INSURREIÇÃO DO QUEIMADO: VIVER LIVRE OU MORRER LUTANDO

Olá Escritores !!


Prontos para o artigo desta semana??


Hoje vamos falar de um dos maiores acontecimentos do estado do Espírito Santo 


Um fato cheio de simbologia e de mistérios ....


Vamos falar sobre a INSURREIÇÃO DO QUEIMADO !!


Em um país como o Brasil, que evita falar de suas chagas, é importante fazer um resgate da nossa história e mais importante ainda aprender com o nosso passado.


Para um dia, quem sabe, extirpar este racismo estrutural de nossa sociedade; 


revisitar o passado e aprender com ele faz parte deste processo.   


Vocês acreditam que muitos capixabas não conhecem esta história !!? 


Mais um motivo para falarmos sobre este grande acontecimento do nosso passado. 


O artigo que você esta prestes a ler foi fruto de muita pequisa in loco, além do livro "Queimado: A Insurreição Que Virou Mito" de Luiz Guilherme Santos Neves, este por sua vez baseados nos estudos de Afonso Cláudio de Freitas Rosa, um grande historiador da história capixaba, além de pesquisas on line, principalmente nos portais da prefeitura de Serra, entre outras fontes. 


Esperamos que a sua leitura seja proveitosa;


Boa Leitura!!



 





Se o Brasil tem um "Quilombo dos Palmares" para chamar de seu o Espírito Santo tem uma "Insurreição do Queimado" para chamar de seu;


e se o Brasil tem um "Zumbi de Palmares" para chamar de seu o Espírito Santo tem um "Zumbi da Serra" para chamar de seu - Elisiário ficou conhecido como o "Zumbi da Serra" 


Só uma curiosidade etimológica para começarmos, a palavra "insurreição" era justamente a palavra que os senhores de escravos da região costumavam usar para se referir aos negros revoltosos, a palavra portanto, era pejorativa naquela época, no sentido que sugeriria que a culpa da revolta estava do lado dos insurgentes. 


Hoje em dia o peso da palavra "insurreição" ganhou outro significado e não tem problema nenhum se referir a este fato como "Insurreição do Queimado" ou "Revolta do Queimado" entre outras terminologias.   


Aqui, vamos nos referir a este fato como "Insurreição do Queimado" justamente por acreditarmos que quem sofre uma injustiça tem o direito e o dever de se insurgir contra a covardia mesma.  


... 


A Insurreição do Queimado  foi o maior movimento de revolta ocorrido no Espírito Santo, ocorreram outras sublevações em solo capixaba, como em são Mateus, Aracruz, Cachoeiro de Itapemirim também nas redondezas de Vitória, há registros, inclusive, de uma rebelião muito violenta ocorrida na então freguesia da Serra, isso maio de 1826, mas nenhuma delas mobilizou tanto as tropas federais, que vieram do Rio de Janeiro e gerou uma grande movimentação, tanto da imprensa como dos fazendeiros da região, como a Insurreição do Queimado.


São estes fatores que fazem da Insurreição do Queimado a maior do Espírito Santo e uma das maiores do Brasil. 


Mas vamos começar a contar esta história do começo:


Queimado era uma freguesia, você sabe o que é uma freguesia? 


Freguesia era a menor divisão administrativa que a coroa portuguesa possuía, era tanto eclesiástica como política. 


Queimado foi criada pela Lei Provincial nº 9 de 1846, fazia divisa com a freguesia da Serra pelo Rio Tangui e Porto do Una, seguindo a margem do brejo até a ponte de mesmo nome e, em linha reta, até a estrada de São João, na ladeira das pedras, compreendendo Itapocu e todo o Caioba - este é o endereço do lugar de acordo com dados do século XIX.


É importante contextualizar historicamente a Insurreição do Queimado; 


a Insurreição acontece em um Brasil escravocrata, cerca de 40 anos antes da abolição da escravatura no país, que ocorreu oficialmente em 1888, o Brasil é um país construído sobre a escravidão de negros, são mais de 3 séculos de escravatura, é ilusão pensar que um fato tão marcante assim não vai ser "imprimido" em nosso DNA, o preconceito racial está em nosso ethos e precisamos falar sobre isso.


