MEU MELHOR AMIGO

Olá Escritores !!


Preparados para o artigo desta semana? 


Hoje, vamos dividir com vocês algo de muito significado para nós, uma fase de nossa vivência que foi cheia de angústias e medos, mas que passou e nos ensinou lições que nunca esqueceremos;


a ideia é demonstrar que toda história de vida é uma história interessante, não importa se é uma vida longa ou curta toda a história conta;


e aqueles que fizeram de nós o que somos não devem ser esquecidos, jamais!

 

As anotações que você está prestes a ler foram selecionadas diretamente de nossos diários e anotações, escritos há muitos anos atras.  


Sim, nós escrevemos diários, vocês não? 


Diários são excelentes companheiros, ele é aquele amigo que nos entende como ninguém, principalmente nos momentos conturbados; 

  

a intenção aqui é estreitar nossos laços nessa relação escritor/leitor. 


Estreitar estes laços até que eles desapareçam por completo e todo leitor torne-se um escritor e vice versa; 


nós só conseguiremos isso se deixarmos falar a nossa humanidade nua e crua,  sem os filtros do mundo dos algorítimos que decidem tudo por nós ou das redes sociais que camuflam nossas existências com máscaras de felicidade.


Uma vida plena implica em reconhecer que os momentos difíceis são parte constituinte da vida, não dá pra fugir deles; 


e se você ou alguém que você se importe estiver passando por um momento difícil queremos que você saiba que torcemos muito para que tudo se acerte; 


seja forte e atravesse sua dor. 


Aguente firme !!


...


Os anos de 2010/11/12 foram anos complicados pra mim e para minha família; 


meu sobrinho Gabriel foi diagnosticado com um câncer infantil, o chamado neuroblastoma; 


Infelizmente, depois de 1 ano de tratamento ele acabou nos deixando com 2 anos de idade, mas o seu legado de esperança e força ficou cravado no coração de todos que tiveram a oportunidade mágica de conhecer este pequeno guerreiro.


Gostaria que vocês também tivessem esta oportunidade. 


por isso decidi dividir com vocês algumas das minhas anotações pessoais dessa época tão conturbada.


Então, venham conhecer um pouco do meu melhor amigo. 

  

Boa leitura !!








20/07/2011


hoje cheguei ao limite de minha angústia e preciso botar isso para fora de alguma forma todos este sentimentos que me destroem por dentro; 


dizem que cada homem carrega dentro de si um demônio, o meu demônio se chama "câncer"; 


esta maldita doença atingiu o ponto mais fraco de toda uma família. 


Desde que este pesadelo começou tenho vivido uma terrível aflição, é muito triste ver uma pessoas amada sofrendo e não poder fazer nada, é a coisa mais angustiante que você pode imaginar.


somente eu posso dimensionar o que está sendo enfrentar esta situação, porque eu carrego comigo este "código" de não demonstrar fraqueza na frente dos outros e isso acaba comigo, porque eu não divido nada com ninguém, sei que estou me machucando, mas acredito estar fazendo a coisa certa.


Minha irmã também está sendo muito forte, muito mais do que eu na verdade, mas assim como eu, o que se passa em seu íntimo para o outros é um verdadeiro mistério. 


Choro todos os dias, geralmente a noite depois que volto do hospital e estou sozinho no meu quarto, algumas vezes (muitas vezes) choro copiosamente. 


Mas na frente dos outros estou sempre firme e disposto. 


O fato é que o pequeno Gabriel enfrenta um um perigoso desafio ele está lutando pela vida e todos os meus problemas ficaram tão insignificantes diante disso. 


Antes deste pesadelo começar eu olhava as paredes da minha pequena reforma, imaginando como ia fazer para conseguir terminar aquela obra que tanto aborrecimento me trouxe e fazendo planos para o futuro, mas tudo isso ficou tão insignificante diante dessa desgraça que se abateu sobre nós. 


