A FAREWELL TO A PROFESSOR





É sempre difícil falar de algo com o qual você está extremamente envolvido porque o texto perde a objetividade e fica muito emocional, mas o RUSH me ensinou que você pode ser emocional e racional ao mesmo tempo.


Não é uma coisa fácil de se fazer, requer envolvimento e compromisso, mas é possível.


A história do RUSH é uma daquelas histórias de destino, pois, colocou no mesmo espaço e tempo as peças que se juntariam para formar algo extraordinário, desde a adolescência, lá no longínquo ano de 1966 quando Alex Lifeson em uma guitarra e Jonh Rutsey em uma velha bateria davam vasão para a energia típica da adolescência emulando os hits de seus ídolos da época; 


Jimmy Hendrix, Eric Clapton, Keith Moon o baterista do The Who, entre outros.
 

Geddy Lee também estava por lá, aguardando sua chamada do destino e cruzando com Alex pelos corredores da escola Fishervile Junior High School em Toronto, no Canadá. 


Nas garagens e porões de Toronto Alex e Jonh tocavam seus instrumentos, o nome desde embrião do RUSH na época era “The Project”, mas depois, com o relativo sucesso nas festas do bairro, a banda decidiu mudar o nome, foi o irmão mais velho de Jonh Rutsey; Bill Rutsey que sugeriu o nome RUSH, que passava uma ideia de urgência e energia tudo que a banda queria passar com toda aquela pulsão adolescente, assim nasce uma das maiores bandas de todos os tempos... 


Foi marcante em toda a história dos integrantes do RUSH melhorar a qualidade musical, esta foi a característica que começou a chamar a atenção de todos e o nome RUSH foi ganhado destaque nos entornos da região, o jovem Ray Danniels começou a empresariar a banda e a coisa foi ficando cada vez mais séria, com a formação Alex Lifeson na guitarra, Geddy Lee no baixo/vocal e Jonh Rutsey na bateria a banda foi se consolidando na vizinhança. 


Nessa época a sonoridade dos meninos era profundamente influenciada pelo Led Zeppelin e como acontece com a maioria das bandas o relativo sucesso começou a influenciar as relações; 

Jonh Rutsey começou a se sentir incomodado com Lee que, por ser o vocalista, chamava mais a atenção do que  Rutsey, este convenceu Lifeson a retirar Lee da banda e em seu lugar colocou Joe Perna, enquanto isso Lee foi para outra banda chamada “Ogilivre” como resultado destas mudanças o RUSH, que no processo mudou o nome para “Hadrian”, despencou no gosto popular e a banda de Lee começou a fazer mais sucesso do que o antigo RUSH, no entanto, tanto a nova banda de Lee quanto a nova formação do RUSH entraram em um processo de decadência e, meses depois das mudanças, tanto Lee quanto Lifeson conversaram e decidiram se juntar novamente (destino), Rutsey teve que aceitar a volta de Lee.



Em 1971 todos os integrantes estavam com 18 anos o que significava que eles estavam “livres” da escola e com a possibilidade de tocar em novas casas de shows, entramos em uma nova fase na banda. 

Lee e Lifeson se aprofundaram no estudo de seus instrumentos e foi nesta nova fase que a banda entrou em estúdio para gravar sua primeira demo com o registro de uma de suas apresentações ao vivo, no entanto, esta demo caiu no esquecimento e se perdeu no tempo isso aconteceu porque na década de 1970, em Toronto, o que estava bombando nas rádios era o soft rock e o estilo brutal e visceral da banda não convenceu os radialistas canadenses da época, mas Ray Danniels, não desistiu e chegou a montar um selo para lançar a banda, a Moon Records


Depois desses eventos a banda ficou mais profissional e também já estava consolidado um estilo próprio com riffs de guitarra marcantes e uma linha de baixo extremamente prodigiosa, mesmo com estas características únicas o sigle lançado vendeu pouco, mas Danniels continuou apostando na banda. 


Chamou um novo produtor local e experiente, David Stock, que não conseguiu enxergar as particularidades da banda e deixou as músicas pasteurizadas demais, novamente Danniels bancou a contratação de um novo produtor, Terry Brow, este sim fez um excelente trabalho e a banda conseguiu lançar seu primeiro álbum com uma tiragem inicial de 3500 cópias isso em 1973. 


Nesse ano houve uma grave crise econômica mundial gerada por uma crise do petróleo que adiou o lançamento do disco para o ano de 1974, mas mesmo antes do disco ser lançado o RUSH já estava abrindo shows para bandas como New York Dolls e ZZ Top, inclusive, diz a lenda que em um dos shows do RUSH, enquanto o público pedia um bis, misteriosamente, os instrumentos da banda foram desplugados, quem conta essa história é Dawe Ward.


