A GAROTA VIVIFICANTE
Olá Escritores !!
Prontos para o artigo desta semana??
Semana passada, em nosso artigo ÉTICA VERDE - A TEIA DA VIDA, falamos de uma teoria filosófica/política que visa uma nova forma de lidar com o mundo que não seja tão agressiva e indiferente quanto a atual.
afinal, todos nós compartilhamos de uma sensação forte de que nosso planeta e nossas sociedades não estão bem.
Este é um assunto que consideramos gravíssimo e que exige uma abordagem séria, com rigor e clareza e, certamente, nos aprofundaremos neste assunto brevemente.
Hoje porém, propomos uma leitura mais leve e fluída, além de uma estreia aqui no Blog.
Hoje publicamos nosso primeiro CONTO!
A história de uma menina com uma habilidade incrível; a habilidade de vivificar as coisas!
Então, sem mais enrolação, vamos conhecer A GAROTA VIVIFICANTE!
Boa leitura e divirta-se!!!
PRÓLOGO
AMIZADE COM PÁSSAROS
...
CAPÍTULO I
Manuela dizia para a sua mãe que sua boneca estava doente, pedia auxílio, não sabia o que fazer.
A mãe atendia prontamente! Estava sempre disposta a ajudar a filha com as emergências da boneca, pegava a pequena Ariel com delicadeza, a deitava em almofadas macias e dizia em um sussurro:
- Ela precisa descansar, vamos fazer silêncio e cobrir ela - Manuela concordava, corria para pegar a flanelinha que servia de coberta.
Não se sabe se foi pela dedicação da mãe ou um dom natural, mas a menina foi aprendendo a vivificar as coisas; no mundo de Manuela as coisas tinham vida!
- A festa vai começar! - dizia Manuela para as bonecas espalhadas pelo quarto.
O tempo ia passando e Manuela ia crescendo... Na escola, certa vez, uma menina mais velha tomou-lhe a bonequinha das mãos e jogou-a no chão com truculência, depois a encarou com olhos chispantes e disse com desdém:
- Essa boneca idiota não tem vida, é só um brinquedo estúpido de uma menina estúpida! - Depois lhe deu as costas e saiu com passos altos e um ar vitorioso, seguida pela plateia, ficaram do outro lado do pátio, se entreolhando e dando risadinhas debochadas.
Manuela passou os dedinhos por trás da boneca jogada no chão e a levantou com delicadeza, com cuidado tirou a poeira enquanto falava baixinho:
- Não liga pra ela Ariel, pra mim você está vivíssima! Ela só não consegue ver. Espero que um dia ela supere isso. - Os professores também diziam que a boneca não passava de uma coisa sem vida, Manuela começou a pensar: "como é chato o mundo dos adultos ..." , nada disso abalava a pequena Manuela e as coisas iam ganhando vida.
Logo ela aprendeu a ler e conheceu outras formas de vivificar as coisas;
Conheceu uma boneca de pano falante, um príncipe pequeno de um planeta distante, um garoto engraçado com uma panela na cabeça, uma garota dentuça e seu coelhinho de pelúcia entre tantos outros personagens, todos devidamente vivificados por Manuela.
O mundo de Manuela tinha tanta significatividade e ela passava horas imersa em seu mundinho.
Ela cresceu assim, vivificando as coisas.
...
CAPÍTULO II
Um dia, um pássaro entrou pela janela do quarto enquanto Manuela lia um de seus livros, ficou somente o tempo de tirar a atenção da menina e logo retornou para o pé de acerola frondoso que ficava perto da janela.
Manuela largou o livro e seguiu o pássaro, reparou que havia um ninho, se afastou para não assustar os pássaros, mas voltava para dar uma olhada todos os dias, fazer essa visita foi algo assim de um rito religioso para ela, era o que ela gostava de fazer antes de começar o dia de obrigações mesquinhas.
Com o passar dos dias, Manuela percebeu que toda essa gente vivia sob a força das leis, enquanto nos pássaros, só havia impulsos.
Sua habilidade vivificante a forçou a atentar para a beleza da Natureza, e ela chegou a uma percepção muito particular da Natureza;
Para ela a Natureza não era um amontoado de coisas para gente usar, mas sim uma harmonia de pura poesia.
Havia uma beleza na Natureza, uma luz cintilante que não era da flor, nem das estrelas, nem dos rios, nem dos mares, mas de todas essas coisas, da Natureza inteira!
Percebeu que um mistério vivo percorre tudo, um tremor leve e avassalador.
E Manuela descobriu tudo isso na absurda inconsequência da linguagem secreta dos pássaros...
A partir de então, sempre que não estava presa nas obrigações mesquinhas dessa gente, Manuela ia para o jardim conversar com a Natureza, tinha sorte de ter perto de casa um lugar assim, um grande jardim com flores, um córrego e um pequeno bosque no alto de um monte.
Essa gente não dava importância para o jardim, seus olhos estavam fixos no concreto, no pinche e na máquina, em sua correria ensandecida esqueceram as conexões com o Todo e viravam as costas para o brilho prateado das estrelas, ofuscados pelas luzes artificiais de suas magníficas cidades.
