UM DIÁLOGO ENTRE O ANTIGO E O CONTEMPORÂNEO - FINITUDE E TEMPORALIDADE
Olá Escritores !!
Preparados para o artigo desta semana !!
Hoje, vamos receber um Escritor Convidado que nos traz uma reflexão instigadora sobre finitude e temporalidade, em outros termos, o que fazemos com nosso tempo de vida.
Rafael Lins é graduado em Filosofia pela UFES e atualmente é mestrando, atuando em Ética e Filosofia contemporânea, além de ser um excelente escritor, com artigos e livros publicados;
Rafael trabalha majoritariamente o autor Albert Camus em suas pesquisas, tratando principalmente o conceito do "absurdo" neste autor e a necessidade da busca de sentido na vida e suas consequências;
hoje, Rafael vai fazer uma relação entre 2 autores; Albert Camus e Lúcio Aneu Sêneca, encontrando pontos de convergências no pensamento destes 2 autores separados por séculos.
O texto de Rafael tem como ponto principal refletir sobre o que o ser humano faz com seu tempo de vida, estamos vivendo nossas vidas com plenitude ou estamos projetando para um futuro incerto e fantasioso o nossos destinos?
Esta é a linha de raciocínio central no texto de Rafael, uma reflexão interessantíssima, como veremos em breve.
Antes porém de adentramos nas considerações de Rafael, vale a pena falar brevemente dos autores que Rafael trabalha em seu texto e que nos ajudarão nesta reflexão sobre finitude e temporalidade:
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Albert Camus(1913-1960) argelino nascido em Mondovi, abordou em sua vida vários temas existencialistas, sobretudo a temática do "absurdo", do "suicídio" e da "revolta", temas interligados entre si.
Para este autor o suicídio é o único problema filosófico realmente relevante, tirar a própria vida deliberadamente só ocorre quando o ser humano se divorcia da vida, é este "divórcio" entre o ser humano e a vida que causa a sensação do absurdo e o suicídio se mostra como a única solução;
a tentação constante ao absurdo e ao suicídio se mostra para todos nós como uma alienação, consequência do "silêncio não-racional do mundo", nós devemos lutar contra esta alienação, não devemos sucumbir à tentação do niilismo e nos deixar dominar pela alienação, precisamos rebelar-nos contra esta situação;
e devemos nos rebelar não somente como indivíduos, mas como espécie, fomentando um engajamento de pensamento que nos una em ações, pensamentos e lutas, no destino que todos os seres humanos compartilham, em O Mito de Sísifo Camus vai trabalhar de forma pormenorizada este conceito.
No texto de Rafael existe um outro conceito trabalhado por Camus; a "matemática sangrenta" que, segundo Rafael nos esclarece, trata-se de viver sempre projetando para um futuro duvidoso e incerto as diversas possibilidades de nossa existência em detrimento a vida real, no presente;
como um exemplo desta matemática sangrenta podemos pensar em uma pessoa que vive fazendo cálculos do tipo - "daqui há 5 anos vou ter um carro, daqui ha uns 30 anos vou ter uma casa, quando eu tiver 60 anos vou me aposentar ..." - todos esses cálculos, efetuados entre uma conquista e outra, são na verdade ilusões de controle, controle este que o sujeito não tem, em fato, a única certeza que temos sobre o futuro é que iremos morrer e a constatação súbita deste fato pode colocar o sujeito em uma crise existencial.
Outro exemplo que Rafael nos traz é de uma senhora de 80 anos que, despretensiosamente, vai à uma loja comprar uma lâmpada, lâmpada esta que, provavelmente, vai durar de 8 a 10 anos e isso é mais do que a expectativa de vida futura desta senhora de 80 anos e, quando a nossa hipotética senhora se apercebe disso, ela entra em crise.
A matemática sangrenta é a percepção súbita de falta de controle, principalmente sobre o futuro, é disso que trata este conceito de Camus citado por Rafael em seu texto.
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Outro pensador trabalhado por Rafael em seu texto é Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), romano, nascido em Córdoba na Espanha;
o pensamento de Sêneca é coerente com a moral estoica, procurando formas corretas de viver a vida, uma doutrina diretamente ligada à Ética.