Em meados do século IXI, com a expansão do campo para as cidades, a mão de obra escrava é largamente usada em trabalhos urbanos; 


enquanto isso... 


nas lavouras de café e nos campos ermos, afastados dos grande centros (caso do Queimado)  a violência dos senhores de escravos aumentava,  rumores de liberdade ecoavam aos ouvidos dos escravocratas, rumores de que a escravidão não seria mais tolerada no mundo civilizado, pelo medo inerente a todo covarde, exploravam com mais truculência e covardia seus escravos, este, entre outros fatores, fizeram as revoltas se tornarem cada vez mais frequentes, abrindo o caminho para a abolição que viria mais tarde.


Assim, a Insurreição do Queimado não foi um fato isolado e surge no contexto de um tempo escravagista; 


Este é o contexto histórico em que se dá Insurreição do Queimado. 

  


UM PERSONAGEM CONTROVERSO



Um dos principais pivôs da Insurreição do Queimado foi o Frade italiano Gregório José Maria de Bene;


O Frei fazia parte de um grupo de missionários que chegaram no Espírito Santo na metade do século IXI com a missão de propagar a religião católica. 


O Frei Gregório ficou acomodado na freguesia do Queimado e dando uma volta pela região decidiu construir uma igreja em homenagem a São José no alto de um morro da localidade, a pequena colina era um lugar ermo, afastado das casas, um lugar de mata fechada.  



O lugar pertencia a Viúva Maria Penha de Jesus, a viúva Monteiro; Fortunato, "dona" de João da Viúva - no Brasil escravocrata era comum o escravo ter um apelido que remetesse ao seu senhor.   


Para construir a Igreja Frei Gregório mobilizou vários fazendeiros da região; 


Alguns ajudavam com materiais e outros fornecendo os escravos que trabalhariam na construção.


Nem todos concordavam com a construção da Igreja, o capitão José Monteiro Rodrigues Velho, um dos fazendeiros donos de escravos da região, muito conhecido em Queimado por ser extremamente violento com os escravos, não queria que a Igreja fosse construída, não se sabe ao certo o motivo da recusa de Rodrigues Velho, de alguma forma, a construção da Igreja faria Rodrigues Velho perder dinheiro, perdendo escravos para Igreja talvez;

 

a proximidade do Frei com os escravos também incomodava Rodrigues Velho. 


Mas Frei Gregório estava decidido a levantar a Igreja e determinou toda a sua vontade para concluir o empreendimento. 


Uma missa para lançar a Pedra Fundamental da Igreja foi celebrada no alto da colina em 15 de agosto de 1845 e, em 19 de março de 1849, dia de São José, a Igreja houvera sido concluída. 


Durante o período de construção da Igreja foi-se difundindo, entre os escravos, a crença de que quem trabalhasse na obra ganharia a carta de alforria e a liberdade.


Naquela época a "Carta de Alforria" era o documento pelo qual um escravo poderia alcançar a sua liberdade, ela só poderia acontecer se o dono do escravo a concedesse ou, em casos muito raros, se o escravo conseguisse recursos para ele mesmo comprar a sua liberdade. 


Os negros do Queimado esperavam que a influência de Frei Gregório, frente a Igreja Católica e aos fazendeiros,  fornecesse o documento.


Frei Gregório foi um personagem polêmico e, geralmente, sua figura é associada a uma espécie de "caloteiro" que prometeu a alforria para os escravos que trabalhassem na construção da Igreja e, simplesmente, não cumpriu; 


mas há relatos de que ele era uma pessoa sabidamente contra a escravidão, tido como uma pessoas de ideais libertários, consta também que a promessa feita por Frei Gregório não foi exatamente da alforria dos escravos, mas sim  interceder junto aos fazendeiros para que estes concedessem o documento; 


não pretendemos aqui "inocentar" o Frei Gregório, este é um ator que tem papel preponderante no palco dos fatos, além disso, fica evidente que  havia claros interesses políticos do Frei na construção da Igreja, daí seu empenho pessoal na construção da obra, mesmo diante das inúmeras dificuldades já que a freguesia do Queimado não era uma freguesia de ricos proprietários de escravos;


Registros em cartório demonstram que havia uma média de 4 mil pessoas morando nesta freguesia, a maioria pequenos proprietários de terras e escravos, construir uma Igreja nesta localidade seria um grande feito político/eclesiástico para o Frei. 


