SÍTIO HISTÓRICO, CASARÃO E CAPELA DE SÃO JOÃO BATISTA: MONUMENTOS HISTÓRICOS ABANDONADOS E AMEAÇADOS


Olá Escritores !!

 

Prontos para o artigo desta semana ??

 

Hoje vamos aprender um pouco mais sobre um monumento riquíssimo em cultura  de nossa história;

 

Vamos falar da CAPELA DE SÃO JOÃO BATISTA, mas não felaremos unicamente da Igreja, também vamos abordar neste artigo o SÍTIO HISTÓRICO DE SÃO JOÃO  BATISTA, onde está localizada a Capela além do CASARÃO misterioso que está dentro dos limites do Sitio.

 

Mas nem tudo em nosso artigo de hoje é cultura e história, infelizmente... 


A motivação para este artigo, além da importância em se conhecer nossa história e cultura, é nossa mais sincera preocupação com obras de grande porte que estão ocorrendo perto deste Sítio histórico riquíssimo, ameaçando os monumentos ali situados, a empresa responsável por esta obra é a TIMS.


É de suma importância que a população capixaba conheça a história de um dos mais antigos monumentos da história brasileira, lugar que guarda nossas raízes e está ameaçada pela subserviência do Estado aos grandes conglomerados empresariais que simplesmente, não se importam em preservar nossa cultura.


Então, sem demora vamos entender o que está em jogo aqui e o que corremos o risco de perder, caso não façamos nada. 


Boa leitura e conscientize-se !!

 


 






 

O SÍTIO HISTÓRICO DE SÃO JOÃO BATISTA DE CARAPINA

 

Hoje vamos falar de uma das construções mais antigas do Espírito Santo e uma das mais antigas do Brasil e quiçá, da América Latina;

 

A Igreja de São João Batista foi fundada em 1584, pela Companhia de Jesus, mas a história deste monumento é cheia de idas e vindas, como veremos a seguir.

 

Mas antes de falarmos da Igreja – chamada carinhosamente de “Igrejinha” pelos moradores da região - e sua história, vamos falar primeiramente do Sítio Histórico onde está localizada a Igrejinha, estamos falando de uma imensa área, que compreende a região que se inicia no cemitério de Carapina, passando pela Capela de São João Batista até o Casarão e mais uns quilômetros nos flancos, totalizando 42 mil m², esta é a área do Sítio Histórico de São João Batista de Carapina.

 

Há um projeto da prefeitura de Serra, relativamente antigo, para a revitalização do lugar com a construção de mirantes, calçamento, iluminação e segurança, mas, o projeto esbarra em algumas dificuldades;


são problemas de ordem social, como um ponto de viciado de lixo exatamente na entrada do parque, às portas do Cemitério, um problema que envolve muitos carroceiros e catadores. 


Há disputasse e entraves na justiça, já que a área, mesmo sendo patrimônio publico, tombado pela Secretaria Estadual de Cultura, está na área de atuação de uma mega empresa da região, o Terminal Industrial Multimodal da Serra (TIMS).


Atualmente, a TIMS tem sido o maior problema da região, como veremos a seguir. 

 

A reportagem do jornal Tempo Novo faz uma denúncia sobre obras que estão ameaçam o Sítio Histórico, além de uma dívida da empresa aos cofres públicos que há 29 anos explora espaços públicos sem pagar os devidos impostos, o chamado Caso TIMS;


clique aqui para ler reportagem citada do Tempo Novo


De fato, as escavações promovidas pela Andrade Gutierrez Ltda, responsável pela TIMS, são preocupantes, estão a menos de 100 metros do Casarão e avançando na direção da Igreja.

 

Na foto você vai ter a exata noção do absurdo de se ter uma obra deste porte a 100m de um monumento histórico e mais ainda avançando na área de um Sitio Histórico. Isso com a permissão do poder público.



A escavação promovida por esta empresa havia sido embargada em 2019 pela SEAMA - Secretaria Municipal do Meio Ambiente - que também aplicou uma multa de 130 mil, mas em contrapartida o Conselho Estadual da Cultura liberou a obra por entender que não colocaria em risco a Igrejinha e a escavação foi retomada em março de 2021.


As obras no Sítio Histórico de São João Batista em Carapina estão a todo o vapor, avançando por uma região de grande importância histórico/cultural. 