Queria tanto acreditar que tudo isso não passa de uma provação divina, que depois que nós tivermos nossa fé testada Gabriel seria milagrosamente curado, mas eu não posso acreditar nisso, não posso acreditar nisso com a sinceridade que eu gostaria, eu sei bem como as coisas são e Deus não está aqui.  


A morte é um espectro sempre a nos rondar. 


Vivo em um estado de aflição permanente;


Se o telefone da casa toca, em qualquer horário, meu coração dispara;


se chego em casa e não encontro ninguém fico pensando mil besteiras; 


se alguém chama no portão quero logo saber  quem é e do que se trata. 


E assim tenho vivido meus dias ...


...


Vou ao hospital todos os dias, passo uma média de 2 horas com Gabriel. 


Alguns dias (raros dias) ele está tão bem, brincando, se divertindo, a gente até esquece que ele está doente, mas, infelizmente, na maioria dos dias o Gabriel que eu vejo não é o Gabriel que eu conheço.


Ele precisa ficar ligado a uma máquina o tempo todo, isso limita muito seus movimentos, a mão direita fica meio que imobilizada porque o soro, os remédios e a quimioterapia são ministrados por aí.


Os remédios, as vezes, deixam o pequeno sonolento e nos últimos dias ele quase não fala nada, só quer ficar grudado na mãe o tempo todo.


Eu noto que, apesar de ser apenas uma criança e não está entendendo direito o que está se passando, ele possui sim uma percepção aguçada sobre o que se passa, algumas atitudes dele evidenciam isso; 


ele não gosta de mostrar a barriguinha que está inchada, ele puxa a camisa e faz questão de esconder, sabe, de alguma forma, que seu problema está ali. 


Um dias desses, em uma de minhas visitas, para tentar alegra-lo, peguei meu celular e mostrei uma foto do nosso cãozinho que ele gosta tanto, sua reação me chamou a atenção e também me emocionou muito;


primeiro, ele olhou para a foto e ficou uns segundos em silêncio, depois sorriu e disse quase num sussurro "kokuss" (Flocos, o nome do cachorro) olhou para o teto suspirou e chorou, mas não  foi um choro de tristeza nem de dor, mas sim um choro de saudade. 


Acho que naquele momento tudo que ele queria era voltar para casa, ficar com sua família, com seu cãozinho ...


fiquei muito mal por ter causado isso nele, guardei essas fotos e só mostro quando ele me pede.


(...)


O relato que você acabou de ler abrangem os primeiros meses de internação, foi a fase mais difícil porque tudo era muito novo e eu não sabia como lidar com esta nova rotina, isso sem falar no medo constante, dá pra perceber no tom sombrio das anotações, sempre um medo, uma angústia e sempre uma certa culpa ... a gente se culpa muito nessas situações e isso é outra coisa que precisamos administrar neste turbilhão de emoções. 


Na verdade, numa situação dessas, acho que a primeira coisa que é afetada é a sua estrutura psicológica, suas emoções entram em colapso e os humores variam muito. 


Você pode passar da euforia a uma depressão profunda a qualquer tempo, além disso, uma irritabilidade desproporcional que sobra sempre pra quem não merece, enfim, é um estado de emoções fortes com as quais não sabemos lidar. 

Hoje, passados tantos anos dessa fase, eu posso afirmar categoricamente que, os relatos que você acabou de ler, constituem a pior fase de todo este processo pelo qual passamos.        


27/09/2011


Lendo novamente meus últimos escritos vários questionamentos brotaram em minha mente:


Seria certo falar de sentimentos que estão tão profundos em meu coração?


Expor, para o mundo inteiro coisas de cunho tão íntimo e familiar? 


Pensei em excluir estes escritos várias vezes, mas nunca tive a coragem de fazê-lo e agora quero falar mais sobre minha intimidade, espero estar fazendo a coisa certa ...


desde meu último registro já se vão aproximadamente 2 meses e muita coisa aconteceu desde então; 


no meu último relato eu estava realmente com os nervos a flor da pele, ainda estou angustiado, obviamente, mas agora administro melhor minhas emoções. 