Seis dias depois da Insurreição, em um juramento que fez com toda a solenidade, Frei Gregório se declara inocente, veja um trecho do seu juramento: 


(...) Eu, Frei Gregório,  indigníssimo ministro da cruz, juro diante do verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e chamo ele em testemunha da minha inocência, juro e repito que eu não fui a causa, nem aconselhei a eles no motim que fizeram no dia de São José 19 do corrente ...     


Em contrapartida, um dos escravos condenados a morte deu um depoimento, contido em um oficio de 10 de janeiro de 1850 ao cônego Francisco Antunes da Siqueira, que sequer anotou o nome do depoente, portanto, não se sabe se foi João da Viúva ou Chico Prego, o depoimento contradiz o juramento de inocência de Frei Gregório, veja um trecho da declaração de um dos escravos no documento do cônego - estes documentos são públicos para consulta no Arquivo Público Estadual. 


(...) Com toda a coragem respondeu-me que ia morrer a sangue-frio, que não temia a morte, porque crime algum tinha feito, pois estava inocente. 

Que o culpado de sua desgraça tinha sido o reverendo Frei Gregório Maria de Bene, vigário da freguesia de Queimado por lhes haver prometido a sua carta de liberdade, logo que fosse concluída a igreja, e terem eles trabalhado aos domingos e dias santos, que eles, por terem sido negros tolos, muito acreditavam no senhor padre, pois era um sacerdote, santo e sábio, e que nunca pensaram em tal resultado (a insurreição), pois só queriam a sua liberdade, e nada mais, e que se ele ia morrer era porque sua senhora (dona) não tinha dinheiro, nem empenhos, como tiveram os outros com o o mesmo crime.   


Assim, como em todo fato histórico, temos várias versões do mesmo fato e uma Verdade que jamais alcançaremos verdadeiramente.


Depois do ocorrido Frei Gregório foi expulso do Espírito Santo e engolido pelas sombras da história.



O DIA DA INSURREIÇÃO 



No dia 19 de março de 1849, as 3 horas da tarde, uma procissão numerosa veio para a inauguração da Igreja de São José do Queimado, como era de costume, os fieis iam a frente e os negros escravos atras, na Igreja, também pelo costume, os escravos ficavam de fora.


Somente Elisiário entrou na Igreja; 


Elisiário, tido como um "negro inteligente" pertencia a Faustino Antônio de Alvarenga Rangel, era conhecido pela "boa conversa" e pelos dotes em construção, tinha certo prestígio junto ao Frade e alguns fazendeiros, tinha permissão para entrar na Igreja e em algumas casas, era também respeitado e ouvido pelos outros escravos, neste dia foi incumbido da tarefa de acompanhar a missa até ser dado as boas novas da liberdade dos escravos; 


mas, passado um tempo sem que a porta fosse aberta, começou a aumentar entre os escravos um clima de incontrolável ansiedade, em certo momento, os escravos armados e injuriados entraram na Igreja interrompendo a missa e gritando "vivas à  liberdade!". 


Chico Prego, conhecido por ser um homem forte e corpulento e João da Viúva incitavam os outros escravos a invadir a Igreja e forçar Frei Gregório a cumprir sua promessa. 


Frei Gregório correu e trancou-se da sacristia da Igreja, ficando isolado dos escravos.


Elisiário assumiu o papel de "negociador" entre o o Frei e os escravos, mas a esta altura o clima estava muito tenso e os escravos começaram a se organizar para invadir todas as fazendas da região, aliciando os escravos das fazendas vizinhas para a sua causa:


Conseguir a liberdade a força! 


Naquela freguesia era comum a permissão para os escravos andarem armados, isso ocorria para que os mesmos se protegessem contra o ataque de animais selvagens, portanto, os escravos revoltosos da Igreja de São José estavam armados com rifles e facões. 