 

Nos chama a atenção verificar que, o órgão público responsável pela cultura, tenha liberado uma obra de impactos negativos tão evidentes justamente à cultura, somente isso seria um erro irreparável, mas o parecer da Secretaria da Cultura simplesmente ignora o Casarão, as obras de grande impacto, que geram tremores de terra, por se tratar de uma escavação de grandes proporções, está sendo executada a 100 metros do monumento e a 400 metros da Igrejinha.  

 

É importante contextualizar que o TIMS é um espaço de 2 milhões de m² de uma área pública, fica entre o contorno de Vitória (Br 101) os alagados do Mestre Álvaro e a Planície de Carapina,  toda esta área foi uma concessão pública,  cedida à empresa para a exploração em troca de pagamento mensal de tarifa de uso, toda esta área é explorada pela empresa há 29 anos e a empresa nunca pagou o combinado;

 

a estimativa é de um prejuízo de 20 milhões em calote.

 

 

O Caso TIMS não ganha destaque na mídia local, mesmo com números tão chamativos, o Estado não encontra meios de cobrar sua tarifa de uso, pois depende dos empregos gerados pela empresa, das divisas que o empreendimento traz para o Estado e da receita que ela gera, vamos percebendo, mais uma vez, a dependência dos Estados aos grandes conglomerados, dessa vez avançando sobre a cultura.


 ...

 

Apesar das dificuldades a comunidade vem, por conta própria, revitalizando o local;

 

foi construído na região um circuito de montain bike de dificuldade média/difícil para os amantes do esporte de forma colaborativa por ciclistas e comunidade em geral.

 

A X-co Carapina é uma pista de Montain Bike em lugares de belíssima paisagem, mata atlântica em recuperação, planícies, pedalando perto de monumentos históricos e natureza, a pista tem aproximadamente 4,2 km e está fazendo muito sucesso no mundo do pedal capixaba.


Aqui, vemos a entrada para as trilhas, a Igrejinha fica "a esquerda" da foto.


 

O Circuito X-co Carapina recebeu uma etapa do Circuito Estadual de Montain Bike.


Aqui se inicia as trilhas, se você quiser fazer o circuito completo, essa é a Trilha do Bosque, cerca de 800m e dificuldade médio/avançado





Na sequência do passeio vem a Trilha da Igreja, 2,3 km e dificuldade médio/avançado.





E, para fechar o circuito a Trilha do Casarão, uma trilha leve de 550m e dificuldade fácil/média.  



As trilhas são muito bem sinalizadas.






este é apenas um dos inúmeros visuais que você vai curtir nessa pedalada.

 

O Sítio Histórico é também um lugar perfeito para caminhadas, passeios com os pets, brincadeiras ao ar livre ou para a contemplação, isso porque o visual do local é uma planície alta da onde consegue-se avistar todos os morros da Grande Vitória;

 

Fonte Grande, Convento da Penha, Moxuara, além de uma visão panorâmica da rodovia do contorno e do Mestre Álvaro.

 

Além do montain bike o local é propício para prática de parapente.


o local já foi muito usado para a prática deste esporte em anos anteriores, hoje, devido a falta de infraestrutura quase não se vê mais os praticantes deste esporte na região. as fotos são do ano de 2017



É uma pena ver um local de tamanho potencial turístico e esportivo simplesmente abandonado pelo poder público.



Com uma vista privilegiada o Sítio Histórico de São João Batista de Carapina tem tudo para se tornar um dos lugares mais divertidos da Serra. No cantinho esquerdo da foto você vai notar a Igrejinha compondo a paisagem.



 

A Igrejinha é muito ativa e é celebrada uma missa aos domingos e nas datas religiosas, isso ajuda no envolvimento da comunidade, obviamente, por conta da pandemia do covid19 as missas estão suspensas.

 

O sítio Histórico de São João Batista de Carapina é um dos lugares mais agradáveis da Serra e da Grande Vitória além de abrigar muita história e monumentos de inestimável importância cultural.

 

Preocupante deixar que interesses econômicos e a subserviência do Estado promovam a delapidação de um sítio histórico com este potencial cultural/histórico/esportivo, sem dúvida falta mais empenho do poder público para a verdadeira transformação do lugar.  

