SHOPPINGS CENTERS - ESTRUTURAS SEGREGACIONISTAS DE NOSSAS CIDADES

 Olá Escritores !!


Preparados para o artigo desta semana ??


Hoje, vamos refletir um pouco sobre nossas relações sociais dadas em nossas cidades modernas e um de seus frutos mais proeminentes nessas relações; 


Hoje é dia de falar um pouco sobre os SHOPPINGS CENTERS e sua simbologia em nossas relações sociais. 


Para além de um simples espaço onde se concentram lojas e se dão nossas relações comerciais com segurança e etiqueta os shoppings centers são, de fato, uma ideologia materializada de produção de signos.


A começar pela configuração de seu espaço físico, que acolhe o usuário, mantendo uma sensação agradável e acolhedora visando passar uma impressão de segurança e de total desligamento com a atmosfera caótica de nossas cidades;


passando pela disposição das lojas e os inúmeros estímulos para o consumo que geram um efeito orgástico em seus usuários e um ímpeto consumista que é instigado, o tempo todo, com vitrines chamativas e bem decoradas, cheiros incisivos e inebriadores, cores e explosões visuais que causam um gozo existencial em seus usuários.


Até chegar a total narcose do espírito, onde, pelo período em que se encontra nas dependências destes estabelecimentos, tem-se a sensação (falsa) de que todos os problemas de nossas sociedades, nossos conflitos, situações desagradáveis e perigos diversos estão suspensos, de fora deste "lugar sagrado".   


Em nosso artigo de hoje, quando abordamos os shoppings centers, estamos de fato mirando em nossas relações sociais no que tange a vivência nos grandes centros urbanos, visamos dar mais um passo na compreensão do que rege nossas relações sociais tácitas, aquelas regras de vivência não-ditas, mas vigentes.


Todos sabemos que as relações sociais nos grandes centros urbanos, são pautadas pela indiferença, individualismo e pela violência (física e simbólica), assim sendo, vivemos apinhados de pessoas em nossas cidades e, mesmo  assim, somos incapazes de construir relações significativas entre nós, os membros destas sociedades.


Desta configuração distópica das relações humanas vão surgindo problemas que se refletem em nossas vivências, desta feita, viver em um grande centro urbano é viver acuado pela violência urbana, estressado no trânsito, respirando um ar poluído, seguir a vida sempre em um estado de urgência permanente, esmagado pelos ponteiros do relógio. 


 

Neste contexto, os shoppings centers são espaços concebidos em nosso tecido urbano que poe sob parêntesis toda realidade que enfrentamos, eles despontam no horizonte de nossas representações como verdadeiros "oásis" no meio de nossas vidas disruptivas;


basta adentrarmos em um shopping que todos os problemas de nossas cidades ficam de fora, não obstante, nestes espaços não temos relógios, o clima é controlado, não há o barulho do trânsito, com suas buzinas impacientes e seus atos de má educação, nestes espaços, sem exagero, nos sentimos como em um útero materno; acolhidos, seguros e acalentados.


Mas, nem precisamos de muito esforço intelectual para percebemos que toda esta sensação de segurança e acolhimento é falsa, toda esta sensação de bem estar visa relaxar o cidadão/consumidor para que ele possa, consumir.  


Quando verificados com uma lupa crítica estes espaços, eles se mostram como espaços segregacionistas, onde, notamos a hierarquia dos olhares, onde se é constrangido à uma etiqueta falsa e narcisista e, onde se é empurrado para um consumo desenfreado e irracional.    


Por isso, em nosso artigo de hoje, decidimos trazer para o cerne de nossa avaliação, a relação com este espaço muito valorizado em nossas sociedades, para que possamos usá-lo de foma mais racional possível, sem nos deixar ser manipulado unicamente por estímulos consumistas e relações esvaziadas de sentido.


Dessas forma, desejamos para você uma; 


Boa Leitura e uma Boa Reflexão!!







 Ao verificarmos a infraestrutura dos grandes centros urbanos, principalmente no que tange a arquitetura moderna dos grandes centros, o que vamos percebendo é a elaboração de uma espécie de "arquitetura do medo", ou seja, nossas cidades modernas nos inspiram um medo constante instigado por uma violência de pessoas que, por um motivo ou por outro, se encontram à margem de nossas sociedades;   


esta forma de encarar nossas cidades, a saber, de forma marginalizada e violenta, vai de encontro com uma ideia de centros urbanos em épocas mais antigas, aqui estamos nos referindo aos últimos 50 anos e as mudanças rápidas e significativas ocorridas neste período.


Em um passado recente, a praça pública tinha um papel mais preponderante na vida social, era lá que as pessoas iam para conversar entre si, ler jornais, ouvir as bandas do coreto, saber das decisões dos centros comunitários entre outras atividades sociais.