O mosquete, principalmente, era o exemplo de arma mais usada na época,  muito comum nas mãos dos escravos na freguesia do Queimado.


Não dá pra saber ao certo se a revolta foi premeditada ou um ato de impulso ante o não cumprimento das promessas de Frei Gregório;


Mas há algumas evidências que apontam que eles não estavam acreditando totalmente no Frei Gregório, o "plano b" dos escravos era se aproveitar das armas a sua disposição e forçar os senhores de escravos a libertá-los 


Para o historiador Afonso Cláudio de Freitas Rosa a Insurreição foi premeditada: 


Adquirir a liberdade pela força, eis o plano mais ou menos conhecido. 


Pode parecer um plano sem muita chance de dar certo, mas demonstra a disposição dessas pessoas em conquistar a sua liberdade ou morrer lutando por ela. 


Veja a seguir a reprodução de uma notícia do jornal Correio de Vitória noticiando a Insurreição do Queimado, a notícia data de 21 de março de 1849:


No dia 19 do corrente um grande grupo de escravos invadiu a igreja da povoação do Queimado na ocasião em que se celebrava o santo sacrifício da missa, em gritos proclamavam a sua liberdade, e alforria, e seguindo para diversas fazendas e aliciando os escravos delas e, em outras, obrigando os seus donos a darem liberdade a seus escravos, engrossou em número de 300.


Na mesma nota, para tentar acalmar os fazendeiros donos de escravos e evitar um clima de histeria coletiva que a Insurreição dos escravos poderia trazer, o Correio de Vitória tentou acalmar os seus leitores:


Sua excelência, o sr. presidente da província, soube deste triste acontecimento às 3 horas da tarde, sem perda de tempo fez seguir para povoação o chefe de polícia acompanhado de tropa convenientemente municiada.

Estas providências, e outras que o presidente tem dado, ajudado na dedicação e valor dos habitantes daquele lugar e outros bem como a Serra e Cariacica fizeram com que ontem fossem batidos tanto na povoação do Queimado, como na Serra dois grandes grupos daqueles criminosos que morreram, ou fugiram em completa debandada, deixando no campo as armas e munições que conduziam 



UMA REAÇÃO VIOLENTA 



A Insurreição do Queimado mobilizou um grande contingente federal para a sua contenção. 


Também entrou para a história como uma das mais violentas reações do Estado brasileiro; 


veja um trecho do ofício do presidente da província bacharel Antônio Joaquim de Siqueira datado de 20 de março de 1849 pedindo a intervenção federal:


(...) Ontem, pelas três horas da tarde, soube que um grupo armado de trinta e tantos escravos perpetrara o crime de insurreição no distrito do Queimado, três léguas distante desta capital (Vitória), invadindo a matriz na ocasião em que se celebrava a missa conventual, e levantando os gritos de viva a liberdade, querendo alforria. 

Este grupo seguiu depois a direção do engenho fundão, de Paulo Continho Mascarenhas e aí obrigou-lhe a entregar-lhe os seus escravos e passar-lhes carta de liberdade, as armas e munição que possuía; 

o mesmo fez em outros engenhos de maneira que conseguiu elevar seu número a cerca de trezentos. 

Imediatamente fiz partir para aquele lugar o chefe de polícia, acompanhado de uma força de vinte praças da Companhia fixa de Caçadores, comandadas por um oficial. 

Escusado é narrar para V.Exa. o susto e o terror de que se acham apoderados os habitantes desta capital e lugares circunvizinhos. 


e a seguir o relato do chefe de polícia da então Província do Espírito Santo, José Inácio Acioli de Vasconcelos, o documento dirigia-se ao presidente da província e relata o combate e a captura dos escravos: 


(...) Cumpre-me levar ao conhecimento de V.Exa. que cheguei hoje a esta freguesia, às quatro horas da manha e constando-me, poucos mementos depois, que um grupo de escravos armados, em número de cinquenta ou mais, estava reunidos nas imediações dela, e que se dirigia para aqui com o plano de proclamarem a sua liberdade, e de assassinarem todos aqueles que porventura se opusessem, dei imediatamente ordem ao alferes, comandante do destacamento, que marchassem sobre eles com as praças a sua disposição e com mais alguns cidadãos que pude reunir, 

conservando-me aqui com algumas pessoas deste distrito;

e sendo os ditos escravos encontrados ladeira que desce para Aroaba, em direção para esta freguesia, forma aí completamente batidos pelo referido destacamento, sendo em resultado mortos oito, presos seis e uma escrava, mulher de um deles. 