Para este pensador, o cumprimento do dever era um serviço à humanidade, procurava aplicar em sua vida a sua Filosofia, por isso, mesmo possuidor de grande riqueza mantinha um estilo de vida modesto.
Os afetos, para Sêneca, devem ser ultrapassados; podemos ter bens, mas não podemos nos deixar levar por eles.
Para Sêneca o destino é uma realidade, podemos aceitá-lo ou rejeitá-lo, nunca ignorá-lo, sendo que, vai gozar de uma maior liberdade aquele ser humano que aceitar a inconstância da vida, compreendendo que a morte é um dado natural.
É preciso treinar a ataraxia e separar aquilo que podemos controlar do que não temos controle, como o nosso futuro, por exemplo, a prática do estoicismo torna o sujeito menos emocionalmente reativo e mais consciente do presente, trata-se de uma "força mental" voltada a enfrentar as situações adversas da vida.
O pensamento de Sêneca tem como fundamento basilar a seguinte questão:
como conjugar qualidade de vida com o tempo escasso de uma vida humana.
Dirá ele:
- A duração de minha vida não depende de mim, o que depende é que não percorra de forma pouco nobre as fases dessa vida; devo governá-la e não por ela ser levado.
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Rafael vai fazer uma "ponte" entre estes 2 pensadores encontrando em sua pesquisa pontos de convergência entre estes pensamentos no que tange a questão da finitude (a inevitabilidade da morte para todos nós) e a temporalidade (o "tempo" entre o nosso nascimento e morte), em outros termos, seu texto vem provocar em nós uma certa inquietação, nos levando a pensar sobre o que consideramos nossas prioridades de vida;
vida esta que é um verdadeiro dom; tanto na magnífica, sublime e maravilhosa dádiva de ser vivida quanto em sua complexidade, sofrimento e curta duração.
Então sem mais enrolação vamos conhecer mais este ponto de vista no instigante texto de Rafael Lins em:
UM DIÁLOGO ENTRE O ANTIGO E O CONTEMPORÂNEO - FINITUDE E TEMPORALIDADE
Boa Leitura !!
Nesta breve reflexão, vamos estabelecer uma ponte entre Sêneca e Albert Camus, respectivamente, um filósofo estoico, da antiga Roma e um filósofo contemporâneo.
É possível uni-los num diálogo sobre "temporalidade" e "existência”?
Veremos.
Para Sêneca, os homens reclamam da brevidade da vida porque desperdiçam seu tempo em coisas que não valem a pena e estão sempre olhando para o futuro, que é incerto e nebuloso.
Para Camus, os homens reclamam da brevidade da vida porque nunca a compreendem e calculam seu tempo de vida como uma “matemática sangrenta” (2017, p. 29).
Neste sentido, estão também sempre voltados para o futuro, enquanto negligenciam o presente, como resultado disto, amaldiçoam a vida quando seus projetos falham, negam a vida quando esta não corresponde às suas expectativas.
Podemos ver que os argumentos dos 2 pensadores são parecidos, ainda que haja séculos entre os 2, nesta reflexão, a temporalidade se revela como elemento participante da noção e sentimento de falta de sentido da vida - o que Camus vai chamar de “absurdo”.
Camus, em O mito de Sísifo, fala de 2 atitudes humanas sobre o tempo e a existência:
1ª atitude > é o costume de nos colocarmos à frente do tempo, isto é, ingenuamente confiamos que temos em nossas mãos o controle total do nosso futuro, assim, projetamos nossa vida sempre à frente, enquanto descuidamos do presente.
2ª atitude > trata da constatação da falta de sentido da vida, o ser humano se sente ultrapassado pelo mundo e logo o indivíduo se põe a “correr” atrás do tempo para tentar recuperá-lo ou para transformar sua trajetória de vida.
Rita de Paiva, uma estudiosa de Camus, dirá:
- vivemos fantasiando o futuro, alimentando-nos de projetos calcados nas débeis credibilidades humanas, cujos horizontes são colocados em xeque pelo irromper incomplacente das gratuidades (2003, p.162).
Isso significa que não há controle absoluto!
