O FEIO, O BELO E A ARTE DEGENERADA
Olá Escritores !!
Prontos para o artigo desta semana ?
Hoje, vamos refletir sobre nossa relação com o FEIO e o BELO e dos valores que estão atrelados a eles.
Semana passada refletimos sobre o poder de certos líderes no controle e na manipulação da massa e como o nazismo, se apropriando da Arte e aplicando sua ideia de "pureza pelo sacrifício", poderia criar um mundo belo e harmonioso;
hoje, vamos nos aprofundar na relação do feio e do belo na constituição de uma biopolítica e um biopoder, utilizado pelo nazismo quando este estabelece os critérios de uma suposta Arte superior aplicada à sociedade em sua manipulação e controle;
vamos perceber que esta busca nazista pela "beleza pura", reverbera nas sociedades ocidentais e estão inseridas no inconsciente coletivo das nossas sociedades.
A apropriação da Arte pelo nazismo não foi vã, ela visava exercer um biopoder na população, transportando para o cotidiano das pessoas os valores agregados a apreciação da Arte nazista, que buscava uma pureza, selecionando somente os indivíduos ditos puros;
A Arte Moderna, segundo o nazismo, estava degenerada.
No artigo de hoje vamos descobrir que a nossa relação com o feio e o belo não se encontra unicamente no âmbito da apreciação estética, existem valores ocultos em nossas apreciações e, se não colocarmos estes valores sob o julgo de uma crítica contundente, corremos o risco de valorarmos o feio e o belo tendo como parâmetro valores nazista.
Então, vamos entender melhor nossa relação com o feio e belo e com uma herança maldita que persegue o ocidente na figura do nazismo.
Boa leitura !
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| "Ainda vida de máscaras" (Emil Nolde) |
O belo e o feio sempre existiram na história como uma experienciação estética, mas é claro que quando falamos de manifestações humanas sempre existe algo que está além da aparência e, sendo assim, nossa relação com o feio e com o belo vai muito além da experienciação estética unicamente;
O feio e o belo estão sempre atrelados à valores;
Na antiguidade a relação feio/belo estava interligada com a ideia de "perfeição", por isso a Arte Antiga refletia uma busca pela perfeição do que era retratado, assim, o conceito do que era belo se dava no que se apresentava como perfeito, harmonioso, simétrico, por outro lado, o que demonstrasse imperfeição desarmonia era o considerado feio, havia na antiguidade um forte conceito de perfeição, daquilo que é belo por si;
e só uma curiosidade etimológica sobre a palavra "perfeito"; é o particípio passado do verbo "perfazer", logo, a noção de perfeito se dá naquilo que foi feito e refeito até que nada mais precise ser retirado ou acrescentado, estando finalizado em estado de "perfeição".
A busca pela perfeição se refletia na Arte Antiga.
Por isso na antiguidade os artistas procuravam, em muitos momentos, dar uma forma mais harmoniosa ao que retratavam em sua Arte, reparando e corrigindo o que, em estado natural, não era assim tão perfeito.
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| A Arte Antiga buscava a perfeição, corrigir o que em estado natural não era belo e harmonioso. Note na obra "A Leiteira" de Johannes Vermeer , 1661, que tudo na imagem supõe harmonia e perfeição. |
As imagens eram retratadas para apresentar seu estado belo, para o artista da antiguidade havia estética na transformação.
A Arte na antiguidade procurava retratar as formas perfeitas construindo uma harmonia que se confundiria com a realidade por meio de ilusões ópticas, o público ficaria confuso ao comparar a realidade com a imagem perfeita idealizada pelo artista;
A Arte Antiga é a técnica com a qual o artista busca reconstruir, remodelar, refazer aquilo que a natureza não conseguiu fazer perfeito.
A feiura, por seu turno, é muito mais do que simplesmente o oposto da beleza, ela é uma força que se opõe à beleza, tudo que a beleza representa como ideal de perfeição, não só esteticamente falando, mas também de um comportamento moral e ético o feio se apresenta como o oposto;
o demônio é feio, os monstros são feios, o ser humano imoral e antiético é feio.
A feiura é aquilo que se destaca, que se pode apontar, ela contrasta quando comparado ao que é belo;
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| Como percebemos na obra "O Pesadelo" de John Henry Fuseli, 1781, o mal sempre retratado como algo grotesco em contraste com o que é belo e harmonioso. |
Na modernidade encontramos a noção do belo atrelado a um bom comportamento moral/ético;
muito natural, afinal, as civilizações grega e romana nos deixaram como legado os seus padrões de beleza, com uma estética que se aplica à Arte e, por consequência, a existência.