É-me sobremaneira sensível ter de comunicar a V.Exa. que foi ferido o alferes, comandante deste destacamento, na fronte e na mão direita, bem como quatro praças, e tanto aquele, como estas regressam a essa capital por não poderem continuar a prestar serviços. 

Lembro a V.Exa. a necessidade de mandar quanto antes algum cartuchame, pólvora e chumbo grosso. 

Em outra ocasião darei a V.Exa. a informação mais minuciosa a este respeito, o que não faço agora por falta de tempo, bem assim terei a honra de enviar a V.Exa. relação dos praças e cidadãos que mais se destacaram no combate.    


Contando com o dia da sublevação na Igreja até a captura dos líderes do movimento foram aproximadamente 3 dias de luta, perseguições na mata, caçadas com execuções sumárias e castigos corporais até os líderes do movimento serem surpreendidos pelas tropas federais conforme o relato que acabamos de ler; 


Outro fato que nos chama a atenção no relato que acabamos de ler faz referência a participação de uma escrava, citada no documento apenas como "a mulher de um deles"


Quem era esta escrava?


Qual o seu papel na Insurreição do Queimado? 


Quantas outras mulheres participaram do movimento? 


São perguntas que ficam neste ponto cego da história ...


...    


A perseguição aos revoltosos foi progressiva e durou vários dias, dos cerca de 300 participantes, 30, aproximadamente, foram capturados nas matas da região e permaneceram presos para seu "julgamento", muitos foram mortos por execução sumária ou nos confrontos diretos com as tropas federais, seus corpos dispensados na Lagoa das Almas, como era do costume da época.


Antes dos julgamentos serem concluídos os prisioneiros eram submetidos a castigos corporais diários, isso sem falar nas celas sem nenhuma condição sanitária, alimentação precária e total abandono. 


Muitos preferiram o suicídio a enfrentar seu destino, há o registro de um escravo de nome Adão, pertencente ao capitão Paulo Continho de Mascarenhas que se suicidou comendo cal da parede da Santa Casa de Misericórdia de Vitória enquanto recebia tratamento lá;


Outro caso foi de um escravo de nome Sebastião de propriedade de Faustino de Alvarenga que enquanto era preso e escoltado pelo Cais das Colunas, em Vitória, rumo ao seu cárcere, preferiu se jogar nas águas a sofrer as injustiças  reservadas à ele. 


Destaca-se também a atuação do capitão do mato Antônio Pinto das Neves, destacado para a tarefa de perseguir e capturar os fugitivos, conhecido por ser extremamente cruel com os cativos que conseguia capturar. 


Contentados com a prisão, ao menos, dos principais líderes da insurreição, entre eles, Elisiário, Chico Prego, João da Viúva,  entre outros, somando aproximadamente 30 réus foram julgados cerca de 72 dias depois da eclosão da Insurreição, o julgamento ocorreu em massa, com todos sendo julgados ao mesmo tempo;


havia um forte clamor popular para que a pena fosse a mais severa possível, exemplar e dura, houve cobertura da imprensa da época, pois o os rumores dos revoltosos do Queimado haviam se espalhado por toda a região.


O Jornal Correio de Vitória traz a seguinte matéria sobre o julgamento: 


Reuniu-se no dia 31 de maio findo, no paço da Câmara Municipal, o júri extraordinário para julgar o processo instaurado contra os negros do Queimado e tendo-se conservado em sessão permanente até o dia 02 de julho, às 10 horas da manhã, sentenciou 5 a pena última como cabeças, absolveu 6 e condenou os outros a acoites. 

Faltam ainda ser julgados 4 que estão foragidos e se acham pronunciados no art. 113 do Código Criminal 


Vários documentos referentes ao julgamento foram extraviados o que dificulta o número exato dos condenados. 