Sendo essa história verdadeira ou não, o fato é que o RUSH, nessa época, estava fazendo muito sucesso no Canadá.


Das 3500 cópias do álbum de debut do RUSH uma delas foi parar nas mãos da Dj Donna Halper nos EUA que passou a toca-lo exaustivamente em sua programação, este fato abriu um novo e promissor mercado para a banda; o mercado americano. 


A partir daí, depois desse impacto inicial, praticamente todas as rádios americanas tiveram contato com este novo som, a capa simples do disco com o nome RUSH escrito em tons de rosa confundiu muita gente que achava se tratar de um novo disco do Led Zeppelin, o que, de certa forma, foi mais um fator que ajudou a popularizar a banda na terra do Tio Sam. 


O disco debut do RUSH, tons rosa em um fundo branco que confundiu muita gente!
Na bateria Jonh Rutsey. 




No final de 1974 o RUSH já era uma banda inserida no circuito local, com uma popularidade crescente no Canadá e nos EUA, houve ainda uma proposta irrecusável da gravadora americana Mercury para relançar o álbum da banda no mercado americano e iniciar uma turnê em cidades canadenses e americanas, a pressão começou a aumentar e todas essas pressões, aliada a um início de diabetes, pesaram para Jonh Rutsey, a saída do baterista era questão de tempo.


Enquanto isso... outro ser espetacular aguardava o chamado do destino para brilhar.


Neil Peart nasceu em 1952 em Hamilton, Canadá e desde muito cedo demonstrou aptidão para ritmos, com 13 anos os pais o presentearam com aulas de piano, depois de algumas aulas, Peart chamou os pais e pediu para trocar as aulas de piano por aulas de bateria, pedido prontamente atendido. 


O pai de Peart era um amante de Jazz e Peart um amante de rock, assim, neste ambiente ouvindo jazz e rock, foi se formando a personalidade deste gênio, obviamente que a ideia de viver da música era uma constante nos planos de Peart, ele já havia tocado em várias bandas no Canadá e, quando completou 18 anos, foi parar na Inglaterra com a intenção de entrar para um grande banda e viver da música, mas as coisas não saíram como planejado, ele até tocou em algumas bandas na terra da rainha, mas, de forma geral, as coisas não deram certo e depois de um ano e meio de tentativas frustradas decidiu voltar para o Canadá e trabalhar na loja de conveniência dos pais e tocar sua bateria de forma semiprofissional, sem fazer disso seu meio de vida, Coincidindo com a volta da aventura frustada de Peart na Inglaterra, em outro ponto da cidade, Alex e Geddy estavam a procura de um novo baterista e mais uma vez o destino rolou os dados e pôs em ação seus planos. 


Por meio de amigos em comum Alex e Geddy tomaram conhecimento de Peart e assim que foi convidado a fazer um teste na banda Peart aceitou e, logo nas primeiras sessions, o power-trio já demonstrou um entrosamento impressionante, em julho de 1974 nascia a formação do RUSH que iria encantar o mundo.



O Power Trio em seus primórdios!



Em 1975 foi lançado o segundo álbum da banda “Fly By Nigth”, com Peart como letrista e uma marcação de bateria que acentuava uma diferença abissal em comparação ao primeiro disco, essa diferença chamou muito a atenção e aumentou, em muito, a quantidade de admiradores da banda, Como nem Lee nem Liefson tinham o menor interesse em compor a função de letrista caiu no colo de Pert o que foi providencial, pois, Peart era um leitor ávido de livros dos mais diversos assuntos, suas letras vão da literatura a filosofia. 


O disco de estreia de Peart marca um estilo próprio da banda. 



Eis "O Disco", nasce o RUSH!
O desenho emblemático da coruja é obra de Peart também.  



A música “By Thor e Snow Dog” com 7 minutos dava a pista sobre o que aconteceria com a entrada de Peart; músicas trabalhadas, tanto nas letras quanto nos arranjos, linhas de baixo e bateria inimagináveis até então e sem a preocupação comercial, com esta filosofia de trabalho surge o terceiro disco “Carres Of Steel” este disco tem algumas características. 

Primeiramente, marca a entrada de Hugh Syme na composição da capa, Syme é responsável por praticamente todas as capas dos discos a partir de “Carres of Steel”, também é marcante o fato do disco ter músicas longas e profundas, nada comerciais com letras que versam sobre a literatura de J.R.R. Tolkien e, por este motivo, ser um disco que, comercialmente, pode ser considerado um fracasso de vendas e que rendeu uma turnê muito curta e de pouca representação. 


 
O disco que marca a estreia de Hug Same, depois desse disco todas as capas são trabalho de Same.