O pequeno Gabriel responde tão bem ao tratamento que nos enche de otimismo. 


É tão curioso e mágico o jeito que as crianças encaram situações limítrofes como esta, para ele tudo não passa de um grande incômodo e nada mais, as neuras, medos e aflições ficam por conta de nós, os adultos. 


Tem dias que ele se mostra muito irritadiço por não poder se mexer direito e você pode imaginar que uma criança de 2 anos queira muito correr, brincar e se movimentar, não é mesmo? 


nesses dias precisamos ter muita paciência porque é um show de pirraça, sobra para todo mundo, mas nesse dias de pirracinha sobra mesmo é pra minha irmã. 


tadinho ... nada disso é culpa dele. 


Gabriel fica alternando uma temporada em casa e outra no hospital, grande avanço para quem tinha que ficar direto no hospital né. 


Ele está aprendendo a falar no meio disso tudo, e sempre nos surpreende com uma palavra nova que ele aprendeu, não sei como. 

Tão engraçadinho ver ele falando "memera cabô memédio" (enfermeira, acabou o remédio) ou "fiz baguça" (fiz bagunça). 


É uma dessas ironias injustas da vida ...


o garoto está crescendo dentro de um hospital.


Eu tenho 35 anos e nunca passei nem por um terço do que este menino com 2 anos passa.


Dá pra imaginar muito bem que tipo de homem ele vai ser. 


Queria tanto ver este pesadelo passar, ver este garoto na escola, brincando com os moleques da sua idade, ensiná-lo a jogar xadrez, a tocar bateria, amar os animais a Natureza, depois ver ele discordar de tudo que falo naquela rebeldia típica dos adolescentes, ver ele se apaixonar e passar por todos aqueles turbilhoes de emoções que os apaixonados têm que atravessar, ter uma vida plena e feliz, cheia de aventuras para que ele possa olhar para trás e dizer que valeu muito a pena ... 


Esse garoto é o mais próximo que eu cheguei de um filho e é assim que eu o sinto de todo o meu coração.


(...) 


Nesses relatos as coisas estão muito mais leves e esperançosas, depois que a gente se adaptou a rotina do hospital e com a boa resposta aos tratamentos o ambiente ficou muito mais leve, com a boa resposta de Gabriel ao tratamento ele passou a alternar hospital/casa foi uma fase maravilhosa, voltar para casa foi ótimo para todo mundo.


Mas, apesar desta fase havia sempre uma certa angústia no ar.


 

10/10/2011


O tratamento do pequeno Gabriel continua e com ele toda a minha angústia. 


Gabriel ficou em casa umas 2 semanas e em muitas de minhas visitas eu até esquecia que ele estava doente tamanha era a sua alegria e disposição para brincar. 


Gabriel é extremamente ligado a mãe dele e isso as vezes é um problema já que ela não pode sequer ir ao banheiro sem um festival de choro e pirraça, mas acredito que isso seja muito natural para uma criança de sua idade. 


Sempre ouvi dizer que as pessoas se acostumam com tudo, tanto coisas boas como coisas ruins e acho que foi isso que aconteceu com minha família, Gabriel continua enfrentando sua doença, mas o passar dos dias vem meio que "anestesiando" todo mundo, inclusive eu, já não é mais tão desesperador ver o menino indo e vindo ao hospital. 


É obvio que estamos angustiados, mas não dá pra viver em estado de pânico o tempo todo, cada um de nós está tentando se adaptar a esta situação sem enlouquecer, esta é a nossa sombria rotina.


É tão difícil olhar para frente e encarar as incertezas do futuro, mas, ao mesmo tempo, é tão animador olhar para trás e ver o quanto já andamos ... 


Consegue entender isso? 


São sentimentos ambíguos e contraditórios, difíceis de explicar. 


...