A suposta defesa ficou a cargo do padre João Clímaco de Oliveira Rangel, morador do Queimado e dono de escravos envolvidos na Insurreição.


O Código Criminal do Império de 1830 contemplava o crime de "insurreição", as penas variavam entre açoites ou com a morte "natural pela forca". 


Os líderes da Insurreição foram condenados a morte "natural pela forca" aguardaram o cumprimento de sua pena na cadeia de Vitória. 


Misteriosamente, na madrugada do dia 7 de dezembro de 1849 Elisiário, Carlos e João conseguiram fugir de seu cárcere, não foi encontrado nenhum sinal de arrombamento, as trancas e cadeados estavam intactos.


João da Viúva e Chico Prego, presos em outra cela, continuaram presos e foram enforcados, como de costume da coroa portuguesa os corpos foram esquartejados e pendurados em postes para servir de exemplo. 


Chico Prego recebeu sua pena capital onde hoje se encontra a Praça da Serra Sede, hoje em dia existe uma estátua no local de sua morte, João da Viúva foi enforcado na frente da Igreja de São José em Queimado, Elisiário e os outros presos nunca mais foram encontrados e se tornaram parte do folclore do Queimado;


a fuga de Elisiário e dos outros presos é atribuída, por muitos, a um milagre de Nossa Senhora da Penha, padroeira do Espírito Santo.  




Estátua de Chico Prego na Praça Almirante Tamandaré na Serra Sede, nas localidade onde ele foi enforcado.

  


Também faz parte da mitologia do Queimado a garra de Chico Prego, mesmo vendo seu injusto fim se aproximar permaneceu resoluto e altivo; 


Reza a lenda que em sua cela, enquanto esperava para a execução de sua pena capital, Chico Prego, conhecido tanto pela força física como pela coragem, recebeu a visita de frades vindos do Convento da Penha para prestar os "socorros de nossa religião" ao condenado; 


sereno e sem medo disse as seguintes palavras para os frades:         


- a morte não me assusta, pecado não tenho; sabe padre ...da minha boca nunca vão ouvir um pedido de perdão e quando eu me for, eu vou satisfeito, porque se não consegui minha liberdade aqui na Terra, pelo menos com a morte vou estar livre de tanta amargura;

quando a corda se esticar no meu pescoço, da minha boca não se ouvirá nem um gemido, nem um suspiro, nem um grito de dor.


...


Queimado é um lugar muito especial de nosso estado e de nosso país, ele conta uma história que nós não devemos nunca esquecer; 


a história de um povo que preferiu morrer lutando pela liberdade do que viver como escravos. 



QUEIMADO NOS DIAS DE HOJE 



Nos dias atuais, Queimado é um lugar que emana espiritualidade, história e luta. 


Durante muitos e muitos anos ficou relegado ao esquecimento tendo a sua estrutura se esfacelando pedra por pedra até restar apenas as ruínas. 


A primeira foto, com a qual abrimos nosso artigo, data de 1945 e percebemos que nesta época a Igreja ainda estava de pé, nas décadas subsequentes ela foi se deteriorando muito; 


infelizmente, muita coisa se perdeu neste período de alienação histórica de nossa sociedade; 




As ruínas de Queimado ficaram por muitas décadas relegadas ao esquecimento e por pouco não se perderam por completo. 




Somente na década de 1990 é que as coisas começaram a mudar, len... ta... men...te; 


Em 1993 foi tombado pelo Conselho Estadual da Cultura; 


e somente em 2019, 170 anos depois de sua inauguração, recebeu sua primeira restauração, transformando-se em um museu a céu aberto pulsando história e cultura.


A reforma foi viabilizada por meio de um acordo de Cooperação Técnica  entre o município de Serra e o Sindicato de Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo (Sincades), a reforma custou aproximadamente R$ 1,3 milhões. 


É realmente uma pena que a cultura em nosso país seja tão subjugada, o que explica um atraso de 170 anos para restaurar um sítio de tamanha importância histórico/cultural?


Quantos outros lugares de importância histórica/cultural estão por aí, abandonados? 


...


Pelo menos a reforma da Igreja de São José do Queimado está efetuada, está posta para as futuras gerações e ficou boa, muito boa mesmo!!