 

 

A CAPELA DE SÃO JOÃO BATISTA

 

 

O Sítio Histórico que acabamos de conhecer fez, no passado, parte de uma rede de aldeamentos da Companhia de Jesus implantada por todo o litoral, ao norte pelo município da Serra e ao sul por Anchieta.

 

O Sítio de São João Batista está localizado entre o maciço rochoso do Mestre Álvaro e o rio Santa Maria.

 

A aldeia foi estrategicamente escolhida em um lugar elevado justamente para se “comunicar” com o Convento da Penha, por meio de sinais luminosos, com tochas e fogueiras.

 

A aldeia de São João é o resultado do agrupamento de parentes do índio Maracaiaguçu também conhecido como Gato Grande que após cruzar o rio Santa Maria funda, aos pés do Mestre Álvaro, a primeira aldeia jesuítica da então Capitania do Espírito Santo de Vasco Fernandez de Coutinho, isso no ano de 1562.


Os jesuítas recebiam muita ajuda dos índios recém catequizados;

 

a Aldeia de São João era uma pequena vila constituída por uma igreja e uma residência para os jesuítas acoplada, além dos outros moradores da aldeia, índios em sua maioria, a igreja/residência dos jesuítas permitia aos religiosos o ensino e a conversão dos indígenas aldeados.

 

A construção da Capela de São João inicia-se aproximadamente em 1584 e finda-se no ano de 1746 em um período de construção que foi não somente longo (162 anos), mas também marcado por intermitência e desamparo, em outras palavras, no período de 1584 até 1746  são marcados por uma construção descontinuada e em alguns períodos de total abandono.


aproximadamente em 1569, antes da Capela ser erguida, a Aldeia de São João recebeu a vista de Padre Anchieta, nesta ocasião, Anchieta teria operado um milagre, fazendo o menino Estevão Machado, até então mudo, voltar a falar, o milagre ficou conhecido como o "milagre do pato".

 

É importante ressaltar que na época estava se estabelecendo a aldeia do Reis Magos que, juntamente com a Igreja dos Reis Magos, estava se tornando a instalação jesuítica mais estruturada da região;

 

A Aldeia dos Reis Magos, juntamente com sua enorme igreja/residência, foi se tornando o lugar mais desenvolvido da região, a vila em volta crescia junto e acabou por se tornar um lugar de convergência da população.

 

Isso explicaria a descontinuidade da construção da Capela de São João, "disputando" com a Igreja dos Reis Magos.  

 

Há dificuldade em estabelecer quem foi o responsável pelo traço e a construção da Capela de São João, algumas fontes dizem que o Padre Brás Lourenço foi o idealizador já outras fontes creditam a construção da Igreja aos padres Pedro da Costa e Diogo Jácome, responsáveis pelo aldeamento.

 

A Vila obedecia ao padrão jesuítico da época, casa ao lado da igreja ocupando uma lateral inteira, a residência dos religiosos de São João provavelmente ficava à direita da construção, esta construção se perdeu com o tempo.

 

É importante você saber que a configuração da Igreja nessa época não era a mesma que conhecemos hoje, em seus primeiros traços a Igreja não tinha a torre sinaleira e a fachada apresentava um desenho mais triangular;


Em seus primórdios, lá no século XVI, a  Igrejinha não era como nós conhecemos hoje , naquela época ela não tinha a torre sinaleira, por isso, intencionalmente cortamos essa parte da foto para a ajudar você nesse exercício de imaginação, a fachada da Igreja também era diferente na época, mais triangular, conforme o padrão dos templos jesuíticos.
São raríssimas registros dessa época da construção.


 

a configuração da Capela como conhecemos hoje vai se dá com o tempo, conforme veremos em breve.

 

A história da Capela de são João pode ser divida em 3 fases;

 

a 1º fase corresponde ao início de sua construção em 1584, onde, conforme vimos, a construção se deu de forma descontinuada.

 

Em 1746 a Igreja entra em sua 2ª fase, onde são feitas algumas alterações no arco cruzeiro – região de interseção da nave central – no frontispício – fachada principal da igreja – e na capela mor – a principal capela em uma igreja.

 

No entanto, este período de reformas e mudanças dura pouco, isso porque coincide com a expulsão da ordem jesuítica do Brasil e mais uma era de abandono recai sobre a Capela de São João.