Agora inseridos no show bussinres a banda sofreu uma grande pressão da gravadora para que, em sue próximo álbum, fizesse músicas menores e mais acessíveis para tocar nas rádios, Contrariando as exigências da gravadora a banda fez o que achava que era certo, o resultado desta rebeldia foi um dos álbuns mais aclamados da história do Rock mundial.  


No ano de 1976 o RUSH lançou o disco 2112, a capa do disco era um homem nu em frente a uma estrela vermelha o que rendeu à banda a pecha de satanistas, ocultistas e coisas do tipo, pura ignorância de quem não ouviu com atenção a letra da música que dava o nome ao disco; 

O aclamadíssimo 2112!



2112 refere-se ao ano de 2112 onde a sociedade humana é dominada por máquinas e toda a expressão humana está proibida, neste mundo distópico, um homem acha uma guitarra enterrada, a princípio ele não sabe o que fazer com ela, mas aos poucos e instintivamente, ele aprende a fazer música sendo descoberto e morto pela Federação Solar, sua morte ecoa e deixa uma mensagem de esperança, rebeldia e resistência para lutar contra a opressão das máquinas. Resumidamente, esta é a história da música de 22 minutos que ocupava todo o lado B de um dos discos mais aclamados da história.


2112 é uma ópera rock dividida em 7 partes simplesmente fantástica e muito bem executada. 


2112 é, sem sombra de dúvidas, um marco na história do rock mundial e fecha um ciclo da banda que a partir daí sempre vai lançar 4 discos de estúdios e 1 disco ao vivo, fechando um ciclo e sempre se reinventando.


A década de 1980 traz como inovação, para a musicalidade da época, o uso de teclados e sintetizadores deixando para trás o som cru de baixo, guitarra e bateria. 


Os integrantes do RUSH adquirem novos brinquedos; 


Geddy Lee adquire um teclado, Lifeson uma guitarra com braço duplo e Peart incrementa sua bateria com sons eletrônicos, a nova musicalidade da banda inclui todas estas inovações sem perder seu DNA, a marca da banda está lá, mesmo no mar de sintetizadores que envolvia os anos 80's, basta ouvir hits com “Xanadu” ou “Cignus X-1” para entender o que estou falando. 


É também nesta década que a banda deixa o eixo Canadá-Eua e começa a fazer sucesso em outras partes do mundo como a Europa, por exemplo, consolidando seu lugar no hall das melhores bandas de rock progressivo de todos os tempos.


Nesta nova fase, iniciada em 1977 até 1981, o RUSH lançou os álbuns “A Firewell To Kings” “ Hemispheres” “Permanent Waves” “Moving Pictures” este o que contém a música mais conhecida da banda no Brasil, tema de abertura do seriado Profissão Perigo “Tom Sawyer” e o disco ao vivo “Exit... Satage Left” fechando mais um ciclo, o segundo ciclo.


Empolgados com as experienciações iniciadas na fase anterior a banda segue se reinventado sem nunca abandonar sua identidade, nesta época o método de composição muda um pouco. 


Lee deixa o baixo de lado e vai para as jeans sessions com o teclado daí surge músicas emblemáticas como “Subdivisions” e “Digital Man” ambas com um teclado bem marcante, mas com o RG do RUSH, sem dúvida! 


As letras de Peart mudam de temática nesta fase; 


sai a literatura inglesa e entra problemas mais humanos, de relacionamento entre pessoas e falando de novas tecnologias além de divagações filosóficas. 


Com estas adaptações a banda ganha toda uma nova legião de fãs mundo afora e muda também o produtor musical. 


Sai Terry Brow e entra Peter Henderson o teclado e os sintetizadores vão ganhando espaço na nova sonoridade da banda, Lifeson apura mais seus solos na guitarra e Peart incrementa ainda mais sua bateria. 


Nesta fase - 3º estágio - temos os seguintes discos: “Signals” “Grace Under Pressure” “Power Windows” “Hold  Your Fire” e o ao vivo “A Show Of Hands”.


Eu, particularmente, adoro esta fase, o teclado e sintetizadores dão um melodia graciosa e o vigor dos músicos complementa a experiência.


Agora, estamos na complicada década de 1990, era do Grunge, das Boys Bands, e da Lambada. 


Como se reinventar numa época tão complexa, musicalmente falando, como a década de 1990?


O primeiro passo na nova sonoridade da banda nessa época tão complexa foi deixar de lado o mar de sintetizadores dos anos 80's e voltar a fazer um som mais cru, com os teclados e arranjos mais em segundo plano. 


Temos que lembrar que nesta década a MTV ditava tendências, assim sendo, nesta fase a banda flerta com o groove e com o funky  “Roll The Bones” é um bom exemplo dessa nova fase, mesmo com a qualidade padrão RUSH, nos primeiros dois discos podemos dizer que a década de noventa “contaminou” estes trabalhos com experimentações que fogem bastante da sonoridade da banda. 