Manuela dava toda a importância do mundo para o jardim, à ela não foi imputada a pressa de sua era e o seu tempo era um tempo diferente dessa gente, seus minutos eram contados por instantes e não por segundos e haviam instantes longos e outros curtos, mas ela não saberia diferenciar uns dos outros.
Encostava o ouvido no tronco de uma árvore e sentia a seiva correr, tão alto quanto o ronronar de um gato, por quanto tempo fazia isso? Não saberia dizer, mas durava o tempo de um instante, disso não tinha dúvida!
Tudo falava naquele jardim; cada folha, cada pétala de flor, cada pedra, tudo enfim lhe cantava uma canção harmoniosa, tudo jorrava vida!
Manuela, já uma moçoila, ia crescendo sem se deixar ser esmagada pela pressa dessa gente, não era seduzida por tralhas, sua habilidade vivificante seguia incólume.
Na luz da vela, nas estrelas do céu, na água, no vento, no sol, em tudo Manuela sentia vida.
Em um dia despretensioso e surpreendente, como todos os outros, Manuela conheceu um rapaz que logo se revelou um vivificante também, ela soube disso porque os vivificantes se reconhecem em uma simples troca de olhares, o nome dele era Francisco ... eu acho ...
Era um rapaz magricela e desengonçado, sem graça e insosso, essa pelo menos era a impressão geral e todos achavam isso, exceto Manuela, e se você não é um vivificante jamais entenderá como era Francisco aos olhos de Manuela, mas tenha em sua conta que em Francisco Manuela encontrou alguém com quem dividir sua solidão.
E não demorou muito para se apaixonarem profundamente um pelo outro, passavam horas no jardim, ouvindo a algazarra dos pássaros, sentindo a brisa na face, vendo os desenhos das nuvens no céu, flutuando ao farfalhar das árvores...
Eles até conciliaram os horários de suas obrigações mesquinhas para terem a tarde livre e poderem vivificar as coisas.
Todos os dias, seguiam pela pequena trilha que levava ao monte, repleto de árvores, ali, sentados ao pé de uma árvore de tronco grosso e sombra farta, cercados de livros, frutas, flores e quitutes, passavam as tardes esperando a revoada dos pássaros e o pôr do sol.
O pôr do sol era o momento preferido dos dois, ver os últimos raios de sol transformando o céu em quadros de sonhar com suas cores indescritíveis, sentir o manto negro da noite cobrir tudo, salpicando o jaz azul de pontos prateados, brilhos de outrora, sentir na face os primeiros ventos frios da noite, aquelas incontáveis sensações e mistérios inefáveis ...
Em uma dessas ocasiões, enquanto apreciavam um daqueles raros espetáculos de um poente rubro contrastando com um azul alaranjado e pássaros voando ao longe em um céu sem nuvens, Manuela quebrou o silêncio contemplativo e falou num devaneio bobo:
- Sempre tem um pássaro voando no pôr do sol ... - Falou e continuou olhando para o horizonte avermelhado, Francisco riu e respondeu baixinho chegando perto do ouvido de Manuela:
- Vai ver eles também gostam do crepúsculo... - Os dois se entreolharam e gargalharam.
E os dias eram assim...
E foram sete anos maravilhosos...
E, em um dia frio e chuvoso de outono, Francisco se foi...
E este foi um dia triste para todo mundo e naquela dor, sentida e dividida entre todos, muitos vislumbraram em si, na forma de um estranho instinto, a lembrança de um antigo pacto com a Natureza há muito esquecido, mas nos dias que seguiram se entregaram novamente aos seus doces venenos.
Neste dia triste, Manuela sofreu tanto e chorou como nunca antes na vida.
Os dias seguintes também não foram fáceis...
Todos ficaram preocupados e apreensivos com Manuela.
Esqueceram ou subestimaram a incrível habilidade dela de vivificar as coisas, caso contrário, saberiam que Manuela não desviaria de sua dor, mas seguiria em frente, ciente e resoluta, atravessaria sua dor e quando finalmente chegasse ao outro lado do processo só restaria vida.
Ela continuava a ouvir com carinho o canto dos pássaros, sentava-se ao pé da velha árvore e sentia a brisa fria na face.
Em dias quentes, aproveitava a sombra das árvores para ler um livro e parava a leitura vez em quando para olhar as nuvens e tentar decifrar suas formas ou observar o trabalho incessante das formigas e das abelhas, depois cochilava ao sabor do farfalhar das folhas.
Todos os dias, religiosamente, voltava de suas obrigações mesquinhas e seguia pela pequena trilha rumo ao monte para aguardar o crepúsculo e, em cada pôr do sol que perscrutava, Francisco estava lá com ela, devidamente vivificado.
Na harmonia da Natureza Manuela encontrou sua paz, aquela luz cintilante percorreu-lhe as fibras e ela sentiu o sopro da vida em si, instintivamente, pousou a mão sobre o ventre e suspirou.
Havia algo de desafiador nessas conversas de Manuela com a Natureza, uma força a atravessava e percorria-lhe sem forma, inexprimível.
