados por meio de certos "gatilhos".
Quando achamos uma foto velha no fundo da gaveta, por exemplo, ou ouvimos uma música que nos trazem lembranças especiais ou sentimos um cheiro de infância, enfim, são 1001 formas de ativar em nós os sentimentos que chamamos de saudade;
a saudade é aquela conexão especial entre passado e presente.
É importante também esclarecer que neste estado de consciência o tempo, como o concebemos normalmente, não conta.
O tempo vivido do Eu-saudoso não é medido cronologicamente e isso porque a experiência da saudade é uma experiência de consciência pura, ou seja, quando contemplamos uma foto que nos causa uma saudade colocamos a realidade sob parenteses e trazemos à consciência a vivência de épocas passadas, muitas vezes, quando olhamos aquela foto que nos surpreendem e nos enche de saudades podemos até mesmo sentir os aromas do dia da foto, sentir o calor do sol, a presença das pessoas, rimos sozinhos lembrando o contexto da foto, enfim, o tempo nesses estados é colocado em suspensão, por isso o tempo é re-significado nessas condições.
A saudade é um sentimento poderoso, justamente por conseguir subverter a suposta irreversibilidade do tempo, ela é uma força vital que nos humaniza e atinge dimensões de nossa "essência humana" que, muitas vezes, não alcançamos quando estamos mergulhados em nossas rotinas.
Outro aspecto marcante da saudade é sua estreita ligação com o amor, afinal, só sentimos saudades do que amamos, do que causou em nós sensações agradáveis.
Amor + Ausência = Saudade.
Quando sentimos a falta do ser amado o invocamos e o saudamos simbolicamente e isso nos faz refletir, pois, nos sentimentos da saudade pensamos todo o contexto das situações de nossa separação, assim, sentimos com mais intensidade.
Toda esta dinâmica é alimentada pela ausência e pelo amor, assim, se fizermos um exercício de imaginação para ilustrar as causas do amor saudoso, podemos imaginar uma uma linha reta desenhada em uma folha de papel em branco, em uma das pontas dessa linha temos o ente que provocou a vivência, cravada na memória que sente a ausência e, na outra ponta da linha, a tristeza(o sentimento) imprimida na psique do indivíduo, no meio de nossa linha colocamos a alegria, mesmo que momentânea, pela a recordação e pela esperança no reencontro com o objeto desejado.
O que vamos percebendo, conforme avançamos em nossa investigação é que a saudade é um misto de muitos sentimentos difusos;
ela é amor, ausência, recordação, tristeza e alegria tudo isso ao mesmo tempo!
E ela é isso mesmo! Um genuíno conflito sentimental que se inicia na inconformidade de uma lembrança intermitente e a situação real e concreta, que é a ausência do ser amado.
A saudade nasce da vontade de união com algo que amamos.
Ela é confusa, ambivalente, dinâmica, conflituosa e paradoxal... é ou não é uma manifestação humana, demasiadamente, humana ?
A saudade é um anseio em estar próximo de alguém ou de algo que gostamos muito e com o qual nos apartamos a muito custo, e assim sendo, a saudade é um sentimento agregador, pois une e religa indivíduos separados e, ao reforçar esses laços, reforçamos nossa individualidade por meio de nossa identidade, reconhecida no ato da saudade.
É mais um processo da estruturação humana que parte do individual para o coletivo, em outros termos, a saudade é uma manifestação de comunhão entre subjetividades unidas pela experiência da falta, é um evento social, mesmo que parta, em princípio, de uma subjetividade.
Até mesmo os mais antissociais dentre nós - eu, por exemplo - somos capazes de entender o que é ter em nossa companhia uma pessoa da qual sentimos prazer em estar junto, conversar, socializar, em outros termos, todos nós temos pessoas, bichinhos, lugares e objetos especiais, dos quais fazemos questão de estar perto.
É por esta sensação agradável da companhia de certos entes que nutrimos em nós a vontade de encontros periódicos com estas companhias, mas, quando por qualquer motivo, somos privados de tais companhias sentimos a saudade como uma ferida aberta, uma crise existencial da qual somos incapazes de sair.