No entanto, o 3º disco da banda “Countemparts” é uma obra prima e salva a famigerada década de noventa.



Counterparts, o disco que salvou a famigerada década de noventa.

 

Neste trabalho temos um disco com músicos inspirados e músicas vigorosas, as letras de Peart são relevantes e abrangem relacionamentos do ponto de vista feminino em “Cold Fire” literatura de TS Eliot em “Double Agent” e AIDS em “Nobody Is Hero”.


Em julho de 1997 fatores pessoais afetariam Neil Peart de modo profundo... 


Primeiro, sua filha Selena, de 19 anos, perde a vida em um acidente de carro e um ano depois sua esposa Jacqueline Taylor é vítima de um câncer. 😢


Destruído por suas perdas Peart montou em sua BMW R1 100 GS e saiu em uma viagem de autoconhecimento que durou 14 meses e mais de 90 mil quilômetros saindo de Quebec, no Canadá, até o Alasca e descendo pela costa americana e canadense depois cruzando o México,  desta viagem nasceu um de seus livros Ghost Rider -  A Estrada da Cura  que eu tive o prazer de ler em 2014.



Foram dias maravilhosos lendo este livro ...



 Aliás, este livro, de certa forma, me aproximou de Peart e me fez entender certos comportamentos dele, tanto a frente da banda como em sua vida pessoal, me fez enxerga-lo como um ser humano que sofre e sente e não como aquele ser frio e cerebral. 


A leitura desse livro “limpou” da minha mente a imagem do ser humano que não se abala e é sempre racional e frio, nós temos que ter em mente que existe a obra e existe o ser humano por de trás da obra. 


Peart sempre foi uma pessoa fechada e discreta, não gostava de dar entrevistas, não chegava a frente do palco para dar aquele agradecimento ao público no final do show, mas é óbvio que ele sabia que era querido e admirado por milhões de pessoas mundo afora e sua forma de agradecer essas pessoas era produzir conteúdo. 


Artigos sobre as turnês, livros, tootbooks, crônicas, tutoriais de bateria (daí o apelido carinhoso de “The Professor”) entre outros materiais, ele era um cara que dava muita importância para o seu espaço, acho que seu maior medo era de gente estranha invadindo sua intimidade. 


Foi assim inclusive na morte dele, que só foi comunicada ao grande público 3 dias depois do ocorrido, com certeza uma exigência dele e daqueles que lhe eram próximos que tiveram 3 dias para se despedir sem o alvoroço que seria, caso tivessem comunicado o fato no mesmo dia do ocorrido. 


A morte de Peart foi coerente com a sua vida.


Eu me tornei um admirador do RUSH na década de 90's e, quando comecei a comprar os discos e ouvir com  interesse crescente, não fazia ideia das tragédias pessoais que estavam assolando a vida de Peart, em 2002 eles lançaram o álbum “Vapor Trails” e eu não tinha ideia de que este disco vinha logo depois das tragédias pessoais de Peart, de toda a incerteza sobre o futuro da banda, também em 2002 eles vieram ao Brasil com a turnê Vapor Trails, eu fui no Show no Maracanã, conheci o disco Vapor trails lá, fiquei encantado com aquelas 3 horas de Show, comprei o disco dias depois ouvi meses sem parar e não fazia ideia de toda essa bagagem emocional, de toda essa pressão .... 


O Show no Maracanã, uma dessas almas sou eu!!



Depois, no ano de 2004, eles lançaram o disco “Feedeback” o primeiro e único disco de covers, depois veio o “Snakes and Arons” simplesmente espetacular, isso em 2007 e finalmente “ClockWork Angels” de 2012 o último disco de estúdio até o anúncio do fim da banda em 2015.


Quantas bandas têm uma trajetória tão vencedora assim?


E é importante lembrar da amizade que a banda tem por cada um respeitar o espaço um do outro, eles mesmos diziam sempre:


"separados não somos nada, juntos somos o RUSH".


Um olhar apurado na obra do power trio e você vai perceber uma alusão ao número 3, não por acaso, essa alusão é uma referência à amizade destes 3 monstros, fico imaginando como deve está a cabeça desses caras.... 


São 40 anos de história, 40 anos de fraternidade, uma vida inteira de companheirismo;


Alex! Geddy! Força aí caras!!!  


Agora, tendo que me despedir do meu Professor, fica a lição de humanidade e amizade que ele deixou junto de seus companheiros de banda e de vida e a certeza de que seu legado fica até o ano de 2112 e além.....

Neil Peart, onde ele nasceu pra estar.



               

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