Paulatinamente, no decorrer das últimas décadas, as praças públicas deixaram de ser o centro das sociedades e local de encontro, passando a ser frequentadas pela massa de marginalizados que cresceram com as muitas crises que foram se acumulando no decorrer das décadas e as mudanças ocorridas; 


Neste contexto, a urbanização de nossas cidades foi mudando,  houve uma "verticalização" das cidades com a proliferação de prédios altos, condomínios fechados e, claro, os shopping centers; 


em comum, todos estes empreendimentos têm a proposta de "deixar do lado de fora o indesejável", a promessa implícita em todas estas iniciativas supõem total segurança e conforto para seus usuários, na verdade, não se trata de uma segurança em si, já que sabemos que se esconder atrás de muros altos, em nome de uma suposta segurança, não elimina os motivos reais e o agente da violência, mas, dada nossa condição de cidadãos forjados no engodo, contenta-se facilmente com uma  sensação de segurança, mesmo que se saiba ser esta "segurança" falsa. 


Em nome da "sensação de segurança" mais do que da segurança em si elege-se assim a ameaça; 


a ameaça é, portanto, o outro, aquele que vive fora dos condomínios, aquele que não pode frequentar o shopping center;


os economicamente inviáveis são a ameça.


E, quando falamos especificamente de shopping centers, tema de nosso artigo da semana, falamos de uma destas estruturas segregacionistas da modernidade com características bem particulares que podem, a primeira vista, disfarçar seus reais intentos em um verniz de inclusão e preocupação social que, em fato, ele não tem. 


Os shoppings centers são estruturas perigosas em sua apresentação mais abrangente, pois, se mostram como um espaço voltado ao encontro seguro dos membros da sociedades, um lugar aberto, gratuito e seguro onde, teoricamente, qualquer um que cumpra com os rituais de comportamento e etiqueta podem frequentar sem problemas; 


mas, a despeito desta falsa aparência, quando retiramos este verniz o que observamos é a verdadeira face do monstro, despido desta falsa impressão estes espaços são voltados unicamente para o consumismo irracional, são, na verdade, a face excludente do capitalismo tardio que é capaz de embelezar o mais feio nos defeitos, desde que se tenha dinheiro para isso, caso contrário e para uma grande maioria de pessoas, só resta a sobrevivência  nua, crua, violenta e real dos viventes, sem verniz algum.


Às vezes, damos uma volta despretensiosa em um shopping, olhamos a movimentação intensa, centenas de pessoas indo e vindo e nos aprazemos em estar em um lugar tão seguro e agradável, mas poucas vezes paramos para refletir que na proporção inversa das pessoas que frequentam este lugar existem outros milhões que não poderão  usufruir estes benéficos.


O shopping center desponta no tecido cultural arquitetônico urbano como um lugar de securitização da vida pública, tem-se um espaço voltado para segregar a parte afortunada da sociedade da parte desafortunada, em outros termos, a sociedade desenvolveu um lugar para se proteger de alguns membros de sua própria sociedade; 


o shopping center contém em si uma característica muito enganadora, pois, pressupõe que é aberto e gratuito para todos os cidadãos.


É factual que existem alguns grupos de pessoas que não podem frequentar este espaço,  mas esta proibição não é algo oficial, escrito em placas, para que todos possam ler, trata-se de um símbolo, subtendido por todos os frequentadores e cobrado na vigilância  constante, na etiqueta, no comportamento, na vestimenta apropriada, não respeitar estes símbolos tácitos, esta hierarquia, significa a exclusão do espaço.


Assim sendo, o shopping center é sectário no sentido da lógica dos signos do sucesso, ou seja, ninguém diz isso diretamente, mas, está subentendido que, para frequentar o espaço é necessário demonstrar (por meio da etiqueta, da vestimenta e do comportamento) que se está apto a consumir;


Exercendo um controle quase imperceptível sobre seus usuários, imputando os comportamentos aceitáveis de forma sutil e manente na vontade dos indivíduos eles têm a sensação de estarem protegidos das mazelas da violência e, igualmente, têm a sensação de serem capazes fazer as suas escolhas livremente, exercendo assim uma espécie de Falso-arbítrio-econômico.


O que é mais um engodo, pois tudo que estes cidadãos/consumidores fazem é se enquadrar nos grupos pré determinados de consumidores de preferências parecidas para o qual o shopping trabalha constantemente em armadilhas sensoriais preparadas para atraí-los, vai se agrupando usuários em grupos de consumidores com gostos semelhantes e, a partir daí,  vai se direcionando estímulos dos mais variados para agradar, atrair e fazer esses grupos consumirem mais e mais no espaço.


Os shopping centers estão longe de conter em si uma ética da alteridade, tão pouco têm intenções de projetos sociais que visam a integração dos cidadãos em uma grande rede de comunhão e cooperação interpessoal.


A visão abjeta da pobreza e da violência, que nos marca como sociedade, não adentram no sagrado templo voltado ao consumismo e isso é um grande poder de barganha.


Aliás, precisamos falar um pouco sobre esta falsa sensação de segurança, oferecidas por estes estabelecimentos e o principal motivo de nossos deslocamentos para estes espaços;


Esta falsa segurança se dá porque o próprio Cidadão/Consumidor, frequentador do espaço, está sendo vigiado, o tempo todo, mais uma vez observamos a troca incondicional da privacidade em nome de uma suposta segurança.