E isso se dá porque a ausência do ser amado desperta em nós o reconhecimento da alteridade do ser com o qual nos afeiçoamos;
a saudade é a presença de uma ausência.
É a dor da saudade que nos permite reconhecer o valor do outro que, muitas vezes, no decorrer de nossa vida agitada não reconhecemos, é ela que nos traz à condição de humanidade, pois permite reconhecer o digno valor de uma presença, por isso a saudade é uma experiência que nos completa existencialmente.
E mais, a saudade é algo de sublime no panteão das emoções humanas isso porque ela direciona nosso amor ao outro e nos tira, mesmo que por poucos instantes, da tóxica subjetividade moderna que poe o ego acima de tudo, desejamos o outro para sermos completos novamente, para sermos preenchidos.
Existem outras características da saudade e do Eu-saudoso que valem a pena levantar em nossa breve investigação;
a saudade não é algo de uma representação humana, ela se inclui mais na ordem de uma vivência humana, ou seja, não está inscrita meramente no âmbito de uma análise psicológica, isto é, a saudade possui em si, algo que ultrapassa a esfera da individualidade ela está no âmbito do que poderíamos chamar de "essência humana", melhor dizendo, sua manifestação se dá no bojo do que se pode considerar humano, é uma manifestação que, assim como a arte - que vimos semana passada - se encontra na esfera da ontologia, na fina ligação do que é humano com o Ser.
Por isso a saudade é algo que simplesmente acontece, não precisamos pensar na saudade para senti-la, ela simplesmente acontece no âmbito de nossas representações simbólicas, aliás, muitas vezes, se tivéssemos o controle sobre essas emoções, preferiríamos não sentir saudades, mas a saudade é indiferente as nossas volições, ela acontece quando tem que acontecer, simples assim!
Portanto, não somos nós que jogamos com ela, ao contrário, é ela que nos faz de meros espectadores de seus efeitos, faz de nós simples joguetes em suas mãos, ela nos retira - na marra - de nossos supostos estados de consciência, nos retira da ilusão do Eu-absoluto.
Ora, se a saudade é um amor direcionado ao outro, como estamos verificando, nada mais natural do que estarmos falando de uma emoção que não obedece a ninguém e muito menos a ilusão do ego.
A saudade aparece quando ela quer não quando nós queremos, ela não está no plano da psicologia, nem mesmo no plano da gnosiologia, mas sim no plano do ontológico.
E não se trata de uma simples lembrança de algo passado, é muito mais do que isso, ela toma por comunhão um tempo passado que possui uma significância para o Eu-saudoso, trata-se de uma esperança, por assim dizer, de que o tempo desta união seja revivido, a memória da saudade que pulsa em nós intensifica um passado na esperança de uma futuro vindouro.
É por isso que o Eu-saudoso é um ser de esperança, é a saudade que nos concede a expectativa de que viveremos novamente os tempos de que se tem saudades;
é disso que se trata o que popularmente chamamos de matar saudade, desfrutar novamente a presença agradável de alguém de algum lugar ou de alguma coisa, enfim matar a saudade.
E esta vontade de "matar a saudade" constitui-se em uma força de ação que nos ajuda a suportar, justamente, a falta e o vazio causados pela ausência, ela é assim uma força positiva que nos impulsiona a perseverar na vida para que possamos, em um futuro, obter novamente o prazer de determinada companhia que perdemos pelas inúmeras circunstâncias da vida.
Mesmo que soframos pela saudade e pela ansiedade que ela nos causa pelo desejo de rever o que perdemos, é ela que nos dá também o ímpeto de continuar nossas batalhas diárias para que o instante de felicidade possa novamente ser vivido, além disso, a saudade nos causa certo desconforto aceitável que nos lembra várias coisas importantes como, por exemplo, o valor dos momentos que passamos com quem gostamos, a efemeridade da vida e de sua importância, o valor das relações e dos pequenos momentos;
Tudo é re-significado na saudade.