Esta é a Igreja de São José do Queimado depois da restauração feita em 2019, as paredes laterais são a única parte original da Igreja que resistiu ao tempo e ao descaso, para se ter uma ideia de como era a parte que está faltando esta  foi complementada com uma armação de ferro simulando a estrutura original, a estradinha que aparece na foto leva a um cemitério da região, onde eram enterrados os membros da comunidade, escravos, quando morriam, eram enrolados em lençóis e jogados na Lagoa das Almas. 






Esta é a parte lateral da Igreja, a parede é original, onde falta a parede foi complementado com chapas de ferro. 






Este é os fundos da Igreja, o monte de pedras que você vê na foto são materiais originais da construção da  época, na parte interna da Igreja tem muito material explicativo contando a história do local, é muito intuitivo.  




Aqui a parte interna vista mais de perto.



SÍTIO HISTÓRICO DO QUEIMADO - TRILHAS DE BIKE


Queimado também virou point para quem gosta de dar umas pedaladas por aí;


faz parte do "circuito Queimado" de trilhas de bike que circundam o Mestre Álvaro, veja a seguir as fotos do trajeto deste fantástico percusso, neste caso, saindo de Carapina: 

 



O caminho segue por estradas abertas aos pés do Metre Álvaro, aqui, saímos de Carapina paralelo a Rodovia do Contorno. 



Aqui estamos próximos aos bairros de Serra Sede, seguindo a estrada da foto vamos parar em Cascata na Serra, Queimado fica "virando a esquerda" da foto.






Aqui é o começo da jornada, ainda na região de Carapina perto do cemitério de Carapina e também perto de outro sítio histórico; a Igreja de São João de Carapina 




Aqui, já estamos próximos da Igreja do Queimado uma estradinha com uma vibe super natureza, ao pés do Mestre Álvaro!!




Aqui, uma visão panorâmica no meio da subida 




Mais da paisagem!



Mas não se iludam, é preciso subir morros para chegar em Queimado, mas eu garanto que vale muito a pena.




Esta, provavelmente, é a Lagoa das Almas, onde os negros escravos eram simplesmente jogados quando morriam. 



Mais da Lagoa da Almas, hoje um lugar de paz e tranquilidade.



Outra estrada da região, seguindo por esta estrada você sairá na Represa do Rio Santa Maria, outro lugar muito legal da região.



Mais subida ...



Esta é uma pedalada muito agradável.



Reparem no estado das ruínas do Queimado em 2017, data das fotos. 





A IMPORTÂNCIA DO QUEIMADO




Agora, nos encaminhando para o fim de nosso artigo, só nos resta ressaltar a importância que tem conhecer e preservar a história do Queimado;

e, em se reconhecendo esta importância, voltar nossos olhos para tantos outros lugares que contam tanta história e estão abandonados, tanto pelo poder público quanto pelo povo.

Infelizmente, o Brasil não é um país que cuida bem da sua cultura... 

Queimado mesmo, além de tudo que representa, também é o símbolo de nosso descaso com nossa própria cultura, afinal, lembramos mais uma vez que foram 170 anos para um resgate desta fonte de história e cultura.

Quem sabe um dia desenvolveremos a arte de "contemplar" nossos símbolos. 

Eu acredito nisso, e você? 



VIVA QUEIMADO!! 

VIVA NOSSA CULTURA!!
 



Venha conhecer Queimado!! Você não vai se arrepender!! 

  

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E aí, amigas e amigos !!


Gostaram do artigo desta semana??


Deu um trabalhão fazer essa pesquisa, mas valeu muito a pena!!


Aprendi muito sobre nossa cultura, nosso povo e nossa luta !!


Quando você pesquisa sobre a sua própria cultura é como se olhar em um espelho. 


E só mais uma coisinha que eu esqueci de falar no artigo;


o dia oficial do Queimado é o dia 19 de março!! 


Portanto, no próximo dia 19 de março de 2022 lá se vão 173 anos de história!!


Como é importante conhecer nossa própria história, não é mesmo?  


Semana que vem tem mais !!


Até lá e cuidem-se !!



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