Sentia-se partícipe de algo maior e possuía a si própria numa existência contínua, imutável e singular.
E quanto mais envolvida, mais lhe atiçava a curiosidade, isso é sina de quem vivifica as coisas, a sina de ficar preso nesses sítios assombrados da Natureza, preso por vontade própria, cativo como se fica quando se ama e se é amado.
Manuela sorriu e chorou muitas vezes com o passar dos anos, mas nunca perdeu sua capacidade extraordinária de vivificar as coisas.
O mundo malvado nunca conseguiu demover dela esta habilidade, e olha que ele tentou muitas e muitas vezes esmagar sua determinação com a roda da rotina e com as promessas de luzes coloridas, Manuela observava bem o comportamento dessa gente que olhava para os bosques e não via nada além de lenha para queimar, também observava a roda da rotina, girando indiferente e cruel, esmagando as vontades, transformando as pessoas em um mero amontoado de carne sem espírito que anda por aí colecionando coisas de um falso brilho.
Nunca entendeu o desprezo dessa gente para as coisas que realmente importam, enquanto estava presa a suas obrigações mesquinhas observava as pessoas correndo apressadas para lá e para cá indiferentes a tudo, indiferentes uns aos outros, indiferentes ao seus próprios destinos; "falta amor nessa gente" pensava.
...
CAPÍTULO III
O tempo passou para Manuela, inexorável e indiferente como para todo mundo, em uma manha quente de primavera Manuela ouviu o grito estridente vindo do pequeno quarto nos fundos da casa:
-Mamãe a Rebeca tá com febre!!
- Oh não! Precisamos cuidar dela !! - Manuela pegou o kit de primeiros socorros, estrategicamente preparado para as emergências bonecais.
Manuela contemplava a pequena Antônia vivificando suas bonecas, não pôde deixar de ver a si mesma anos atrás, perguntava a si mesma como seria a caminhada de sua filha nesse mundo tão frio, cruel e sem vida, as incertezas eram tantas....
Então, acalmou seu espírito e se entregou à vivificação das bonecas, ficou com Antônia um instante inteiro, quando finalmente encerrou-se este instante Manuela foi até a janela olhou para cima e percebeu um ninho construído, quase no mesmo lugar do outro, no velho pé de acerola.
A lembrança feliz dos pássaros incautos que lhe mostraram a luz cintilante da Natureza lhe sobressaiu sem convite, o pensamento apenas lhe ocorreu sem ser chamado, vindo galopante numa infusão de significatividade aconchegante e arrebatadora.
Os pássaros no ninho se alvoroçaram ajeitaram a plumagem e cantarolaram suas canções com todo o vigor de uma manhã ensolarada, naquela linguagem secreta dos pássaros.
Manuela olhou a pequena Antônia que se empertigou quando ouviu a algazarra dos pássaros e este micro gesto foi suficiente para Manuela constatar sua desconfiança tácita; "ela é uma vivificante igualzinho ao pai", intuiu com a mão pousada no queixo, sorrindo de leve .
Permaneceu observando a filha guardando carinhosamente as bonecas, todas devidamente cobertas e acalentadas, seus olhos brilharam e um sorriso bobo brotou-lhe na face.
Antônia virou-se para a mãe depois de colocar as bonecas para descansar, por um instante, daqueles que não se conta no relógio, mãe e filha se entreolharam e houve mais uma vez aquela conexão indescritível que só os vivificantes podem estabelecer uns com os outros e com o Todo.
Ambas, mãe e filha, sentiram um tremor, leve e avassalador, a lembrança incompreensiva da participação no Todo Misterioso; inóspito, frio e desolador como enfrentar uma tempestade nu e morno, aconchegante e hospitaleiro como um útero materno.
E todas aquelas sensações inexplicáveis e absurdas que só os vivificantes podem sentir.
...
Fim (?)
Nunca é o fim realmente ...
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E aí , curtiram o artigo dessa semana?
Tenho certeza que você se descobriu um vivificante também né?!
é preciso exercitar uma nova sensibilidade para se tornar um vivificante, uma nova forma de sentir e valorar.
E quem me ensinou estas lições tão importantes foi minha sobrinha Manuela, foram as suas brincadeiras com suas bonecas, sua inocência, seu amor e sua imaginação sem limites que me inspiraram a escrever este conto.
Então eu vou dedicar o artigo de hoje para Mauela e, como não poderia deixar de ser, para a sua mãe, minha irmã, Luana, que foi a responsável por me dar de presente uma sobrinha com uma habilidade tão especial, de puro amor e alegria; a capacidade de vivificar o mundo e se conectar com a Natureza.
Neste texto, de alguma forma que eu não saberei explicar, emaranhado em uma profusão de sentimentos e sensações, estão ambas lá; mãe e filha.
O mundo anda cinza demais ... temos que resistir a isto!
Seja gentil com as pessoas e desconete-se um pouco, deixe a Natureza te guiar, precisamos participar do Grande Mistério, certezas e convicções são prisões;
Seja um vivificante!
...
Semana que vem retornamos.
Até lá e cuidem-se !!









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