O mundo e o tempo podem nos escapar e mudar sem pedir permissão aos nossos planos futuros.
A ideia de retenção ao presente e fantasia pelo futuro já encontrava espaço de crítica na filosofia antiga;
Sêneca discorre sobre o assunto na obra A Brevidade da Vida, nesta obra dirá ele:
- É que estás a viver como se destinado a existir para todo o sempre.
Não ocorre à tua mente a ideia da própria fragilidade.
Deixas de observar quanto tempo já transcorreu.
Esbanjas o tempo como se tirasses de um reservatório pleno e abundante [...].
Temes todas as coisas como mortais e a todas amas como imortais.
Ouvirás então a muitos clamarem:
- Aos cinquenta anos eu me retirarei para a aposentadoria e aos sessenta deixarei meus encargos.
- Ora, que garantia tens de viver tanto tempo?
Quem autorizará para que tudo corra como programastes?
Não te envergonhas de reservar para ti as sobras da vida e destinar ao cultivo da reflexão um tempo que não vale mais para coisa alguma?
Ó que tardio esse intento de principiar a viver, quando estás por deixar a vida!
Quanto de néscio nesse esquecimento de nossa mortalidade, ao deferir para os cinquenta ou sessenta anos os bons conselhos e querer situar o começo da vida onde poucos logram chegar (SÊNECA, 2020, p. 18).
Neste sentido, abrimos uma linha de diálogo entre Sêneca e Camus, ambos os filósofos apontam para o comportamento de nos projetar no tempo como se fossemos imortais e para o ato de ignorar nossa própria falibilidade.
Sempre procuramos conforto, com o sentimento de absurdo e finitude é compreensível que o ser humano, repetidamente, busque formas de se desviar da angústia e da falta de sentido do mundo se projetando em ilusões de um futuro utópico.
Camus nos diz:
- Vivemos no futuro; no"amanhã”, no ''mais tarde”, no “quando você conseguir uma posição”, no “com o tempo vai entender``[...]. Essas inconsequências são admiráveis, porque afinal, trata-se de morrer”. (2017, p. 27)
A consciência da morte não significa a afirmação de que todos os planos são inúteis no presente.
O que Camus e Sêneca parecem nos advertir é que na grande e solitária jornada da vida não deveríamos focar somente nas chegadas, somente nos objetivos finais, o que verdadeiramente importa é o processo existencial entre o início e o fim de nossas vidas.
Sêneca, assim como Camus, observa que ao projetar totalmente a vida no futuro a deixamos de viver no presente e, de certa forma, erroneamente negamos a finitude e esquecemos da mortalidade.
Esta atitude esvazia a existência de valores que podem dar sentido à nossa existência.
Ao argumentar deste modo, não me refiro a valores absolutos que deem sentido à todas as vidas, me refiro a um sistema de significatividade entre o homem e o mundo em seu entorno que torna o fardo da existência mais leve e a cotidianidade menos hostil.
A existência sem relações significativas se traduz em pesar e em uma busca contumaz por ilusões.
A perspectiva de Sêneca é sobre o bom emprego do tempo, em sua obra, o filósofo assevera que reclamamos da brevidade da vida, porque pouco a vivemos e muito projetamos num futuro incerto os nossos objetivos.
Para Camus, quando tomamos consciência do absurdo, o tempo é visto como um inimigo ‒ mesmo que o empreguemos bem ‒ em que, a descoberta da temporalidade absurda conduz a um choque direto com o desejo humano por duração e eternidade.
Por isso, os 2 pensadores dialogam sobre o valor dos projetos existenciais e assim concordam com o seguinte raciocínio:
embora todos iremos morrer um dia, o que importa é como cuidamos do tempo em que estamos vivos.
É nessa relação de desperdício por um lado e projeção da temporalidade por outro que o homem se encontra perpetuamente.
Dirá Sêneca:
- Enfim, todos apressam o ritmo da vida, mas enfastiados pelo presente, ficam incitados pela expectativa do futuro.[...] Por conseguinte, não digas que fulano viveu muito porque tem cabelos brancos e rugas.
Ele não viveu muito.
Apenas durou bastante.