No entanto, a saudade pode adquirir aspectos negativos, quando não existe a possibilidade de "matar a saudade", quando a expectativa do reencontro é frustada e a alegria do passado, rememorado tantas vezes, não vem, quando o Eu-saudoso não consegue sair de seu estado melancólico, mesmo que se reencontre com o objeto desejado ...
Nestes termos, a saudade pode ser uma força perniciosa, pois ela deixa de ser uma manifestação de união entre duas consciências e passa a ser um desejo de reviver uma situação que não poderá mais ser consumada.
A ponte(a conexão) entre o passado e o presente se quebra e a partir daí esta manifestação não é mais uma saudade, passa a ser uma nostalgia e o Eu-saudoso, Eu-nostálgico neste caso, está preso no passado rememorado.
A nostalgia também é um sentimento filiado ao poder da memória, mas se diferencia da saudade porque quando o Eu-nostálgico reencontra seu objeto de saudade seus tomentos morais não cessam, ao contrário, se intensificam.
Em fato, o Eu-nostálgico está preso em um passado, ele tem uma extrema dificuldade em aceitar o presente, dá mais ênfase ao passado glorioso do que ao presente.
A principal característica do nostálgico é não aceitar as condições da vida presente, por isso ele direciona sua consciência para um passado repleto de alegrias, a felicidade só pode ser encontrada no passado, nunca no presente.
O nostálgico está em um perene estado de luto, uma melancolia está sempre presente em seu espírito, o estado de felicidade que ele busca nas lembranças só podem ser encontradas na memória, daí uma frustração constante se acampa.
A nostalgia é uma faceta da saudade que em si não é problemática, nós podemos, invariavelmente, nos sentir em estados nostálgicos, até aí sem problema, mas, quando o indivíduo não consegue mais sair de um estado de nostalgia a saudade adquire caracteres negativos.
Há casos em que o desejo de reviver experiências passadas é tão forte, o indivíduo está tão preso ao passado e suas sensações, que ele simplesmente ignora situações do presente.
Isso pode se tornar um problema quando o indivíduo nostálgico é impedido de um desenvolvimento criativo que o impede de atos edificantes no presente, tornando-se um prisioneiro de um passado cristalizado
...
Apesar dessa característica negativa da nostalgia é preciso deixar claro que, assim como a saudade, a nostalgia - na dosagem certa - é também uma força humana positiva, enriquecedora e necessária, sem ela estaríamos atados a um presente automático, indiferente e superficial, a saudade, juntamente com a nostalgia, enchem de significado a nossa existência, nos retirando da automatização de nossas rotinas acachapantes.
Esperamos que agora, munido de todas as reflexões que fizemos sobre este tema tão humano, que você dê mais valor para as relações positivas da sua vida e ame com mais intensidade aquelas pessoas, bichinhos, coisas e lugares que você sabe que se estivessem longe, certamente, você sentiria saudade, ou, dito de outra forma:
Viva com mais intensidade os momentos de quem está perto de você e, se for inevitável a separação, viva a saudade como uma força agregadora e edificante!
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| ... e você, tem saudade de quê? |
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E aí, gostaram do artigo desta semana ?
É muito gratificante falar de temas relacionados a nossa humanidade, afinal, estamos muito desumanizados ultimamente ...
Muitas vezes, somos tomados por sentimentos, como a saudade por exemplo, e nunca refletimos melhor sobre o que sentimos.
Hoje porém, falamos profundamente sobre um sentimento que atinge a todos nós, todos nós sentimos saudades, mas agora sabemos que ela é um sentimento nobre, que direciona nosso amor para o outro e nos humaniza.
Como fonte para o artigo que você acabou de ler usamos, principalmente, o livro de Maria Tereza Noronha A SAUDADE - CONTRIBUIÇÕES FENOMENOLÓGICAS, LÓGICAS E ONTOLÓGICAS, além de outras fontes como artigos sobre o tema, blogs, sites, arquivos em pdf entre outras fontes.
Esperamos que você tenha gostado do tema desta semana e, semana que vem, nos encontramos aqui novamente;
até lá e cuidem-se !!









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