O que vamos percebendo nesta breve introdução é que a questão do feio/belo se encontram em relações muito mais profundas, de viés sociais e não são simplesmente adjetivos que usamos para definir o que nos agrada esteticamente, enquadrados em um uso corriqueiro da morfossintática;
ser marcada como feio ou como belo em nossas sociedades definirá o destino do indivíduo, pois, existir feio ou belo é ser avaliado por um outro que te julga com um valor (se você for belo) ou um desvalor ( se você for feio).
Desde o século XIX as relações feio/belo são pautadas por relações de poder que forma uma hierarquia social e estética, o que significa dizer que quando um objeto é marcado como belo ele leva consigo a marca da perfeição, da pura harmonia e do bom em si.
Marcar um objeto como feio é afirmar que este objeto é desarmonioso, grotesco e mau;
Por este axioma verificamos que o desejado é ser belo e por consequência o indesejado é ser feio, os feios são "indesejados", por isso o feio sempre procura uma correção.
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Hoje vivemos um período onde se busca, o tempo todo, "retocar" a realidade, verificamos isto tanto nas penetrantes companhas de marketing, que projetam a imagem de corpos perfeitos e harmoniosos, quanto nas fotos e mensagens das redes sociais e seus incontáveis filtros e poses preparadas;
estamos sempre procurando formas de remodelar a realidade e passar para os outros uma imagem de "perfeição".
O desejo do ser humano em se enxergar belo e harmonioso e corrigir aquilo que não é perfeito é antigo e corriqueiro na história humana, notando isso poderíamos supor que nosso comportamento e valores, no que toca a questão do feio/belo, é um legado da antiguidade, certo?
Bem... poderíamos afirmar que antiguidade não é nossa única fonte de inspiração;
e carregamos muito de uma ideologia nazista em nosso comportamento quanto tratamos do que é feio e do que é belo, como veremos em breve;
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Como dissemos, lá na abertura de nosso artigo, o feio e o belo sempre existiram nas culturas humanas, em diferentes contextos dependendo da época em que jogarmos o holofote da história, mas sempre presente em nossa história, como uma daquelas questões demasiadamente humanas que nos acompanham por toda a jornada do mistério humano, a questão do feio e do belo pode ser encaixado naquilo que Vilém Flusser (1920-1991) chamou de in illo tempore ( para todo o sempre);
Platão vai dizer que a beleza era uma presença autônoma, distinta do suporte físico que a exprime, o belo não está vinculado ao objeto físico, ele resplandece por toda a parte, o belo é um ato de abstração pura, longe das formas físicas, dotado de uma plasticidade que o permite se manifestar de variadas formas, possui também uma capacidade de transcendência a qual nos permite transpor os supostos limites tornando qualquer objeto belo;
os cristãos conseguem ver beleza na imagem de Jesus Cristo maltrapilho subjugado e crucificado, pois, o que se "enxerga" na imagem é alma pura e bela, a imagem harmoniosa é digna de uma verdadeira abstração simbólica, a fé cristã transcende a imagem corpo/carne e vê além da imagem unicamente, a"essência" de Jesus Cristo resplandece e se eterniza.
ao se falar de "coisas belas" pode estar se referindo a muitas coisas que não têm uma "imagem bela";
o que faz as coisas belas à nossa sensibilidade são as nossas relações de significatividade com essas coisas, o belo é aquilo que nos causa prazer e satisfação e o suposto "feio" é anulado quando a beleza a ultrapassa.
o belo é a essência e o feio a imagem.
O Deus bíblico se fez em próprio verbo, nada transcende mais do que o verbo, ele está no passado no presente e no futuro está solto das amarras temporais o feio, por outro lado, é aquilo que está preso, é fraco, vil, grotesco;
o belo pode transcender de um objeto grotesco.
o feio é aquilo que podemos apontar por meio do discurso, já o belo é belo em si, podemos chegar ao seu conceito por meio do pensamento puro e constatar o seu em si próprio, já a feiura é aquilo que é produzido pela criação de uma cultura, fruto de uma cultura que se deteriorou, o feio não é em si como o belo o feio nasce no bojo de uma cultura que se extraviou;
A beleza seria uma potencialidade das formas naturais que estaria em tudo e que, no decorrer histórico, foi deturpada e transformada em justificativas para inúmeros desmandos e atrocidades;
é muito natural associarmos o grotesco (o feio) ao indesejado, os incontáveis ditadores que existiram e existem não hesitam em eleger "o grotesco" e associar à este suposto grotesco todo o tipo de imoralidade.