 

Esta situação só vai mudar no século XIX, com a elevação da aldeia de São João à condição de Freguesia de São João, entramos então na 3ª fase, neste período a Capela passa por novas reformas no ano de 1880, aí ela ganha a torre sinaleira e 2 corredores laterais tomando a forma que conhecemos hoje em dia;


Depois da reforma de 1870 a Igrejinha fica na configuração que conhecemos hoje, ela ganha uma torre sinaleira com teto abobado em meia laranja além de corredores laterais. 



Aqui a torre sinaleira em detalhe, se você prestar atenção vai perceber uma marcação indicando o ano da construção, isso era comum nas edificações da época




Aqui a torre sinaleira e a fachada frontal em detalhe.


 

No entanto, algumas décadas depois de sua nova reforma, a Capela é novamente relegada ao esquecimento e sofre, inclusive, uma demolição que quase a extingue por completo, em 1984 é tombado como patrimônio histórico pelo Conselho Estadual da Cultura – está tombado a nível estadual, importante esta informação no que tange a questão do Caso TIMS que vimos no início do artigo.  

 

Em 1996 passa por uma nova reforma que a restitui tipologicamente, estruturalmente e linguisticamente a arquitetura original do monumento.

 

Desde então a Capela de São João Batista, ou simplesmente "Igrejinha", é parte constitutiva da comunidade de Carapina.

 

Vemos aqui a visão interna da Igrejinha, do arco cruzeiro e do altar

aqui a placa inaugural.



O piso da Igrejinha se mantem , em grande parte original do século XVI




A parte do corredor lateral visto de dentro da Igrejinha, faz parte das reformas de 1870



Do altar, olhando para a porta principal tem-se esta vista.


Abaixo um pequeno vídeo com uma vista de 360º da parte interna da Capela.






 

O CASARÃO MISTERIOSO






 

400 metros depois da Igrejinha, encontramos uma construção imponente, da qual pouca coisa se sabe...

 

Não existe registros documentais sobre esta edificação;

 

A construção em pedra coral, trazidas do mar, indica que trata-se de uma construção contemporânea aos jesuítas;


Detalhe da parede, as pedras de coloração roxa são pedras corais trazidas da praia, olhando mais atentamente, na parte da argamassa, você via perceber pedaços de conchas do mar.


 

Alguns historiadores capixabas dizem que a construção foi feita pelos jesuítas, mas há aqueles que supõem que tenha sido a sede de uma fazenda que tenha existido na região.


Histórias e lendas sobre o lugar não faltam;


Alguns dizem que há um túnel secreto usado pelos escravos, outros dizem que existem artefatos escondidos pelos fugitivos do Queimado.

 

A falta de documentos dificulta conhecermos sua origem, talvez, com um maior empenho dos historiadores capixabas poderíamos conhecer mais desse misterioso monumento; 


de qualquer forma, independente dos mistérios que cercam este monumento, fica evidente sua importância histórico/cultural que se encontra completamente abandonado pelo poder público e ameaçado pelas obras do TIMS que chegam  perigosamente próximas.


O que preocupa mais;
o avanço da empresa ou a negligência do Estado?


O Casarão misterioso de Carapina tem uma importância histórica equivalente a da Igrejinha de São João Batista, não merecia estar, não somente abandonado pelo poder público, como também ameaçado por interesses financeiros. 


Um país que não respeita seu passado não tem futuro.  


Esta foto é de 2015, hoje o teto já não existe mais... 
aos poucos, pedra por pedra vamos acompanhando nossa história desaparecendo.
Sem nada fazer.
  







     

 

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E aí, curtiram o artigo desta semana ?? 


Preocupante o tema, não é mesmo?


Esperamos que trazer este assunto à tona alerte nossa sociedade para algo que está ocorrendo há anos, sem o conhecimento de grande parte da população. 


Precisamos ficar atentos aos movimentos das mega corporações, para estas empresas considerações de ordem cultural, social, históricas não interessam, somente o lucro importa.


A sociedade pode atuar mais, de forma organizada e participativa.  


Só reclamar não adianta.


Esperamos ter ajudado no debate.


Entra aí nos comentários, diz o que você pensa!


Semana que vem retornamos.


Até lá e cuidem-se !!


   

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