Pensas, porventura, que navega muito aquele de quem uma violenta tempestade assalta o barco, deixando-o à deriva, para um lado e para o outro, ao sabor de ventanias enfurecidas?
Ele não navega muito, só balançou bastante. (SÊNECA, 2020, p. 27).
Sêneca chama a atenção para a questão de que viver não é apenas durar 80, 90 anos em que insatisfeita e entediada com o presente a pessoa passa todo esse tempo ansiando cegamente por um futuro que nada garante, mas, que em nossa imaginação, é sempre belo.
Para concluir, o absurdo desvela ao ser humano a finitude, pois, nos mostra que a partir de um ponto de vista objetivo, diante da história universal e do tempo, uma vida é insignificante.
Porém, mesmo ao reconhecer isto, o ser humano continua a procura de significatividade ‒ ainda que não mais universal ou absoluta ‒ e, dificilmente abre mão de sua vontade de viver, isto é, mesmo condenado à morte, continua desejando alcançar suas aspirações, deseja compreender sua condição e se realizar.
- A hostilidade primitiva do mundo, através dos milênios, remonta até nós.
Por um segundo não o entendemos, mais, porque durante séculos só entendemos nele as figuras e desenhos que lhe fornecíamos previamente, porque agora já nos faltam forças para usar esse artifício.
O mundo nos escapa porque volta a ser ele mesmo.
Aqueles cenários disfarçados pelo hábito voltam a ser o que são.
Afastam-se de nós.
Assim como há dias em que, sob um rosto familiar, de repente vemos como uma estranha aquela mulher que amamos durante meses ou anos, talvez chegue mesmo a desejar aquilo que subitamente nos deixa tão sós (CAMUS, 2017, p. 28).
Terminando a nossa reflexão, como estrangeiros num mundo opaco e de cenários caóticos, poderemos resolver essa distância cósmica entre uma visão objetiva e uma visão subjetiva de nossa temporalidade?E, o que significa esse exílio temporal e existencial?
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Temas para outra reflexão...
Talvez uma resposta simplista e provocadora esteja neste poema que deixo para vocês:
A arquitetar na sombra a despedida;
Do mundo que te foi contraditório;
Lembra-te que afinal te resta a vida;
Com tudo que é insolvente e provisório;
E de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório. (PENA FILHO, 1959, n.p).
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Rafael Lins
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E aí gostaram do artigo desta semana ?
Rafael nos trouxe um ponto de vista totalmente novo sobre o nosso tempo de vida, não é mesmo?
É interessante pensar que, mesmo separados por mais de 1000 anos, estes 2 pensadores tenham chegado a conclusões tão semelhantes...
Isso indica que alguns problemas humanos atravessam as eras;
é salutar ter esta percepção, pois vivemos em uma era de muito orgulho antropocêntrico e este orgulho, às vezes, nos cegam para as verdadeiras questões humanas e, definitivamente, o nosso tempo de vida e a consciência de nossa finitude são temas humanos, que não resolveremos com avanços tecnológicos.
enfim, o texto que Rafael nos trouxe nos levou a muitas reflexões profundas e desafiadoras, para escrever o texto que você acabou de ler Rafael usou as seguintes fontes:
> CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2017.
> PAIVA, Rita. Consciência humana e absurdidade em Camus. n. 33, p. 153-172, 2003.
> SÊNECA. A Brevidade da Vida. São Paulo, Lafonte 2020.
E se você gostou do tema e quer bater um papo diretamente com Rafael, entra em contato com ele pelo E-mail >> linsrafael75@gmail.com >> Rafael está sempre disposto a uma boa conversa, você vai aprender muito sobre este assunto com Rafael, que tem uma pesquisa séria e aprofundada em Camus e todos os temas trabalhados por este autor.
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Por fim, gostaria de agradecer mais uma vez ao nosso Escritor Convidado da semana, Rafael Lins, foi uma reflexão esplendorosa e instigante que nos levou a repensar nossa forma de encarar o tempo que temos, já estamos contando com a sua próxima reflexão em nosso espaço;
esperamos que vocês tenham gostado do nosso artigo de hoje e semana que vem estamos de volta.
Até lá e cuidem-se !!









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