O século XIX é um marco na relação de poder, na formação de uma hierarquia social e estética e em nossa consequente relação com o que é feio e belo;
Assim vamos verificando que a antiguidade não foi nossa única fonte de inspiração quando falamos da nossa relação com o feio e com o belo, não se trata unicamente de buscar corrigir as imperfeições com a Arte, mas trata-se de uma seleção dos melhores e mais belos da "raça" por meio de uma seleção que despreza o que é considerado grotesco e "degenerado", infelizmente, carregamos muito da ideologia nazista em nosso subconsciente coletivo.
O nazismo é parte integrante da cultura ocidental, uma figura fantasmagórica e constante no imaginário do ocidente;
o nazismo, com toda as suas atrocidades, arbitrariedades e com sua forte atuação em uma biopolítica e em um bio poder, conseguiu instituir "verdades" sobre o que é belo e bom feio e mau e, por esta lógica, o que é belo deve viver, já o que é feio deve desaparecer.
Os primeiros 5000 mil mortos nos campos de concentração eram os "anatomicamente imperfeitos" o que foi criando uma "estética da feiura";
muito do que está estruturado em nossas sociedades é fruto de uma política de eugenia, busca-se, inconscientemente, o padrão de uma raça que seja a melhor possível.
mesmo que, de forma discreta , invisível e praticamente imperceptível somos atingidos por estes ideais de beleza que reverberaram com o passar dos anos.
nossa época em particular - e aqui me refiro aos últimos 15 anos - tem sido uma era onde o discurso nazista vem ganhando força e este pensamento é marcado pela ideia central de que a marca do existir (do ser e do estar) se dá como feio ou bonito, estipulado por um outro que se vê no direito de julgar, apoiado pelos valores vigentes.
Uma vez estigmatizado como "feio" sofre-se as consequências sociais.
ARTE DEGENERADA
O nazismo não hesitou em classificar a Arte do século XX como uma Arte "degenerada" e com este pensamento trabalhou, com maestria, a manipulação da massa e, neste sentido, podemos perceber o uso indiscriminado de subterfúgios, ardis e manipulação para classificar como degenerada uma Arte progressista.
Aqui em nosso Blog já fizemos críticas à Arte Moderna, mas sem jamais generalizar e sempre estabelecendo critérios muito claros para as críticas, além de reconhecer que é inegável o fato de que a Arte Moderna se apresenta no palco da história como uma Arte que busca uma mudança radical na linguagem artística.
Além disso, a Arte Moderna é um tipo de Arte que demanda de seu interlocutor um envolvimento com todo o contexto sócio/politico do autor, neste sentido, ela é inovadora e revolucionária, pois propõe que somente com este envolvimento pode o público transcender a obra e ver para além de sua imagens "estranhas" na qual ela se apresenta e apreciar a beleza, muitas vezes oculta, na obra - falamos disso de forma pormenorizada no artigo ARTE PARA NOS TRANSFORMAR, complemente sua leitura.
A modernidade é também uma era de mudanças significativas quando falamos de feio/belo, pois foi nesta era que se consolidou, no capitalismo e nas sociedades industriais, a padronização dos corpos e a padronização dos comportamentos da qual Michael Foucault tão bem falou em seu livro "vigiar e Punir";
foi com o advento das instituições adestradoras de corpos e consciências que vai se padronizar o que então é considerado feio ou bonito.
a padronização do olhar, ou dito de outra forma, o condicionamento por meio dos corpos adestrados, a uma padronização estética que nos diz o que é feio e belo;
é a chamada "identidade do normal", que diz que ser normal é se enquadrar em comportamentos pré definidos, ditos normais e aceitáveis que regem as sociedades em geral.
Ser normal, portanto, é seguir um modelo e esta prática se aplica à Arte Moderna no momento em que ela é apropriada pelo nazismo.
Mas, note o leitor que, o nazismo vai estabelecer os padrões para a apreciação das Artes belas fazendo uma "ponte" com a antiguidade, para os nazistas a geometria deveria ser a pitagórica, as Artes Plásticas deveriam ser harmoniosas e perfeitas e os corpos deveriam ser "normais" sem defeitos e harmoniosos, foi por meio destes ideais que se aplicou uma biopolítica cruel e assassina.
O perigo de uma biopolítica diz respeito as relações interpessoais no que tange as relações das comunidade e seus indivíduos, nestas relações as ideias são passadas de forma sutil e manente o que vai incutindo na cabeça das pessoas a ideologia, direcionando as consciências se reproduzindo e se consolidando no senso comum. - sobre o senso comum ler A FILOSOFIA SERVE PARA QUÊ?
Quando se critica a Arte Moderna há de se policiar muito, pois podemos estar reproduzindo um ideário nazista de eugenia que visa chegar ao "melhor de uma raça", inconscientemente, podemos estar falando de uma "Arte degenerada" do ponto de vista do nazismo, incutido no fundo de nossa psique ocidental.