Entorpecido pela falsa sensação de segurança promovida por estes lugares, não percebe que a dita segurança só se dará no período de sua permanência lá, quando sair dos domínios do shopping e retornar para a sua realidade, será novamente jogado na convivência com seus semelhantes, em sua existência  massificada e indiferente. 


Foi por esta falsa, breve e ilusória sensação de segurança encontradas nos shoppings, um contraponto forte em relação à uma existência massificada, tediosa, cheia de perigos e ameaças que o sujeito moderno se viu com a necessidade de conceber para si uma utopia de um espaço criado sob a lógica do "nós, sem eles", ou seja, uma realidade segregadora que fosse capaz de construir verdadeiros "bunkers", lugares confiáveis e seguros para que quem for capaz de consumir seja atendido em todas as suas necessidades comerciais, deixando assim de fora,  em seu devido lugar, quem não está apto para consumir. 


O shopping center é um mundo hermético, planejado e construído como uma fuga confortável perante o mal-estar contido na vida urbana, nada mais é do que uma ilusão agradável, uma mentira na qual quer se entregar sem contestar.


Rodeado de pobreza e problemas que requerem envolvimento, comprometimento e vivência política prefere se isolar em sua ilha de consumismo e se enebriar olhando as vitrines.


Mas, nos urge perguntar, por que tem que ser assim?


por que os shopping centers não podem ser espaços de uma real mobilização social?


Por que seus entornos não podem ser considerados espaços adequados para manifestações políticas?  


...


Supõe-se que os espaços destinados aos shoppings centers sejam locais voltados a ofertar para o cidadão/consumidor um espaço dinâmico, integrado, confortável e seguro para que este possa circular livremente e escolher o que quiser comprar; 


e qualquer outra finalidade que desvie deste preceito básico seria incompatível com sua real finalidade.


Não obstante, insistindo um pouco mais em nossos questionamentos, não seria possível pensar em uma espécie de "revolução" no uso destes espaços e, de alguma forma, conciliar consumo, cultura, atividade política entre outras práticas realmente inclusivas?


...


Eu gostaria muito de acreditar nesta suposta "revolução", em transformar o templo do consumismo de nossas cidades em um local de real significância, que poderia ser usado, de fato, por todos os membros de nossas sociedades e que fosse um lugar destinado a algo mais do que somente o consumismo desenfreado e o reforço da segregação social, mas não vejo nenhum motivo plausível, em um curto prazo, para acreditar em uma mudança tão radical...


Um dia, quando formos capazes de mudar as estruturas mais elementares de nossas sociedades e deixarmos para trás este modelo ultrapassado e egoísta de conceber o mundo, quando formos capazes de estabelecer um comportamento ético que dê conta de estabelecer os parâmetros do que é ético ou não em nosso tratamento uns com os outros e entre todos os habitantes deste planeta, quem sabe neste dia, poderemos ter lugares climatizados, seguros, dinâmicos para TODOS os membros de nossas cidades;


quem sabe um dia os shoppings centers tenham razão para existir ...


Criados pela necessidade de um lugar seguro para o consumo os shoppings centers acabaram por se transformar em um dos principais vetores segregacionistas de nossas sociedades, toda vez que você ver um shopping cheio lembre-se que existe uma massa de excluídos dos benefícios deste espaço. 



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E aí, gostaram do artigo desta semana ??


antes de nos despedimos gostaríamos de fazer alguns esclarecimentos já que textos de teor crítico tendem a gerar alguns ruídos.


Primeiramente, vamos afirmar aqui que frequentamos o shopping center, gosto de pegar um cinema, dar umas voltas etc. 


O texto não tem a intenção de demonizar o espaço pura e simplesmente, trata-se de pôr um olhar crítico sobre uma instância de nossas sociedades que cresce e aumenta os nossos problemas sociais. 


Não obstante, alguns fatos precisam de luz;


A começar pela quantidade de shoppings que temos e a velocidade que eles surgem;


há uma quantidade absurda de empreendimentos deste tipo e praticamente nenhum empreendimento estatal de fomento de uma cultura forte. 


Shopping Centers são empreendimentos voltados unicamente para o lucro, templos do consumismo onde a questão social é deliberadamente ignorada.


Foi por esta realidade que surgiu, no ano de 2013, um movimento vindo das favelas e seus excluídos  conhecido como "Rolezinho no Shopping", este movimentos buscou ocupar os espaços historicamente negados para uma parcela da população.


Acentuava-se assim a diferença, cultural e estética, do favelado, que não podia frequentar os shoppings e do privilegiado, que frequenta o ambiente em nome de uma suposta segurança e conforto. 


A "invasão" dos espaços, pela massa de excluídos, em uma quantidade que não poderia ser ignorada, causou um grande incômodo aos frequentadores que, até então, pensavam estar apartados destes elementos.


Tudo bem em frequentar os shoppings e usufruir de seus benefícios, mas é bom manter em sua mente aberta para o fato inegável de que, como quase tudo em nossa realidade, as vantagens do capitalismo não são para todos. 


Uma boa canja de galinha e um pouco de consciência de classe não fazem mal à ninguém, não é mesmo?


...


Até semana que vem e cuidem-se!!











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