Estamos indo para a quarta sessão de quimioterapia ...


(...) 




Algum tempo depois destes registros, com 2 anos de batalha Gabriel cumpriu seu destino e se foi ... 


...


É obvio que foi muito triste par mim e para toda a minha família, mas não há tristeza que dure para sempre. 


Com o passar dos dias eu compreendi que na verdade o que eu tive foi uma oportunidade extraordinária de ver minha vida com outros olhos. 


Aprendi tanto com Gabriel e sua curta companhia ... 


Foram 3 anos de uma amizade intensa e muito bonita; 


eu chamava ele de "meu melhor amigo" e falava isso com ele sempre que podia: 


você é meu melhor amigo! 


Eu dizia, e ele me respondia o mesmo: 


- Oguigo é meu melhor amigo! 


Era tão divertido ...


Hoje, passados tantos anos daquele tempo de tanta incerteza e medo, posso dizer que estou finalmente em paz comigo mesmo, a gente sofre muito numa situação assim, mas não podemos deixar nosso sofrimento obnubilar o valor da oportunidade mágica que é estar vivo, devemos pensar em quem ficou com a gente para dividir com eles nossos fardos e sofrimentos, pois outros além de nós sofrem; 


sofremos todos e vivemos apoiados uns nos outros, sempre. 


Além disso, tanta coisa boa aconteceu depois destes acontecimentos;


meus sobrinhos nasceram fortes e saudáveis, minha família prosperou e foi tudo por e para ele!


Algumas coisas tristes aconteceram nessa caminhada, é verdade, mas isso é a vida, certo?

  

Fui muito cauteloso na escolha dos trechos de minhas anotações, pois cada um de nós lida com suas emoções de um jeito muito pessoal, e aqui estou lidando com a dor de toda uma família, por isso coloquei aqui somente o que se referia a minha pessoa. 


Sou EU quem quer dividir com vocês o fardo de uma dor que passou, é verdade, mas deixou marcas que jamais serão apagadas.


E fiz isso porque gostaria que vocês soubessem que o Gabriel foi, de longe;


Meu Melhor Amigo.



Esta é a minha foto preferida!
Sorriso franco e espontâneo!!





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E aí gostaram do artigo dessa semana ??


Muitas emoções hein ...


Dividimos com vocês sentimentos muitos especiais;

É isso que os amigos fazem, não é mesmo? 


Neste encerramento gostaria de falar um pouco mais sobre meu melhor amigo;


Gabriel sempre demonstrou, desde muito cedo aptidão musical;
pegava ritmos com extrema facilidade e sempre se interessava por objetos musicais.



Aqui, Gabriel com nosso cãozinho Flocos que ele adorava, Flocos também nos deixou no ano de 2016.  




Gabriel sempre demonstrou uma maturidade grande para a sua idade, surpreendia todo mundo com seus rompantes de genialidade




Colinho de mamãe .... quem não quer né !



Aqui, Gabriel ajudando na reforma com sua curiosidade de sempre. 



Aqui em uma de suas temporadas no hospital;
Sempre fiquei admirado com a grandeza que ele demonstrou passando por tudo isso ...



Pirracinha faz parte né ...




Gabriel e um de seus brinquedos, sua preferência era sempre para brinquedos musicais, seria um gênio da música, com certeza.




A última foto que tirei dele ... 
Hoje eu entendo o valor dos momentos que passamos com quem gostamos e a oportunidade maravilhosa que a vida é.
 




E por fim, dedico este singelo artigo a minha irmã Laila;

a pessoa mais forte que eu conheci, que passou por todo este processo com dignidade e força e nos ensinou muito sobre gratidão por estar vivo e seguir em frente, justamente pelos entes que perdemos de forma tão injusta e precoce. 

Grande inspiração de força pra mim.

Valeu Mamãe Laila ! 


...


Semana que vem nos encontramos aqui novamente. 


Até lá e cuidem-se !!!!




 

 

 

   




   

          



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