Esbravejar que toda a Arte Moderna não presta que toda ela é "degenerada" colocando toda a Arte Moderna "no mesmo saco", analisando-a com um critério raso e sem nenhum envolvimento, sem nenhuma avaliação mais apurado que leve em consideração fatores de envolvimento e contextualização, é repetir inconscientemente, um discurso nazista onde o poder de manipulação da massa se revela .
há um biopoder que atua e modifica os sentidos quando nos deixamos levar pela ideia pré estabelecida do que é considerado feio ou belo;
o artista moderno produz uma Arte que visa provocar o estilo, a intenção é subverter a ordem simétrica das figuras perfeitas e geométricas da Arte Antiga, a Arte, quando expressas pelo artista moderno, estarão distorcidas e disformes, sua intenção e se mostrar para o seu público de forma inovadora provocando a curiosidade e a reflexão e, claro, o envolvimento.
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| A Arte Moderna busca subverter a suposta "perfeição" da Arte Antiga, seus traças disformes buscam provocar o público e desafiá-lo buscando um engajamento do público. "Les Demoiselles" Picasso, 1907, |
Para o nazismo toda a Arte Moderna é degenerada e toda a Arte degenerada é feia, portanto, tome cuidado ao acreditar que toda a Arte Moderna é feia, que a sua estética é naturalmente feia - e eu já ouvi muita gente (críticos inclusive) falando exatamente isso; pre julgando uma Arte que requer engajamento.
a Arte usada nos termo de um biopoder parte de uma interpretação da Arte para atingir o comportamento humano, a Arte para Hitler era o espelho do que o ser humano poderia ser
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Darwin discorre sobre a evolução das espécies, a evolução das raças onde o mais fraco é sobrepujado pelo mais forte e este deveria assim desaparecer, um discurso que corrobora a ideia do mais forte subjugando o mais fraco, apurando uma suposta raça superior, mais forte e bela, este foi um pensamento que se imiscui fundo no ocidente.
O conceito de Arte degenerada, criada pelos nazistas, não foi somente uma manifestação de cunho estético, mas sim uma ferramenta de manipulação social e de consciências, pois promovia o ódio e o convencimento de um padrão de beleza inalcançável e irreal, os conceitos que eram aplicados na Arte, pouco a pouco, passaram a balizar o comportamento das sociedades sendo usado nas pessoas:
Aos belos, a vida e a glória! Aos feios a morte e a subjugação.
e nos dias atuais, poderemos facilmente encontrar vestígios deste pensamento eugênico que vê, inconscientemente, padrões pré estabelecidos do que é belo e do que é feio;
O corpo, branco, magro, de cabelo liso e feições delicadas que polulam nos desfiles, filmes, novelas e na mídia em geral e ditam o padrão a ser seguido se reflete nas relações mais basilares de nossas sociedades, não obstante, não é nada incomum encontramos adolescentes desenvolvendo doenças como bulimia, anorexia, depressão e outras doenças, todas ligadas diretamente à cobrança de não se enquadrar em padrões estéticos pré estabelecidos.
Quem poderá negar que o negro, o surdo, o deficiente, o cego o amputado o gordo e todos os que estão fora do padrão do inconsciente coletivo não é o indesejado?
Existem sim padrões de beleza em nossas sociedades estabelecidos no termo de um contrato tácito que vige em nossas sociedades e, atrelados à estes padrões, temos um panteão de valores que vão muito além da mera apreciação estética.
A procura por uma espécie melhorada geneticamente, pela seleção natural de indivíduos, eliminando, não interessa como, o indesejado é um pensamento que em seu cerne carrega um gene nazista.
Poucos reparam que os corpos, magros e brancos, com os quais somos diariamente bombardeados no mundo midiáticos não são reais, são uma construção digital, fármaco, de ângulo ou de maquiagem que não reflete a beleza, mas sim uma ilusão.
O feio e o belo, portanto, são mais um dos valores ocidentais que devemos colocar sob o julgo de uma crítica contundente, mais um dos engôdos sob os quais construímos nossas sociedades.
| O feio e o belo são valores estabelecidos em nossas sociedades que devemos colocar sob um novo julgo criterioso. |
E aí, gostaram do artigo desta semana?
É incrível a quantidade de valores ocultos que nós carregamos dentro de nossas sociedades, não é mesmo? ?
Por isso, devemos ser cautelosos quando consideramos o que é feio e o que é belo pois podemos estar repetindo, inconscientemente, valores de uma fase da humanidade da qual não nos orgulhamos.
Será que o consideramos feio é realmente feio ?
E o que consideramos belo é, de fato, belo?
São estas valorações que devemos por sob um novo julgo em nossas sociedades;
pense melhor sobre isso!
...
Até semana que vem e cuidem-se !












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